CAPÍTULO DOIS

1696 Palavras
CAPÍTULO DOIS – É só isso? – Gina perguntou, espiando por cima do ombro de Lacey para ver o bloco de notas diante dela na mesa, cheio de anotações rabiscadas. – O seu grande plano? Era a manhã seguinte à noite anterior de bebedeira; as duas mulheres estavam na loja de antiguidades, fazendo o máximo para atender ao constante fluxo de clientes apesar da forte ressaca. – Meu grande plano – Lacey confirmou, batendo na página com a caneta. – Reservei uma parte do dinheiro da venda da moeda de ouro e posso usá-lo para comprar estoque para o leilão com temática equestre. Vou fazer um tour com algumas paradas em Dorset para buscar algumas embocaduras, cabeçadas, estribos e esporas em uma loja em Bournemouth, depois vou a uma loja especializada em couro em Poole para pegar algumas sanduicheiras e cantis. Por fim, vou passar em um lugarzinho fofo em Weymouth que vende gravuras e obras de arte. – “Muth”. – O quê? – A pronúncia é “muth”, não “mauth”. Wey-“muth”. Bourn-“muth”. Não se pronuncia o “O”. – Entendi, entendi! – Lacey interpôs, embora estivesse ciente de que logo esqueceria a correção de Gina e reverteria a pronuncia fonética sem se dar conta. Pronunciar nomes de lugares ingleses não era seu forte. Porém, justiça seja feita, eles tinham a ortografia bem confusa! Leicester? A pronúncia é Lester! Worcestershire? A pronúncia é Uos-ter-chir! Aparentemente ficava fácil uma vez que se conhecia a regra, mas ela caiu por terra quando Lacey, cheia de confiança, havia pronunciado Cirencester como “Cern-ster”, somente para descobrir que tinha encontrado a única exceção à regra e que a pronúncia correta era “Sai-ren-ces-ter”. – Bem, parece que está com tudo mapeado – Gina disse, com um suspiro. – E Bournemouth é magnífica no verão. Tem uma linda praia. O píer. Longas trilhas no penhasco. Chester vai amar. A pontada de pesar em seu tom de voz não passou despercebida por Lacey. Gina odiava ser deixada para trás, tomando conta da loja sozinha enquanto Lacey saia para se aventurar com Chester. Aquilo sempre fazia Lacey se sentir culpada. Então, precisava lembrar a si mesma de que era a dona da loja, que Gina era sua funcionária, e que era perfeitamente razoável fazer mais do que ficar parada atrás da caixa registradora e repor o estoque das prateleiras. – Não vou estar fora mais do que um dia – Lacey disse a ela. – Depois, mãos à obra para preparar a sala de leilões. Mas, enquanto eu estiver fora, tenho um projeto especial para você. – Lacey descobriu essa técnica após passar o dia com seu sobrinho de oito anos, Frankie, em Dover. Se ele precisasse de distração, ela simplesmente oferecia uma tarefa “muito importante”. – Ah é? – Gina perguntou, curiosa, imediatamente mordendo a isca. Lacey sorriu consigo mesma. – Preciso que você ligue para o Semanário de Wilfordshire e coloque um anúncio. Gina fez careta. – É só isso? – E – Lacey adicionou, pensando rápido – preciso que você... faça o design de um cartaz! Sim. Isso. Preciso que faça um cartaz para o quadro de avisos da comunidade e mande imprimir. Não fazia parte de seu plano original imprimir cartazes para o leilão; em vez disso, esperava que um anúncio no Semanário de Wilfordshire fizesse a maior parte do trabalho, junto com o tráfego de pedestres e o boca-a-boca. Mas a ideia parecia muito boa, agora que tinha a colhido de sua mente. Sua amiga Suzy, dona da Pousada do Chalé, sempre conseguia ocupação máxima com alguns cartazes cuidadosamente direcionados. – Design de cartaz? – Gina disse, parecendo interessada. – O que acha disso, Bou? – Ela baixou o olhar para sua cachorra. Boudica gemeu, concordando. Gina voltou-se para Lacey. – Negócio fechado. – Ótimo! – Lacey disse. – Estou de partida amanhã cedo, então podemos usar o domingo todo para preparar a sala de leilões. Acha que consegue terminar os cartazes até lá? – Ah, é moleza – Gina disse, já se apossando da tarefa. – E você sabe que a temática é equestre. Portanto, certifique-se de colocar um cavalo em algum lugar. Não precisa reinventar a roda. – Claro, claro, deixa comigo – Gina disse, espantando Lacey com a mão. Lacey não tinha certeza se deixar Gina, uma pessoa um tanto avoada, encarregada do cartaz era uma boa ideia, mas pelo menos a manteria ocupada. E, agora, iria partir para Dorset e passar o dia na caça aos tesouros. Que empolgante! – Você acha que Tom gostaria de ir comigo? – Lacey disse. – Já que Dover foi um desastre tão terrível, Dorset pode talvez ser a segunda chance que precisamos. – Você pode perguntar a ele – Gina disse. Lacey ergueu os olhos ao mesmo tempo em que o sino acima da porta tilintou e Tom entrou, vindo em sua direção. Lacey ficou surpresa em vê-lo tão perto da hora do almoço, seu horário de maior movimento. Talvez ele tinha vindo se desculpar por ter dado o bolo nela ontem à noite. – O que está fazendo aqui? – Lacey perguntou, seu interior cheio de antecipação. – Preciso de troco – Tom disse, balançando um punhado de notas de vinte libras enquanto passava direto por ela, sem parar, prontamente começando a contar moedas do caixa. – Os turistas sempre pagam com notas. Já percebeu? Ela tinha percebido, mas o ponto não era esse. – Pensei que estivesse aqui para se desculpar – ela disse, murchando. Tom só a escutava parcialmente enquanto contava o troco. – Desculpar? Por que você precisa se desculpar? – Eu, não! Você! Você cancelou ontem à noite. A cabeça de Tom se ergueu. Ele parou imediatamente o que estava fazendo. – Ah! Ah, Lacey, é claro. Eu sinto muito! – Ele abandonou a pilha de moedas e finalmente focou nela. Esfregou o braço dela com carinho. – Desculpe por cancelar com você. – O que houve? – Lacey perguntou. Não era do feitio de Tom ser tão instável. – Só chatices de trabalho – ele disse. – Uma noiva me ligou às lágrimas, cancelando o bolo de casamento porque o pai dela foi levado ao hospital com suspeita de ataque cardíaco. Eu já tinha quase terminado toda a cobertura, então, para reduzir minhas perdas, cortei o bolo e vendi as fatias. Só que a noiva me ligou algumas horas depois para dizer que o casamento estava de pé e que o pai dela estava bem. Foi só indigestão! Daí eu tive que fazer outro bolo. – Bem, por mais que eu esteja feliz pela noiva e o pai com problemas digestivos – Lacey disse –, foi uma decepção para mim. – Eu sei – Tom disse, acariciando sua bochecha com ternura. – Eu entendo. Vou me redimir com você, prometo. Só mais uma semana de loucura, depois as coisas podem voltar ao normal. Lacey não conseguia ficar com raiva dele. Ele claramente estava estressado. Tom geralmente desfrutava as demandas de seu trabalho na confeitaria, mas no momento ele parecia esgotado. – O Festival Equestre está te mantendo ocupado, hein? – Lacey perguntou. Tom assentiu. – Hoje de manhã, uma criança subiu na vitrine e derrubou o cavalo de corrida feito de macarons que eu tinha preparado para o festival. Tentei reconstruí-lo a manhã toda, mas a loja esteve tão lotada que ainda não tive a chance. Pela vitrine de sua loja, Lacey espiou a famosa vitrine de macarons de Tom do outro lado da rua. Nesse momento, era um cavalo sem cabeça. Ela não pôde evitar uma risada. – Minha nossa. Gina gargalhou. – Parece que ele foi pego pela máfia. – Sim, já ouvi essa – Tom disse, fatigado. – No mínimo cinco vezes. Porque quase todos os clientes estão fazendo piadas sobre isso. – Ele assumiu uma voz boba e disse: – “Deveriam te denunciar por maltrato aos animais”, ou “Confeitaria? Pensei que fosse o açougue!”. E por aí vai. Ele voltou a contar o troco. Lacey apoiou as costas no balcão, observando-o. – Acho que não é uma boa hora para te convidar para passar o dia viajando amanhã. Tom olhou para ela, sua expressão angustiada. – Amanhã? – Vou realizar outro leilão temático para o festival – ela explicou. – Estou planejando uma viagem para Dorset para conseguir estoque. – Outro leilão? – Tom disse, sorrindo. – Que ótimo. E bem que eu gostaria, mas meus biscoitos de gengibre em forma de cavalos não vão assar sozinhos. – Tudo bem – Lacey disse, sem esconder a decepção. – Chester pode ser meu companheiro. As orelhas de Chester se mexeram ao som de seu nome. – Desculpe, Lacey – Tom disse com sinceridade. – Quando o festival acabar podemos fazer quantas viagens a Dorset o seu coração mandar. Lacey tinha suas dúvidas quanto a isso. Até que Tom contratasse funcionários decentes, sempre haveria algo ocupando sua atenção. – Ei, tive uma ideia – Tom disse de repente, estalando os dedos. – Por que não vai com a minha van? Vai ter mais espaço para as suas compras. Ele disparou um sorriso esperançoso. Obviamente estava tentando ajudar, mas a van não era substituta para o tempo que ela poderia passar com ele, na opinião de Lacey. – Você não vai precisar dela? – ela perguntou. Tom meneou a cabeça e remexeu os bolsos em busca da chave. – É toda sua – ele disse. – Só traga de volta inteira. É melhor eu voltar para a confeitaria e lidar com o cavalo sem cabeça. Ele deu um beijo rápido em Lacey, depois saiu às pressas com o troco fazendo barulho no bolso. Lacey ficou parada, segurando as chaves da van e se sentindo um pouco como uma filha que tinha sido enganada, ganhando o carro dos pais de presente. Toda aquela troca tinha sido decepcionante, mas Lacey decidiu não se prolongar naquilo. Amanhã partiria em uma nova aventura, e quem poderia saber que tesouros empolgantes iria encontrar?
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