O pecado que começa.

933 Palavras
Helena havia se acostumado ou quase com o silêncio da mansão Ferraz. Nos primeiros dias, o eco dos passos soava como um lembrete c***l da solidão, mas agora o lugar já não parecia tão sombrio. Ela aprendeu a conviver com Dante… ou talvez tivesse aprendido a conviver com a ausência dele. Dante era como o clima de Chicago no inverno: imprevisível. Às vezes frio, cortante, quase c***l. Em outras, um incêndio vivo, intenso, sufocante. Mas havia algo nele que a confundia, algo que ela não ousava questionar. Ele parecia carregar o peso do mundo nos ombros e Helena, sem perceber, começou a desejar aliviar parte desse peso. Olhou para o imenso guarda-roupa do quarto que agora ocupava. Procurava uma peça de banho, qualquer coisa que cobrisse o bastante. — Um maiô, talvez... — murmurou. Mas o que encontrou foram apenas biquínis minúsculos, restos de alguma coleção de verão antiga. Pensei por longos minutos. Se eu tivesse sorte, Dante nem apareceria. Normalmente, ele ficava trancado no escritório ou saía para resolver seus negócios os mesmos que eu fingia não saber o que eram. Decidi arriscar. Enrolei-me em uma toalha, respirei fundo e caminhei em direção aos fundos da casa, onde a piscina se estendia como um espelho de vidro sob o sol fraco da manhã. A água estava gelada, mas deliciosa. Afundei, prendi o ar e, por alguns segundos, deixei o mundo lá fora. As lembranças do casamento fracassado, o rosto do homem que eu achava amar… e, principalmente, o da mulher que destruiu tudo. Minha irmã. Bianca. O nome ainda doía. Emergi com um suspiro, afastando o cabelo molhado do rosto, e foi então que o vi. Dante estava parado na porta. Não disse uma palavra, apenas observava. O olhar dele era como uma faísca em meio à gasolina, perigoso, incontrolável. Ele começou a andar devagar, e cada passo ecoava dentro de mim. Por um instante, esqueci do biquíni, esqueci da toalha, esqueci até de respirar. — Não devia vestir biquínis minúsculos, Helena — a voz dele soou firme, mas havia algo escondido ali. Um controle quase doentio. — Eu não tinha outra opção — murmurei, sentindo o coração acelerar. — E achei que o senhor não viria até aqui… Ele inclinou a cabeça, um meio sorriso quase imperceptível. — Meus olhos estão sempre em você. — A voz rouca me atravessou como um arrepio. — Não quero te assustar, mas minha sanidade está por um fio. Por um segundo, achei que ele estivesse brincando. Mas o modo como me olhava dizia outra coisa. Um homem à beira do colapso. Um homem lutando contra algo que não podia ou não devia desejar. — Qual o seu problema, Dante? — perguntei, sem medir o tom. — Uma hora você é gentil, em outras age como se eu fosse um fardo. Eu não consigo entender você. Ele se aproximou, até que eu pude sentir o calor que emanava de seu corpo. — E nem deve tentar, Helena. — Seus dedos roçaram meu rosto, e o toque foi leve, quente… devastador. — Continue sem entender. Eu não quero perder o controle, mas você me testa todos os dias, bambina. Meu corpo inteiro estremeceu. — Mas eu não fiz nada. Ele riu baixo, um som rouco, quase dolorido. — O fato de você estar aqui já é tudo. Dante se afastou. O ar pareceu esfriar junto com ele. — Preciso sair a negócios. Talvez demore alguns dias. Não espere por mim. E foi embora, como se nada tivesse acontecido. Como se aquele toque, aquele olhar, não tivesse deixado o mundo fora de eixo. Assisti ele se afastar, sentindo o coração bater descompassado. Dante era um homem impossível, feito de sombras, e o pior é que eu queria me aproximar dessas sombras. Dentro de mim, algo gritava seu nome, e isso me apavorava. Voltei para dentro da casa, na esperança de encontrá-lo mais uma vez. O encontrei no quarto, fechando uma pequena mala de couro. — Vai mesmo embora? — perguntei. — São assuntos urgentes, que vão levar alguns dias. Eu prometo voltar. — Eu vou ficar sozinha nessa casa gigantesca? Ele ergueu o olhar. — Tem medo daqui, Helena? — Não tenho — menti. — Ótimo. Vai acabar se acostumando. Às vezes vou precisar sair, e você ficará sozinha. Não tenho escolha. Eu hesitei. — Não posso ir junto? Ele parou. Por um momento, pareceu considerar a ideia, mas então deu um meio sorriso triste. — Odiaria ir. — Seus olhos se suavizaram. — Te deixar segura é muito melhor do que te arrastar para um mundo que acabaria com a sua inocência. A forma como ele disse “inocência” soou quase como uma promessa… ou uma maldição. Ele se aproximou, devagar, e depositou um beijo lento em minha testa. Foi um toque leve, mas me incendiou inteira. E quando ele saiu, ficou apenas o eco dos seus passos e a sensação de que algo dentro de mim havia mudado para sempre. Dante Ferraz era o tipo de homem que não se devia desejar. Mas eu já o desejava. E o pior, ele sabia. Enquanto observava o carro dele desaparecer pela longa estrada de pedra, percebi que não havia volta. Aquela casa não era mais só uma mansão antiga. Era uma prisão, e ele era o meu maior pecado. Talvez eu devesse fugir. Mas a verdade é que, mesmo que Dante nunca mais voltasse… eu já pertencia a ele. E o que eu sentia, esse fogo escondido entre medo e desejo, era só o começo do inferno que ele havia acendido dentro de mim.
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