Os dias se arrastavam como sombras lentas dentro da mansão. Helena ainda se sentia deslocada, como um fragmento de vida esquecido entre aquelas paredes frias que pareciam respirar solidão.
Aprendeu a conviver com o eco dos próprios passos, com o som distante das portas se fechando, com o aroma amadeirado que parecia impregnar cada canto daquele lugar.
Dante, por outro lado, havia se tornado um fantasma vivo. Ela o via raramente, ora cruzando o corredor, ora na varanda, sempre com o olhar distante, como se lutasse contra algo que não podia vencer.
Nos primeiros dias, ele a tratou com uma polidez fria, mas suportável. Depois, passou a evitá-la completamente. Não a procurava, não jantava com ela, e parecia fugir da própria casa.
Helena já não sabia o que pensar.
Foi ele quem a trouxe para ali, quem estendeu a mão quando todos a viraram as costas, e agora a tratava como uma intrusa indesejada.
Certa manhã, tomada por um impulso que não sabia explicar, ela o encontrou na sala.
Dante estava de pé, de costas para a lareira acesa, as mãos nos bolsos, o olhar pesado preso a nada.
Ela parou diante dele, ainda usando uma das camisas dele, a mesma que caía larga sobre seu corpo, revelando mais do que deveria.
— O que eu fiz a você? — perguntou, a voz saindo mais firme do que ela imaginava. — Foi você quem me trouxe pra cá, Dante, e agora foge de mim como se eu fosse uma doença.
Ele ergueu o olhar lentamente. O azul de seus olhos estava mais escuro que o habitual, quase sombrio.
— Eu não estou fugindo de você, Helena… — respondeu, num tom rouco. — Se soubesse o que a minha mente doentia tem pensado todos esses dias, correria de mim sem olhar pra trás.
Ela franziu o cenho, confusa.
Dante desviou o olhar, prendendo a respiração por um instante.
Desde aquela noite, a noite em que, por acaso, a viu sair do banho, nua, com gotas escorrendo por sua pele, não conseguia dormir em paz. A imagem dela o perseguia como uma maldição.
A cada vez que Helena passava diante dele vestindo suas roupas, seu controle se partia um pouco mais.
Helena deu um passo em sua direção. — Não entendo, Dante…
— E nem precisa — ele respondeu, cortante, como se quisesse encerrar o assunto antes que perdesse o pouco de sanidade que lhe restava.
— O que quer de mim? — ela insistiu, o olhar cheio de angústia. — Quer que eu vá embora? Que finja que nada disso aconteceu?
Ele inspirou fundo. — O que eu quero não importa, Helena. O que eu posso é o problema.
— Pare de fugir de mim — disse ela, a voz trêmula. — Eu sei que não tenho pra onde ir, mas se continuar me ignorando, não vou conseguir ficar aqui. Já é pesado o suficiente saber que estou morando na casa do meu ex-sogro…
O som de “ex-sogro” pareceu feri-lo. Dante avançou um passo, o olhar flamejante.
— p***a, Helena! — rugiu, o tom grave e perigoso. — Pare de se referir a mim assim.
O silêncio que se seguiu foi quase palpável.
Helena engoliu em seco. A raiva dele a assustava, mas havia algo mais ali, um ciúme ardente, possessivo, que a fez corar sem entender o porquê.
— Desculpa — sussurrou.
Ele respirou fundo, tentando se acalmar. — Tudo bem.
Helena hesitou, mordeu os lábios e, com um fio de voz, perguntou:
— Posso pedir algo?
Dante a observou em silêncio, com o maxilar rígido. — Peça, Helena.
Ela olhou para baixo, envergonhada. — Eu… preciso de algumas coisas.
— Que coisas?
— Roupas. Calçados. E… — a voz falhou — meu período está chegando, e eu não tenho… absorventes.
Dante piscou, surpreso. Não sabia o que dizer.
Abriu a carteira, tirou um cartão preto e o estendeu para ela. O metal refletiu a luz da lareira.
— Use isso. Não economize — disse, com seriedade. — Vou pedir pra minha sobrinha acompanhá-la hoje. Me desculpe por não ter feito isso antes.
— Obrigada — respondeu Helena, pegando o cartão com cuidado.
Subiu para o quarto, tentando ignorar o peso do olhar que ainda sentia sobre si.
Escolheu um conjunto de roupas dele, a menor camisa, o moletom menos largo, e suspirou ao se ver no espelho. Parecia uma menina vestida nas roupas do pai.
Pouco tempo depois, ouviu batidas suaves na porta.
Uma mulher entrou. Tinha cabelos ruivos, pele clara e olhos castanhos vibrantes. Parecia ter a mesma idade de Helena, talvez um pouco mais velha.
— Oi, querida — disse a estranha com um sorriso confiante. — Sou Savana. Meu tio avisou que você precisa ir às compras.
Helena a observou surpresa. — Seu tio?
— Dante — respondeu ela, naturalmente, como se fosse óbvio. — E, sinceramente, o estilo sombrio dele não combina nada com você. — Savana riu e estendeu um vestido preto e justo, de tecido leve, que realçava as curvas com elegância. — Use isso pra sair. É o mínimo pra te tirar desse clima fúnebre de milionário.
Helena corou. — Obrigada.
— Não agradeça ainda — respondeu Savana, com um meio sorriso travesso. — Meu tio não costuma deixar ninguém tão perto dele. Você deve ser bem especial.
Helena sentiu o coração acelerar.
Aquelas palavras ecoaram fundo demais. Ela não era especial.
Era só a mulher que o filho dele tinha enganado por anos, e agora estava ali, tentando sobreviver ao caos que sua vida havia se tornado.
Savana se virou para sair. — Te espero lá fora.
Quando ficou sozinha, Helena vestiu o vestido e se olhou no espelho novamente.
Por um instante, não reconheceu a mulher refletida ali, o olhar mais firme, o rosto ainda cansado, mas com um brilho novo.
Do andar de cima, Dante a observava pela porta entreaberta.
O vestido abraçava o corpo dela de um jeito quase poético.
Ele sabia que deveria desviar o olhar, mas não conseguiu.
Helena era o seu pecado, e ele já estava condenado.
“Eu devia ter deixado você ir, Helena”, pensou.
Mas o coração, esse maldito traidor, já tinha decidido há muito tempo que ela seria sua perdição.