As Regras do Jogo

1297 Palavras
Eu sempre soube que havia um limite entre o ódio e o desafio. Mas Leonardo Valença parecia determinado a me empurrar direto para o abismo entre os dois. A manhã começou com o som de uma batida seca na porta. — Senhora Valença, o senhor pediu que a senhora desça — disse uma funcionária, com a voz trêmula. Revirei os olhos. — Ele não se cansa de dar ordens? — Disse que é importante, senhora. — Tudo é importante pra ele. Até o próprio reflexo. Desci com passos lentos, controlados. Já não era medo. Era cansaço misturado com raiva. Quando cheguei à sala, ele estava lá, de pé, próximo à lareira acesa — camisa branca, mangas dobradas, olhar cortante. O mesmo ar de quem dita leis e espera que o mundo obedeça. — Chamou? — perguntei, cruzando os braços. — Sente-se. — Prefiro ficar em pé. — Não pedi. Mandei. A raiva subiu. — O senhor confunde a palavra “esposa” com “empregada”. — Confundo a palavra “respeito” com “teimosia”. — Então vamos deixar claro desde já: não sou uma das pessoas que o senhor compra. — Engano seu, Isabella. Você foi o contrato mais caro que já assinei. — O senhor é podre. — Sou honesto. — Ele puxou um envelope da pasta e colocou sobre a mesa. — Estas são as regras da casa. Pisquei, incrédula. — Regras? — Sim. Há horários, restrições e protocolos. Quero evitar m*l-entendidos. — m*l-entendidos? O senhor me sequestrou, casou comigo e agora quer criar um manual de comportamento? — Exato. — Ele entregou o envelope. — Leia. Puxei o papel, abri e li em voz alta, com ironia. — “Regra número um: não sair da propriedade sem autorização.” — Olhei pra ele. — Está me prendendo? — Estou protegendo meu investimento. — O senhor é um canalha. — E você é descuidada demais. Próxima. Respirei fundo, tentando não jogar o papel na cara dele. — “Regra número dois: não interferir nos negócios da empresa.” — Essa é óbvia. — “Regra número três: não receber visitas.” — Segurança. — “Regra número quatro: manter postura adequada em público.” — Imagem. — “Regra número cinco: evitar discussões desnecessárias e dormirá no mesmo quarto comigo.” — Saúde mental. Deixei o papel cair. — A sua, imagino. Ele deu um passo à frente. — A minha e a sua. — Está impondo um regime, não um casamento e ainda exige que durmo com você na mesma cama e serio isso? — É assim que funciona, mas posso ser gentil e deixar você sozinha na cama eu durmo no chão. — E se eu quebrar todas essas regras? Ele deu um meio sorriso, calmo. — Descobrirá o que acontece. — O senhor se acha Deus, não é? — Apenas alguém que não tolera caos. — Então me desculpe, mas eu sou caos. Ele me olhou por longos segundos. — Isso é o que torna tudo mais interessante. A forma como ele disse aquilo me fez querer jogá-lo na lareira e, ao mesmo tempo, fugir do próprio corpo. O homem tinha o dom de provocar e destruir em uma única frase. Passei o resto da manhã ignorando completamente a lista de regras. Desci pro jardim, mesmo sabendo que ele odiava isso. Peguei um livro da biblioteca sem pedir. E mandei a funcionária preparar o almoço mais tarde só pra irritá-lo. Cada pequeno ato de rebeldia era um lembrete de que eu ainda existia dentro da prisão dele. Quando ele apareceu, já era meio-dia. A expressão calma dele me tirava do sério. — Parece que não entendeu o conceito de horário. — Entendi perfeitamente. Só decidi ignorar. — Está testando minha paciência? — Não. Estou apenas recuperando minha vontade de respirar. Ele deu um passo pra mais perto, o olhar fixo no meu. — Está brincando com fogo. — Fogo que o senhor acendeu. — E ainda acha que pode controlá-lo. — Eu não quero controlar nada. Só quero que me deixe em paz. — E acha que isso vai acontecer? — Um dia, talvez. Quando o senhor cansar de brincar de carcereiro. Ele riu, de canto. — Carcereiro não. Tutor. — Que diferença faz? — O carcereiro prende. O tutor ensina. — Então lamento informar, mas sou uma péssima aluna. — Eu percebi. — Ele se inclinou, o rosto perigosamente próximo. — Mas adoro desafios. Senti a respiração dele, o perfume amadeirado e o calor que eu odiava sentir. Dei um passo atrás. — Mantenha distância. — Não cheguei perto o suficiente. — O senhor quer que eu grite? — Quero que entenda que não precisa. — Preciso sim. É a única forma de não enlouquecer. Ele desviou o olhar, ajeitou as mangas da camisa e disse, calmo: — Às oito, jantar. — O senhor realmente não cansa de se ouvir, né? — Não. Tenho voz agradável. — Tem voz de pesadelo. — E ainda assim, sonha comigo. O atrevimento dele me fez ficar sem palavras. Mas eu não o deixaria vencer. — Continue acreditando nisso. É mais confortável que encarar o vazio dentro de si. Por um instante, o olhar dele mudou. Um lampejo. Algo entre raiva e... dor. Mas passou rápido. Ele se virou e saiu, deixando apenas o som dos passos e o cheiro do perfume dele no ar. Passei o resto do dia tentando entender o que me irritava mais: a frieza dele ou o poder que ela tinha sobre mim. Aquela casa era feita pra me lembrar do meu lugar — mas cada canto também me fazia lembrar que eu ainda tinha uma escolha: resistir. Quando a noite caiu, vesti qualquer coisa e desci. Ele já estava à mesa, lendo um documento, impecável como sempre. — Boa noite — murmurei. — Boa noite. — Sem levantar o olhar. — Vejo que seguiu uma regra, ao menos. — Não fiz isso por obediência. Fiz porque fiquei com fome. — Motivos diferentes, mesmo resultado. — E é isso que importa pro senhor, não é? O resultado. — Sempre. — Mesmo que o preço seja a alma dos outros. Ele ergueu o olhar, finalmente. — Alma é luxo de quem ainda acredita em pureza. — E o senhor acredita em quê? — No que posso tocar. No que posso controlar. — Então nunca acreditou em ninguém. — Não. — Que vida triste. Ele me encarou, e por um segundo eu achei que ele fosse responder, mas ele apenas respirou fundo, contido. — Termina de jantar e volta pro seu quarto. — Está me mandando dormir também? — Não. Estou mandando não cruzar mais o limite. — Que limite? — O da paciência. Sorri, amarga. — Achei que o senhor não tivesse sentimentos. — Eu não tenho. Mas ainda sei quando alguém tenta atravessar a linha. — E o que acontece quando alguém atravessa? — Eu mostro que sou quem dita as regras. Levantei-me. — O senhor pode ditar as regras da casa, Leonardo. Mas não as minhas. Ele também se levantou, cada gesto calculado. — Isso é o que vamos descobrir. Nossos olhares se cruzaram, e o silêncio foi mais barulhento do que qualquer grito. Era guerra, e nós sabíamos. Dei um passo pra trás. — Boa noite, senhor Valença. — Boa noite, Isabella. Subi as escadas com o coração batendo alto demais. Quando fechei a porta, respirei fundo e olhei o papel das “regras” ainda sobre a cômoda. Peguei, amassei e joguei no lixo. Se ele queria jogar, eu também sabia jogar. E enquanto aquele homem acreditasse que podia me dobrar com regras, eu mostraria que algumas pessoas nasceram pra quebrá-las. Naquela casa, o jogo tinha começado. E eu não pretendia perder.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR