A mansão Ferraz.

1093 Palavras
Helena estava finalmente conhecendo a verdadeira mansão Ferraz. O lugar era imenso, silencioso e gélido, tão frio quanto a expressão de Dante. As paredes pareciam guardar segredos, e os quadros nos observavam como se julgassem cada passo dado ali. A chuva fina que caía lá fora apenas acentuava o ar sombrio da propriedade. Eu ainda não conseguia entender nada do que tinha acontecido. Meu corpo tremia, e não era apenas por causa do frio. Era humilhação, raiva, dor. Eu havia sido traída pela minha irmã, exposta na frente de todos, e o homem que me jurou amor estava agora nos braços dela. Tudo dentro de mim gritava que eu devia desaparecer, cavar um buraco e nunca mais sair. Mas ali estava eu. Dentro da mansão do meu ex-sogro. E o pior: sem saber o motivo de ele ter me trazido até aqui. Dante me observava em silêncio, com aquele olhar que parecia atravessar qualquer defesa. Ele me olhava como quem estuda uma obra rara, e eu não sabia se ele queria me proteger ou me desmontar peça por peça. Havia algo indecifrável naquele homem — uma mistura de perigo e domínio que me deixava inquieta. — Por que me trouxe pra cá? — perguntei, tentando parecer firme, mas minha voz saiu trêmula. — Tem lugar melhor para ir, Helena? — ele respondeu, frio, sem tirar os olhos de mim. As palavras dele cortaram fundo, porque eu sabia que não. Eu não tinha ninguém. Nenhum lugar para onde correr. Nenhum abraço para me acolher. — Ficar na casa do meu ex-sogro não é uma boa ideia. — Se tivesse uma ideia melhor, não teria aceitado o meu convite. — Ele caminhou até a escada, abrindo o caminho. — Tome um banho. Vai acabar ficando doente. A forma como ele disse aquilo... não era um pedido. Era uma ordem. Segui-o em silêncio, os passos ecoando pelo corredor de mármore. O ar cheirava a madeira, couro e algo puramente masculino — o cheiro dele. Dante me levou até um quarto grande, e bastou cruzar a porta para perceber que era o dele. O ambiente exalava poder. O perfume amadeirado, as cores escuras, o silêncio pesado… tudo ali tinha a marca de Dante Ferraz. Eu não precisava que ele confirmasse — aquele quarto gritava o nome dele em cada detalhe. — Os outros quartos estão empoeirados. Vou mandar limpar amanhã. Por enquanto, se contente com o meu. — Como vou dormir aqui? Só tem uma cama. — murmurei, nervosa. — O que sugere que façamos, Helena? — perguntou, arqueando uma sobrancelha, o canto dos lábios curvado num meio sorriso. — Eu… eu não quero dormir com você! — falei alto demais, cobrindo o corpo com os braços, como se ele tivesse me despido apenas com o olhar. — Você é adorável, Bambina. — ele disse, e saiu do quarto como se nada tivesse acontecido. O som da porta se fechando ecoou como um aviso. Eu respirei fundo, mas ainda sentia a presença dele. Dante estava em todo canto, no ar, nos lençóis, no espelho. Era impossível não senti-lo. Tirei o vestido sujo e amarrotado, e o peso da vergonha me atingiu outra vez. Fui até o banheiro e me deparei com uma banheira enorme, feita de mármore branco. Aquilo parecia saído de um sonho caro demais para uma garota como eu. Mergulhei ali tentando afogar a dor, mas nem a água quente foi capaz de apagar o frio dentro do peito. Usei o shampoo dele, o sabonete dele. O cheiro masculino me envolveu como um lembrete constante de onde eu estava. Fechei os olhos e deixei as lágrimas caírem, misturando-se à espuma. Eu me sentia pequena. Perdida. Como se nada em mim valesse mais a pena. Quando saí, vesti uma camisa preta dele. A peça ficou larga no meu corpo, o tecido macio demais contra a pele. O espelho refletia uma imagem que eu quase não reconhecia — uma mulher ferida, mas viva. Desci as escadas em silêncio. Dante estava na cozinha, colocando algo num prato. O cheiro de comida aquecida se espalhava pelo ar. — Desculpe pela recepção — ele disse, servindo a mesa com uma naturalidade desconcertante. — Não sou bom na cozinha. Espero que goste de lasanha. — Não me importo. Qualquer coisa serve. — respondi, sem conseguir encará-lo por muito tempo. Ele me observou com calma, os olhos sombrios pousando sobre mim. Aquele olhar me fez estremecer, havia pena ali, mas também algo mais. Algo que eu não sabia nomear. — Pare de olhar pra mim assim. — minha voz saiu baixa, quase um sussurro. — Isso só me faz sentir ainda mais humilhada. — Não é pena, Helena. — Ele se aproximou devagar. — É curiosidade. Você tem o olhar de quem sobreviveu a algo que ainda não entende. — Não finja que entende o que eu sinto. — Eu não finjo. — Dante inclinou o rosto, e por um segundo, o ar entre nós pareceu desaparecer. — Eu reconheço. Senti o coração disparar. A forma como ele me olhava, o tom grave da voz… havia algo indecente naquela calma. Eu devia me afastar, mas meu corpo não obedecia. — O que pretende com isso tudo, Dante? — perguntei, tentando recuperar o controle. — Por que me trouxe pra cá? — Não sei — ele respondeu, simples, como se isso bastasse. — Talvez porque eu não conseguiria te deixar na rua. — E por que não? Foi o seu filho quem me humilhou. — minha voz falhou no meio da frase. — Você devia odiar me ver aqui. — Oh, Bambina… — ele disse, e o apelido saiu arrastado, quase um toque. — Se soubesse o quanto desejo matar Lucas neste momento, não diria isso. Um arrepio percorreu minha espinha. Dante falava com calma, mas havia algo sombrio por trás das palavras. Um tipo de ódio contido, perigoso, quase… protetor. Ele se aproximou, e por um instante, achei que fosse tocar meu rosto. Mas ele apenas parou diante de mim, com o olhar firme. — Durma, Bambina. Amanhã conversamos. — disse, antes de sair. E, novamente, ele se foi. Mas mesmo longe, eu podia sentir. O cheiro dele. A presença dele. Dante Ferraz era o tipo de homem que deixava marcas sem precisar tocar. Deitei na cama enorme, com o corpo coberto pela camisa dele. Fechei os olhos e, pela primeira vez desde que fugi da igreja, meu coração desacelerou. Mas a paz não veio. Porque, no fundo, eu sabia. Nada em Dante Ferraz era seguro. E talvez… eu não quisesse segurança.
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