A tentação e o silêncio.

1042 Palavras
Os dias se arrastavam como sombras lentas dentro da mansão. Helena ainda se sentia deslocada, como um fragmento de vida esquecido entre aquelas paredes frias que pareciam respirar solidão. Aprendeu a conviver com o eco dos próprios passos, com o som distante das portas se fechando, com o aroma amadeirado que parecia impregnar cada canto daquele lugar. Dante, por outro lado, havia se tornado um fantasma vivo. Ela o via raramente, ora cruzando o corredor, ora na varanda, sempre com o olhar distante, como se lutasse contra algo que não podia vencer. Nos primeiros dias, ele a tratou com uma polidez fria, mas suportável. Depois, passou a evitá-la completamente. Não a procurava, não jantava com ela, e parecia fugir da própria casa. Helena já não sabia o que pensar. Foi ele quem a trouxe para ali, quem estendeu a mão quando todos a viraram as costas, e agora a tratava como uma intrusa indesejada. Certa manhã, tomada por um impulso que não sabia explicar, ela o encontrou na sala. Dante estava de pé, de costas para a lareira acesa, as mãos nos bolsos, o olhar pesado preso a nada. Ela parou diante dele, ainda usando uma das camisas dele, a mesma que caía larga sobre seu corpo, revelando mais do que deveria. — O que eu fiz a você? — perguntou, a voz saindo mais firme do que ela imaginava. — Foi você quem me trouxe pra cá, Dante, e agora foge de mim como se eu fosse uma doença. Ele ergueu o olhar lentamente. O azul de seus olhos estava mais escuro que o habitual, quase sombrio. — Eu não estou fugindo de você, Helena… — respondeu, num tom rouco. — Se soubesse o que a minha mente doentia tem pensado todos esses dias, correria de mim sem olhar pra trás. Ela franziu o cenho, confusa. Dante desviou o olhar, prendendo a respiração por um instante. Desde aquela noite, a noite em que, por acaso, a viu sair do banho, nua, com gotas escorrendo por sua pele, não conseguia dormir em paz. A imagem dela o perseguia como uma maldição. A cada vez que Helena passava diante dele vestindo suas roupas, seu controle se partia um pouco mais. Helena deu um passo em sua direção. — Não entendo, Dante… — E nem precisa — ele respondeu, cortante, como se quisesse encerrar o assunto antes que perdesse o pouco de sanidade que lhe restava. — O que quer de mim? — ela insistiu, o olhar cheio de angústia. — Quer que eu vá embora? Que finja que nada disso aconteceu? Ele inspirou fundo. — O que eu quero não importa, Helena. O que eu posso é o problema. — Pare de fugir de mim — disse ela, a voz trêmula. — Eu sei que não tenho pra onde ir, mas se continuar me ignorando, não vou conseguir ficar aqui. Já é pesado o suficiente saber que estou morando na casa do meu ex-sogro… O som de “ex-sogro” pareceu feri-lo. Dante avançou um passo, o olhar flamejante. — p***a, Helena! — rugiu, o tom grave e perigoso. — Pare de se referir a mim assim. O silêncio que se seguiu foi quase palpável. Helena engoliu em seco. A raiva dele a assustava, mas havia algo mais ali, um ciúme ardente, possessivo, que a fez corar sem entender o porquê. — Desculpa — sussurrou. Ele respirou fundo, tentando se acalmar. — Tudo bem. Helena hesitou, mordeu os lábios e, com um fio de voz, perguntou: — Posso pedir algo? Dante a observou em silêncio, com o maxilar rígido. — Peça, Helena. Ela olhou para baixo, envergonhada. — Eu… preciso de algumas coisas. — Que coisas? — Roupas. Calçados. E… — a voz falhou — meu período está chegando, e eu não tenho… absorventes. Dante piscou, surpreso. Não sabia o que dizer. Abriu a carteira, tirou um cartão preto e o estendeu para ela. O metal refletiu a luz da lareira. — Use isso. Não economize — disse, com seriedade. — Vou pedir pra minha sobrinha acompanhá-la hoje. Me desculpe por não ter feito isso antes. — Obrigada — respondeu Helena, pegando o cartão com cuidado. Subiu para o quarto, tentando ignorar o peso do olhar que ainda sentia sobre si. Escolheu um conjunto de roupas dele, a menor camisa, o moletom menos largo, e suspirou ao se ver no espelho. Parecia uma menina vestida nas roupas do pai. Pouco tempo depois, ouviu batidas suaves na porta. Uma mulher entrou. Tinha cabelos ruivos, pele clara e olhos castanhos vibrantes. Parecia ter a mesma idade de Helena, talvez um pouco mais velha. — Oi, querida — disse a estranha com um sorriso confiante. — Sou Savana. Meu tio avisou que você precisa ir às compras. Helena a observou surpresa. — Seu tio? — Dante — respondeu ela, naturalmente, como se fosse óbvio. — E, sinceramente, o estilo sombrio dele não combina nada com você. — Savana riu e estendeu um vestido preto e justo, de tecido leve, que realçava as curvas com elegância. — Use isso pra sair. É o mínimo pra te tirar desse clima fúnebre de milionário. Helena corou. — Obrigada. — Não agradeça ainda — respondeu Savana, com um meio sorriso travesso. — Meu tio não costuma deixar ninguém tão perto dele. Você deve ser bem especial. Helena sentiu o coração acelerar. Aquelas palavras ecoaram fundo demais. Ela não era especial. Era só a mulher que o filho dele tinha enganado por anos, e agora estava ali, tentando sobreviver ao caos que sua vida havia se tornado. Savana se virou para sair. — Te espero lá fora. Quando ficou sozinha, Helena vestiu o vestido e se olhou no espelho novamente. Por um instante, não reconheceu a mulher refletida ali, o olhar mais firme, o rosto ainda cansado, mas com um brilho novo. Do andar de cima, Dante a observava pela porta entreaberta. O vestido abraçava o corpo dela de um jeito quase poético. Ele sabia que deveria desviar o olhar, mas não conseguiu. Helena era o seu pecado, e ele já estava condenado. “Eu devia ter deixado você ir, Helena”, pensou. Mas o coração, esse maldito traidor, já tinha decidido há muito tempo que ela seria sua perdição.
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