Eu sempre soube que havia um limite entre o ódio e o desafio.
Mas Leonardo Valença parecia determinado a me empurrar direto para o abismo entre os dois.
A manhã começou com o som de uma batida seca na porta.
— Senhora Valença, o senhor pediu que a senhora desça — disse uma funcionária, com a voz trêmula.
Revirei os olhos. — Ele não se cansa de dar ordens?
— Disse que é importante, senhora.
— Tudo é importante pra ele. Até o próprio reflexo.
Desci com passos lentos, controlados. Já não era medo. Era cansaço misturado com raiva.
Quando cheguei à sala, ele estava lá, de pé, próximo à lareira acesa — camisa branca, mangas dobradas, olhar cortante.
O mesmo ar de quem dita leis e espera que o mundo obedeça.
— Chamou? — perguntei, cruzando os braços.
— Sente-se.
— Prefiro ficar em pé.
— Não pedi. Mandei.
A raiva subiu. — O senhor confunde a palavra “esposa” com “empregada”.
— Confundo a palavra “respeito” com “teimosia”.
— Então vamos deixar claro desde já: não sou uma das pessoas que o senhor compra.
— Engano seu, Isabella. Você foi o contrato mais caro que já assinei.
— O senhor é podre.
— Sou honesto. — Ele puxou um envelope da pasta e colocou sobre a mesa. — Estas são as regras da casa.
Pisquei, incrédula. — Regras?
— Sim. Há horários, restrições e protocolos. Quero evitar m*l-entendidos.
— m*l-entendidos? O senhor me sequestrou, casou comigo e agora quer criar um manual de comportamento?
— Exato. — Ele entregou o envelope. — Leia.
Puxei o papel, abri e li em voz alta, com ironia.
— “Regra número um: não sair da propriedade sem autorização.” — Olhei pra ele. — Está me prendendo?
— Estou protegendo meu investimento.
— O senhor é um canalha.
— E você é descuidada demais. Próxima.
Respirei fundo, tentando não jogar o papel na cara dele.
— “Regra número dois: não interferir nos negócios da empresa.”
— Essa é óbvia.
— “Regra número três: não receber visitas.”
— Segurança.
— “Regra número quatro: manter postura adequada em público.”
— Imagem.
— “Regra número cinco: evitar discussões desnecessárias e dormirá no mesmo quarto comigo.”
— Saúde mental.
Deixei o papel cair. — A sua, imagino.
Ele deu um passo à frente. — A minha e a sua.
— Está impondo um regime, não um casamento e ainda exige que durmo com você na mesma cama e serio isso?
— É assim que funciona, mas posso ser gentil e deixar você sozinha na cama eu durmo no chão.
— E se eu quebrar todas essas regras?
Ele deu um meio sorriso, calmo. — Descobrirá o que acontece.
— O senhor se acha Deus, não é?
— Apenas alguém que não tolera caos.
— Então me desculpe, mas eu sou caos.
Ele me olhou por longos segundos. — Isso é o que torna tudo mais interessante.
A forma como ele disse aquilo me fez querer jogá-lo na lareira e, ao mesmo tempo, fugir do próprio corpo.
O homem tinha o dom de provocar e destruir em uma única frase.
Passei o resto da manhã ignorando completamente a lista de regras.
Desci pro jardim, mesmo sabendo que ele odiava isso.
Peguei um livro da biblioteca sem pedir.
E mandei a funcionária preparar o almoço mais tarde só pra irritá-lo.
Cada pequeno ato de rebeldia era um lembrete de que eu ainda existia dentro da prisão dele.
Quando ele apareceu, já era meio-dia.
A expressão calma dele me tirava do sério.
— Parece que não entendeu o conceito de horário.
— Entendi perfeitamente. Só decidi ignorar.
— Está testando minha paciência?
— Não. Estou apenas recuperando minha vontade de respirar.
Ele deu um passo pra mais perto, o olhar fixo no meu.
— Está brincando com fogo.
— Fogo que o senhor acendeu.
— E ainda acha que pode controlá-lo.
— Eu não quero controlar nada. Só quero que me deixe em paz.
— E acha que isso vai acontecer?
— Um dia, talvez. Quando o senhor cansar de brincar de carcereiro.
Ele riu, de canto. — Carcereiro não. Tutor.
— Que diferença faz?
— O carcereiro prende. O tutor ensina.
— Então lamento informar, mas sou uma péssima aluna.
— Eu percebi. — Ele se inclinou, o rosto perigosamente próximo. — Mas adoro desafios.
Senti a respiração dele, o perfume amadeirado e o calor que eu odiava sentir.
Dei um passo atrás. — Mantenha distância.
— Não cheguei perto o suficiente.
— O senhor quer que eu grite?
— Quero que entenda que não precisa.
— Preciso sim. É a única forma de não enlouquecer.
Ele desviou o olhar, ajeitou as mangas da camisa e disse, calmo:
— Às oito, jantar.
— O senhor realmente não cansa de se ouvir, né?
— Não. Tenho voz agradável.
— Tem voz de pesadelo.
— E ainda assim, sonha comigo.
O atrevimento dele me fez ficar sem palavras.
Mas eu não o deixaria vencer.
— Continue acreditando nisso. É mais confortável que encarar o vazio dentro de si.
Por um instante, o olhar dele mudou.
Um lampejo.
Algo entre raiva e... dor.
Mas passou rápido.
Ele se virou e saiu, deixando apenas o som dos passos e o cheiro do perfume dele no ar.
Passei o resto do dia tentando entender o que me irritava mais: a frieza dele ou o poder que ela tinha sobre mim.
Aquela casa era feita pra me lembrar do meu lugar — mas cada canto também me fazia lembrar que eu ainda tinha uma escolha: resistir.
Quando a noite caiu, vesti qualquer coisa e desci.
Ele já estava à mesa, lendo um documento, impecável como sempre.
— Boa noite — murmurei.
— Boa noite. — Sem levantar o olhar. — Vejo que seguiu uma regra, ao menos.
— Não fiz isso por obediência. Fiz porque fiquei com fome.
— Motivos diferentes, mesmo resultado.
— E é isso que importa pro senhor, não é? O resultado.
— Sempre.
— Mesmo que o preço seja a alma dos outros.
Ele ergueu o olhar, finalmente. — Alma é luxo de quem ainda acredita em pureza.
— E o senhor acredita em quê?
— No que posso tocar. No que posso controlar.
— Então nunca acreditou em ninguém.
— Não.
— Que vida triste.
Ele me encarou, e por um segundo eu achei que ele fosse responder, mas ele apenas respirou fundo, contido.
— Termina de jantar e volta pro seu quarto.
— Está me mandando dormir também?
— Não. Estou mandando não cruzar mais o limite.
— Que limite?
— O da paciência.
Sorri, amarga. — Achei que o senhor não tivesse sentimentos.
— Eu não tenho. Mas ainda sei quando alguém tenta atravessar a linha.
— E o que acontece quando alguém atravessa?
— Eu mostro que sou quem dita as regras.
Levantei-me. — O senhor pode ditar as regras da casa, Leonardo. Mas não as minhas.
Ele também se levantou, cada gesto calculado.
— Isso é o que vamos descobrir.
Nossos olhares se cruzaram, e o silêncio foi mais barulhento do que qualquer grito.
Era guerra, e nós sabíamos.
Dei um passo pra trás.
— Boa noite, senhor Valença.
— Boa noite, Isabella.
Subi as escadas com o coração batendo alto demais.
Quando fechei a porta, respirei fundo e olhei o papel das “regras” ainda sobre a cômoda.
Peguei, amassei e joguei no lixo.
Se ele queria jogar, eu também sabia jogar.
E enquanto aquele homem acreditasse que podia me dobrar com regras, eu mostraria que algumas pessoas nasceram pra quebrá-las.
Naquela casa, o jogo tinha começado.
E eu não pretendia perder.