Capítulo Quarto

4990 Palavras
A semana começou. Mirella levantou cedo e se arrumou para o trabalho. Foi para a cozinha e pôs água no fogo para o café. Enquanto aguardava a água ferver, tirou o pão, a margarina e o queijo da geladeira. Estava coando o café, quando Dirce apareceu na cozinha, já arrumada também. Mirella estranhou e perguntou: - Vai mais cedo hoje? - Não. Perdi o sono. Ontem fomos deitar mais cedo e eu acordei mais cedo. Vou no horário normal. Sabe, eu gostei da idéia de mandar fazer um terraço nessa casa. Já pensou quando estiver calorão, a gente ir lá pra cima e ler um bom livro, ou simplesmente conversar abrigadas do sol com o vento correndo? - Seria maravilhoso. Vê com o Seu Paulo em quanto ficaria fazer. - Não deve ser nenhum absurdo. Já tem lage. É só cercar, colocar piso e cobrir. - Esqueceu que tem que fazer escada. - É mesmo. Mas vou ligar pra ele e pedir pra fazer um orçamento. - A casa do lado ainda está vazia? - Seu Joaquim ainda está nela. - Ele deu um mês pra esvaziarem e só passou uma semana. - Tomara que corra tudo bem pra ele. Tomaram o café e Mirella pegou a bolsa. Antes de sair, ainda instruiu a mãe. - Se acertar alguma coisa com o Seu Paulo, me liga. Vamos ter que dar um jeito de pelo menos uma de nós ficar em casa. - Nós temos férias pra tirar. - Eu não. Ainda não fiz um ano de serviço. Aliás está perto. Faltam quinze dias para o primeiro aniversário do Henrique. Mas por lei, eles ainda tem mais onze meses pra me darem as férias. - Tenho certeza que, se precisar eles não vão levar isso ao pé da lei. - Isso é verdade. - Tô indo. Tchau. - Tchau. Dirce resolveu ir mais cedo para o serviço. Assim que chegou, soube que Dona Nora não estava passando bem desde o dia anterior. Estava reclamando de dores abdominais e Seu Jair ia ficar em casa para levar a esposa ao médico. Júlio tinha prometido passar lá para pegar a sogra e levar para o hospital que trabalhava, junto com Milena. Foi ver a patroa e amiga e ficou penalizada com as queixas de dores muito fortes da amiga. Perguntou: - Por que não ligaram pra mim? Seu Jair respondeu: - Porque todos estavam aqui e ajudaram a cuidar dela. Mas durante a noite ela foi piorando. Júlio chegou e foram levar ela ao médico. Dirce ficou para dar andamento no serviço da casa. A dor devia estar muito forte mesmo, já que pela primeira vez encontrava louça suja na pia. Rapidamente lavou tudo e foi arrumar o quarto do casal, prá Dona Nora poder repousar quando voltasse. Mirella quando chegou, Berenice estava sozinha. Explicou que a mãe não estava passando bem e pediu se ela tivesse que sair, se poderia deixar Henrique com ela. - Claro que pode. Mas tomara que não seja nada demais. Berenice ligou para o marido a fim de ter notícias, mas ainda não tinha nada de novo. Estavam aguardando o médico acabar de examinar. Ela tinha acabado de entrar na sala dele. Passado algum tempo, Júlio ligou para Berenice e avisou que a mãe dela ia passar por uma cirurgia. Estava com pedras na vesícula. Berenice se desesperou e foi com custo que Mirella conseguiu que se acalmasse. Berenice foi para o hospital, mas antes entrou em contato com os irmãos e explicou a situação. Logo todos correram para lá. Antes da cirurgia precisavam fazer alguns exames rápidos e a cirurgia ainda não tinha começado quando todos chegaram. Ela estava fazendo os exames e somente Seu Jair podia ficar com ela. Quando a levaram para o Centro Cirúrgico, ele se juntou aos outros. Seu Jair ligou para casa e avisou Dirce, que prometeu rezar para que tudo corresse o melhor possível. Desde que chegara sabia que devia ser sério. Dona Nora não era chegada a queixas. Ficou com pena da amiga e pediu a Deus que tudo corresse bem. Milena foi se juntar a mãe. Sabia da amizade das duas e o quanto sua mãe devia estar nervosa. A mãe mandou que ela fosse trabalhar porquê já estava atrasada e ela ficaria com Jurandir. Milena então foi para o serviço e chegando lá, Cristina a dispensou. Mandou que ela fosse pra casa ajudar a mãe. A cirugia ainda estava em andamento. Não tinha notícia nenhuma ainda. Apesar de ter sido dispensada, Milena disse que iria ficar e trabalhar, pois a mãe era suficiente para cuidar da casa e do neto. Cristina perguntou: - Mas você tem condições psicológicas pra isso? - Tenho. - Então assume tua mesa. E assim que tiver notícias dela eu te aviso. Demorou, mas finalmente a cirurgia havia terminado e Nora passava bem. Porém estava ainda anestesiada e não poderia receber visita naquele dia. Mas todos podiam ficar descansados. Ela se recuperaria. Apesar da idade era muito forte. Ao passarem pela recepção, avisaram a Milena que ficou mais tranquila. Todos foram pra casa para voltar no dia seguinte. Seu Jair deu trabalho para sair de lá. Mas acabaram conseguindo convencer ele que de nada adiantaria ficar ali. E tinham Júlio e Milena dentro do hospital para tomar conta dela. Assim com algum custo, conseguiram que ele fosse pra casa também. Jairo foi levar o pai em casa e aproveitou e levou Jurandir também. A criança já estava de banho tomado e tinha almoçado bem. Agradeceu a sogra e foi pra casa. Dirce antes dele sair, ainda perguntou se ele não queria almoçar, mas ele ainda estava um pouco nervoso e recusou o almoço. Logo Milena estaria chegando também. Berenice encontrou o mesmo quadro em casa. Henrique já tinha tomado banho, almoçado e se distraia em frente a televisão enquanto Mirella terminava o seu serviço. Apesar de ser muito pequeno ainda, bastava colocar um desenho na televisão que ele ficava prestando atenção como se entendesse. Berenice foi tomar um banho e depois avisou que ia fazer só um lanche, pois já estava tarde para almoçar. Deu notícias da mãe a Mirella e depois foi para o quarto descansar um pouco. Quando Júlio chegou, disse que ela estava bem. Só um pouco cansada. O que era normal depois de uma cirurgia onde havia perda de sangue. Fora que ela não tinha dormido a noite por causa das dores. Ainda comentou: - Se tivessem avisado da piora dela ontem, ela tinha sido internada durante a noite e sofrido menos. - É, papai devia ter avisado. - Agora já passou. Nem fala nada com ele, senão ele vai ficar arrasado. - Só espero que ela se recupere rápido. Devia tá doendo muito. Nunca vi minha mãe se queixar de nada. - Com certeza doía. Crise de visícula dói mesmo. Mas agora ela já está operada e vai se recuperar. - Amém. Quando ia para a cozinha, avisar que já podia esquentar o jantar, Mirella veio ao seu encontro perguntando se já podia servir. Júlio que respondeu: - Vou tomar um banho rápido. Pode ir botando a mesa. Hoje nem almocei. Estou morrendo de fome só com o café da manhã. E foi pegar roupa, para entrar para o banho. Berenice ainda comentou: - Eu ainda fiz um lanche. Ele nem isso. Jantaram e como estavam muito cansados, o casal se recolheu mais cedo. Mirella arrumou tudo e ficou fazendo companhia ao Henrique que sem entender ainda o que estava acontecendo, continuava brincando. Depois de algum tempo, deu outro banho na criança e foi colocá-lo para dormir. O pequeno custou a pegar no sono, mas finalmente adormeceu e Mirella pode por sua vez tomar seu banho e finalmente descansar também. No dia seguinte, acordou cedo. Fez o café e pôs a mesa. Pouco depois os patrões levantaram e vieram tomar o café. Júlio avisou: - Somente duas pessoas serão permitidas na visita de hoje. - Vou eu e papai. Os outros trabalham. - Avisa aos outros. Não adianta irem pra lá. Não vão conseguir entrar. Mirella perguntou: - Mas o Senhor e a Milena, que trabalham lá conseguem, né? - Eu, que trabalho lá entro a qualquer hora e acredito que a Milena também consiga. Ela é muito querida por todos do hospital. Com certeza vai poder ver a sogra fora do horário de visitas e ficar sempre informada do estado dela. Não sabiam que Milena tinha ido mais cedo e já estava no quarto dela se inteirando de tudo. Não podia demorar na visita porque a paciente não podia falar muito para evitar a entrada de gases e provocar dores. Mas assim que saiu do quarto, ligou para a irmã e avisou que ela estava bem. Mirella passou a informação para os patrões que agradeceram e Júlio foi pegar a pasta para seguir para o hospital, enquanto Berenice ligava para os irmãos. Todos queriam ir na visita, mas com jeito conseguiu convencer de irem trabalhar que ela acompanharia o pai. Na parte da tarde, foram na visita e constataram que realmente ela estava se recuperando. O médico de plantão estimou a alta para o dia seguinte. Porém teria que manter repouso por vários dias e não poderia principalmente cuidar dos trabalhos caseiros. Nem podia chegar perto do fogão, já que a quentura, podia inflamar os pontos que só seriam retirados em quinze dias. No dia seguinte, de tardezinha, Dona Nora teve alta e Júlio foi levar ela em casa, auxiliado por Berenice e o sogro. Foi colocada direta no quarto, que Dirce tinha desinfetado com cuidado. Dirce ficou cuidando dela com muito carinho durante o resto da semana, dando atenção especial a dieta de gordura, que sabia que ela tinha que fazer. Quando chegou Sexta-feira, perguntou se queriam que ela ficasse, mas a família respondeu que iam cuidar dela eles mesmos, que ela também precisava descansar. Na casa de Berenice, a situação se repetia, quando Mirella perguntou a Berenice se queria que ela ficasse, ela respondeu: - Não, nós vamos pra lá cuidar da mamãe no final de semana. Vai pra casa e ajuda a tua mãe que a semana foi pesada prá ela. - Qualquer coisa que precisarem podem nos chamar em casa. - Obrigada. Eu vou hoje pra lá, assim que o Júlio chegar. Domingo quem vai cuidar dela é a Neide. Faz a tua mãe descansar bastante. Porquê durante a semana quem vai cuidar é ela. - Pode deixar, vou botar ela de repouso também. - Ela já não é nenhuma criança. - Eu sei. Então eu vou lá. Tchau. Se precisar de alguma coisa, me liga. - Obrigada. Quando Júlio chegou, tomou banho e se arrumou para ir pra casa dos sogros acompanhar Berenice. Chegaram lá e ainda encontraram Dirce no trabalho. Dona Nora estava dando trabalho. Queria levantar e reassumir suas tarefas na casa. Há muito custo Dirce conseguiu que ficasse na cama. Já tinha feito a higiene pessoal e jantado. Passou para Berenice os horários de remédios e novamente perguntou: - Você não quer que eu fique? - Não. Você também precisa descansar. - Então eu vou. Mas se precisar de mim, pode me chamar a qualquer hora. - Obrigada. Dirce foi prá casa e já encontrou Mirella, que tendo chegado mais cedo, já tinha tirado o ** dos móveis, passado pano no chão e arejado a casa toda. Dirce agradeceu o trabalho da filha e confessou que estava muito cansada: - Dona Nora sempre foi muito ativa, e tá dando trabalho. Não quer ficar deitada. - Coitada da Berenice. Vai ficar nervosa. Não está acostumada a ter que fazer tudo. - Mas eu falei que se precisasse de mim, podia me chamar a qualquer hora. - Eu também. - Vou fazer um lanche e descansar. - Misto quente? - Qualquer coisa. E Mirella correu pra preparar. Colocou a mãe sentada no sofá com os pés em cima de um banco. Ficaram ali até que notou que a mãe estava dormindo sentada. Chamou e ajudou ela ir até o quarto e depois de mudar a roupa dela, fez com que deitasse. Dirce dormiu pesado até a manhã seguinte. Quando acordou, já encontrou a mesa de café posta e Mirella já adiantava o almoço. Sentou, tomou o café e quando tentou lavar a louça, a filha disse que deixasse com ela. Na casa de Seu Jair, ele conversava com Berenice e Júlio: - Estou pensando em contratar mais alguém para ajudar a Dirce. Ela não reclama, mas tá pesado fazer tudo sozinha e ainda ter que impedir a tua mãe de levantar o dia inteiro. - O senhor pretende uma enfermeira? - Não. Alguém que faça o serviço da casa. Ninguém cuida da tua mãe melhor do que ela. Depois de pensar um pouco, Berenice pediu: - Fica um pouco com ela e não deixa ela levantar. E para Júlio: - Vamos lá na casa da Dirce? - Qual é a tua ideia? - Vou pedir a ela prá ficar aqui com a mãe até passar essa tempestade. Confio totalmente nela. - Mas e a nossa casa? - Mantenho até ela poder voltar. - Mas você nem sabe cozinhar. - Compramos comida pronta. - Vamos! Quando tocaram a campainha, Mirella veio atender e Berenice disse logo: - Viemos te pedir um favor. - Entrem. Depois de todos acomodados, Berenice tomou a palavra: - Minha mãe está dando muito trabalho. Não está acostumada a ficar sem fazer nada e quer levantar e fazer comida. Mirella assustada: - Não pode. Os pontos podem inflamar e ela ter uma infecção. - Por isso eu vim te pedir: Você pode ficar na casa de meus pais, fazendo o serviço da casa, enquanto a tua mãe se ocupa só dela? Dirce reclamou: - Eu estou fazendo tudo. Acho que não deixei nada por fazer. - Sim, mas você está sobrecarregada e meu pai quer contratar alguém para fazer isso. E Mirella, eu confio em você. Por favor, aceita ficar lá. Vai tirar um peso muito grande de cima de toda a família. Todos trabalham e eu não tenho como vir todos os dias. Mirella perguntou: - Mas e você? - Vou manter a ordem na casa e comprar comida pronta. Ela vai tirar os pontos em pouco mais de uma semana, damos mais umas duas e você volta lá pra casa. - Vou sentir saudades do Henrique. - Eu trago ele finais de semana pra você ver. Mirella por fim respondeu: - Conta comigo. Apesar de que tenho medo que você perceba que não precisa mais de mim. - Deixa de ser boba. Você só sai da minha casa se quiser. Ficaram acertadas. Mirella a partir de Segunda-feira, ficaria, temporariamente, ajudando a mãe na casa de Seu Jair. Finais de semana, continuaria o rodízio em família. Depois que eles saíram, Mirella comentou com a mãe: - Estou com medo dela acostumar com a minha ausência, mas se não podemos fazer nada, vamos salvar pelo menos o teu emprego. Na hora do almoço, tocaram a campainha e Dirce foi atender. Voltou com uma sacola e entregou para a filha: - Foi o Júlio. A Berenice mandou pra você. Tinha refrigerante e uma caixa com docinhos em miniatura, que sabia que vendia em uma padaria próxima. Almoçaram com o refrigerante e comeram alguns docinhos de sobremesa, guardaram o restante na geladeira para mais tarde. De tarde, Mirella fez cachorro quente para o lanche e como ainda tinha refrigerante, lancharam em clima de festa. Foram dormir cedo. Domingo de manhã, foram na casa do de Dona Nora, saber dela. Continuava melhorando, mas dando trabalho, querendo levantar. Dirce ficou conversando com ela, enquanto a filha ajudava Neide na cozinha. E antes da hora do almoço voltaram pra casa. Depois do almoço foram ver televisão e Mirella falou: - Vou colocar uma TV por assinatura aqui. Assim poderemos ver bons filmes sem sair de casa. - É uma boa idéia. - Amanhã mesmo vou ver isso. Foram deitar cedo. No dia seguinte, chegaram as sete no trabalho. O horário delas era oito, mas foram mais cedo pro Seu Jair sair para trabalhar despreocupado. Neide já tinha ido embora. Seu Jair agradeceu a atenção e foi se arrumar para sair também. Dirce foi cuidar da patroa e Mirella do serviço da casa. Tinha muita louça para lavar e logo deu conta de tudo. Arrumou a casa e fez a comida. Usou bem pouco óleo, mas carregou nos temperos frescos para dar sabor e Dona Nora comeu bem. De tarde ajudou a mãe a fazer a higiene da patroa e logo Seu Jair estava em casa. Jantou bem e elogiou a comida de Mirella. Depois foi fazer companhia a mulher, para que Dirce tomasse banho e jantasse. Perguntou se elas queriam ir pra casa, mas elas resolveram ficar alí mesmo. Dirce já estava acostumada a usar o quarto que tinha sido de Jairo e Mirella ficou junto, já que tinha cama de casal. Dirce levantava sempre que dava o horário de dar os remédios. E assim logo amanheceu. Mirella fez o café e Dirce foi levar pra Dona Nora. Como ela não podia comer gordura, tinha comprado margarina light e uma ricota na padaria. Depois de alimentada, quis ir ao banheiro e Dirce ajudou ela a fazer a higiene, enquanto Mirella cuidava do resto da casa. A semana foi passando rápido e na Quinta-feira, Mirella resolveu fazer uns pratos congelados pra família usar no final de semana. Sexta-feira ficaram esperando Berenice chegar e só depois foram prá casa. Antes de sair, Mirella avisou dos congelados e Berenice agradeceu. Ainda comentou: - Graças a Deus, ela vai tirar os pontos na Segunda-feira. É muito teimosa. Dirce defendeu: - Não está acostumada a ficar deitada o dia inteiro. - Mais quinze dias e tudo isso acaba. - Passa rápido. Mirella perguntou: - Quer que eu venha amanhã pra te ajudar? - Não. Descansa. Você já deixou a comida do final de semana pronta, o resto eu me viro. - Então vamos indo. Se precisar de alguma coisa, liga. - Pode deixar, se eu precisar, ligo sim. - Tchau. - Tchau. As duas foram pra casa. No caminho passaram na padaria e compraram refrigerante e pão para o lanche. Estava muito tarde pra começar a fazer a janta. Quando chegaram em casa, Mirella lembrou que tinha frango pronto no freezer. Tirou e colocou em cima da pia. A mãe tinha ido tomar banho. Assim que Dirce saiu do banheiro, ela foi também. Quando voltou a cozinha, a mãe já tinha passado o frango para um prato e esquentado no microondas. Lancharam e lavaram a louça. A semana tinha sido muito cansativa. Resolveram relaxar um pouco em frente a televisão. Quando sentiram sono se recolheram. O Sábado amanheceu bonito. Mirella tirou o ** dos móveis, varreu e passou pano na casa toda. Dirce estava preparando o almoço. Resolveu fazer feijão e se sobrasse, seria congelado para a outra semana. Depois do almoço, sentaram em frente a televisão e assistiram um bom filme. Ainda se sentiam cansadas. Mas ainda tinham um dia e meio para se recuperarem. Não estavam com ânimo para nada. Até às aulas de direção de Mirella ficaram pra depois. Dirce comentou: - Estou doida pras coisas voltarem ao normal. A única coisa boa nessa situação é você estar perto de mim. - Mas não vou enganar não. É muito serviço pra uma pessoa só. - Porque Dona Nora está de cama. Quando ela está bem, sobra tempo naquela casa. Fazer a comida, lavar louça, gasta muito tempo e normalmente quem faz isso é ela. Eu só entro na cozinha pra comer e lavar o chão, que ela mantém sempre limpo. - É. Na cozinha vai quase o dia inteiro. - Então. Quando ela voltar a fazer a comida, vai voltar a sobrar tempo, a gente sempre vê televisão de tarde. - Pensei que você estava trabalhando demais. - Não. O pior é ela quem faz. - Ainda bem. Como você se virou na semana passada sozinha? - Fiquei esgotada. Ainda bem que a Berenice liberou você pra me ajudar. Só tomar conta dela já cansa bastante. - É. Seu Jair é muito bonzinho. Outro patrão não ia nem enxergar que você estava no sacrifício. Ficaram vendo a televisão até o sono conseguir derrubar Dirce. Quando Mirella percebeu que a mãe estava cochilando, chamou ela pra cama e se recolheu também. No Domingo estavam já se sentindo melhor. O cansaço tinha desaparecido e elas se sentiam mais animadas. Ligaram o aparelho de som e ouviam músicas enquanto faziam o almoço. Dirce estava preocupada com a patroa. - Será que estão preparando a dieta dela? - Eu deixei a comida dela separada. Tudo sem gordura. Era só esquentar. - Dizem que quem opera vesícula não pode comer gordura nunca mais. - Também não é assim. Não pode fazer excesso. Tudo em excesso faz m*l. - Amanhã ela vai tirar os pontos. Estão bem sequinhos. - Também, com você fazendo curativo duas ou três vezes por dia. - Claro. Não podia deixar inflamar. Terminaram de fazer a comida, almoçaram e continuaram a conversar escutando músicas. Depois de deixarem a cozinha limpa, foram sentar na sala. desligaram o aparelho de som e ligaram a televisão. Mirella falou: - Amanhã vou ligar para uma distribuidora qualquer de TV a cabo. Dia de Domingo a programação é muito chata. Pela TV a cabo a gente pode escolher o filme que vai ver, tem diversos canais de telecines. - O que é isso? - São canais que só passam filmes. Acho que são mais de dez canais. Em pelo menos um tem que passar um filme bom. - É, liga que eu pago. - Não senhora. A gente divide. Sabe, eu tô pensando em quando eu voltar pro meu serviço, passar a vir pra casa todos os dias. - Se você vier, eu venho também. Mas pensa bem, a despesa da casa vai aumentar. - Nem tanto. Já vamos chegar quase de noite em casa. A Berenice agora, não precisa mais que eu durma lá e eu estou gostando de ficar com você. - Só depois que a Dona Nora estiver boa. - Então mãe. Eu só vou voltar pra casa da Berenice, depois que a Dona Nora estiver boa. - O médico vai dizer amanhã o que ela pode e o que não pode fazer. No final da tarde, fizeram um lanche depois do banho e voltaram pra frente da televisão. Quando o sono chegou, foram deitar. No dia seguinte foram de novo as sete horas pro trabalho. Quando chegaram Seu Jair pediu: - Dirce, você pode me fazer o favor de ajudar a Nora no banho? Daqui a pouco o Júlio vai vir pegar a gente prá ela tirar os pontos. Dirce na mesma hora foi para o quarto ajudar a preparar a patroa para a ida ao médico. Tinha colocado nela, um vestido com a******a na frente para facilitar. Fez uma leve maquiagem e colocou uma sandália rasteira. Na hora que Júlio chegou ela estava acabando de tomar café. Foi só escovar os dentes para irem. Dirce recomendou: - Pergunta ao médico, na frente dela se ela pode ficar andando dentro de casa e fazer algum trabalho doméstico. - E se não puder? - Ela ouvindo do médico, pode ficar mais calma e parar de querer levantar toda hora. - É uma boa idéia. Ela é muito teimosa. - Porque não está acostumada a ficar doente. Leito é chato mesmo. Berenice tinha vindo com Júlio e pediu se as duas podiam ficar com Henrique, enquanto eles iam no hospital. Dirce pegou o menino no colo e logo depois, Milena veio trazer o dela, pra ir trabalhar. Dirce comentou: - Por pouco, tu não pegou uma carona. O Júlio acabou de sair daqui pra levar Dona Nora para tirar os pontos. - O Jairo vai me deixar lá. - Tá bom. Vai que ele está esperando. - Tchau. - Tchau. E Dirce colocou os dois meninos no tapete da sala para brincar e se sentou para tomar conta. Enquanto isso, Júlio chegava ao hospital com os sogros e a esposa. Nora foi levada para a sala do médico pra ele verificar se os pontos podiam ser retirados. O médico elogiou: - Estão muito bem cuidados. Tudo sequinho. A senhora tem uma boa enfermeira em casa. Ou foi o maridão quem cuidou? - Não, foi a senhora que me ajuda nos serviços caseiros. Ela fazia dois ou três curativos por dia. - Com esse calor é muito fácil inflamar. Seu Jair se adiantou: - Doutor, ela fica querendo levantar e fazer serviços caseiros, tá sendo um custo fazer ela manter o repouso. - Por enquanto não é bom fazer nada. A senhora não precisa ficar deitada o tempo todo. Pode ir pra sala bater papo ou colocar uma cadeirinha na calçada. Mas não pode varrer, não pode cozinhar, não pode pegar peso. O risco de uma hérnia é muito grande. Pelo menos por uns dois meses tem que deixar o trabalho para os outros. Berenice se espantou: - Tudo isso, doutor? - Sim. A hérnia depois de uma cirurgia é muito comum. Eu tirei os pontos externos, mas os internos ficaram e podem dar aderência e ocasionar a hérnia. Aí vai ter que fazer outra cirurgia. Dona Nora: - Mas eu não posso fazer nada? - Pode: Palavras cruzadas, caça palavras, ler um livro ou uma revista. Trabalho de casa, nenhum. Se a senhora não sabe, o pior de uma casa é uma coisa muito leve. Berenice perguntou: - O que é? - A vassoura. Traz tantos problemas de coluna. - Já tinha escutado isso. - Pois é. Tem que continuar o repouso por pelo menos um mês e meio. Saíram do consultório desolados. Principalmente Berenice que contava levar Mirella de volta. Júlio deu a solução: - Vamos arranjar uma diarista pro trabalho mais pesado e avisar logo que é temporário. - É, não vai ter outro jeito. - Mas e a comida? - Pede pra Mirella fazer uns pratos congelados que eu vou buscar uma vez por semana. - Vou ver com ela. Quando chegaram em casa, disseram que o médico tinha proibido Dona Nora de fazer qualquer tipo de serviço caseiro por dois meses. Berenice conversou com Mirella a respeito dos pratos congelados e ela se prontificou a fazer. E Júlio explicou que iam chamar uma diarista para fazer a limpeza pesada uma vez por semana. O resto Berenice daria conta. Nora é que não estava nem um pouco satisfeita. Mas ficou com medo de ter que fazer outra cirurgia e resolveu obedecer o médico. Berenice conversou com ela, e pediu que ela tivesse paciência. Sabia como a mãe estava se sentindo. Na época do seu acidente foram meses em cima da cama. Seu Jair combinou de pagar, ele mesmo o salário de Mirella durante aquele tempo. A princípio Júlio não queria aceitar, mas o sogro disse que não se sentiria bem com eles tendo despesa numa situação que era ele que estava sendo beneficiado. O casal pegou o filho e foi embora e Seu Jair foi para o serviço. Mirella já tinha passado a roupa e limpado a casa, aproveitando a saída de Dona Nora para dar uma geral no quarto. Mas ela mudou de roupa e veio se sentar na sala. Dirce ajudou ela e procurou deixá-la confortável. Mirella começou a fazer o almoço e a mãe ficou fazendo companhia a patroa. Quando Seu Jair chegou, Mirella colocou a janta dele, depois que ele saiu do banho. Já não tinha que ter tantos cuidados com Dona Nora que podia vir se sentar a mesa. Quando terminaram de comer, Mirella retirou a louça suja e lavou. Depois perguntou: - Vocês precisam de mais alguma coisa? - Não. Pode se recolher. - Se o senhor não se importar, eu gostaria de ir dormir em casa. - Podem ir as duas. Agora não tem mais necessidade de passar a noite aqui. Não tem mais curativo pra fazer. - Amanhã as sete estaremos de volta. - Por favor. Se não eu me atraso. - Quer que traga alguma coisa? - Traz pão fresco. Vou te dar o dinheiro. Deu o dinheiro a elas e elas foram embora. Já na rua Dirce comentou: - Você não teve medo dele não gostar de ficar sozinho com ela? - Medo por quê? - Porque ela está doente. - Não mãe, ela não está doente. Está se recuperando de uma cirurgia. Doente, ela estava antes de operar. - Você ainda vai ficar um mês e meio comigo. - Esse é o único lado bom da história. É muito serviço pra uma pessoa só. - Eu vou tentar te ajudar a partir de amanhã. - Você tem que ficar tomando conta dela, pra não cometer excessos. - Mas não é justo você fazer o serviço de duas pessoas. - Ainda mais agora que a Berenice quer que eu faça comida congelada pra ela. - Pois é. Ainda é mais trabalho. E conversando chegaram em casa. Já tinham jantado e ainda era cedo. Aproveitaram para relaxar um pouco vendo televisão até que o sono as vencesse. Então foram se preparar para dormir. Antes de ir para o quarto, Dirce pensou: Realmente em casa o descanso era diferente. Era mais relaxante do que na casa dos patrões. No dia seguinte, levantaram mais animadas para trabalhar. Se arrumaram e passaram na padaria pra comprar o pão encomendado. Quando chegaram, Seu Jair comentou: - Vocês estão com uma expressão bem melhor hoje. Parecem mais animadas. Foi Mirella que respondeu: - E estamos. Nada como dormir na casa da gente. Relaxa mais. - Podem ir todos os dias. Ela já não inspira tantos cuidados. Pelo menos dorme a noite toda. O perigo é durante o dia. E muito teimosa e tem que ser mantida sob vigilância, como se fosse uma criança.
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