Capítulo 19 - Sophia
Tudo estava saindo conforme o planejado. Frederico, claro, ainda estava desconfiado de mim, mas isso apenas me dava mais tempo para me aproximar dele. Eu sabia que agora ele ficaria de olho em mim, o que era perfeito para a minha estratégia. O plano que Saimon me entregou era bem estruturado, usando justamente a desconfiança de Frederico a meu favor para transformar isso em atração.
— Obrigada pela carona — eu digo quando ele para em frente ao prédio onde Saimon alugou um apartamento para mim.
— Vamos descer, quero conhecer seu apartamento — Frederico diz, com a voz tranquila, mas ainda observadora.
— Claro — eu respondo, desatando o cinto devagar.
Subimos em silêncio os quatro andares de escada. O prédio era simples, sem elevador, e eu já tinha vindo aqui uma única vez para ajeitar as coisas do meu jeito. Quando ele abre a porta, entra sem hesitar e começa a inspecionar o apartamento. Era um studio, com uma grande janela de vidro e uma bancada americana separando a cozinha do quarto.
Eu fico em um canto, observando enquanto ele vasculha cada canto, mexendo em tudo. Saimon havia me avisado que ele faria isso. Ele pega fotos, anotações, livros...
— Eu posso fazer um café, se você quiser — eu digo, quebrando o silêncio tenso.
— Para me envenenar? — ele responde, sem tirar os olhos das coisas que estava mexendo.
— Não — eu digo, rindo de nervoso. — Jamais faria isso.
Ele desvia os olhos por um momento e então pergunta:
— Você costuma usar anéis?
— Às vezes — eu respondo.
— Me mostra seus anéis — ele pede, de forma quase exigente.
— Meus anéis? — eu repito, surpresa.
— Sim, cadê? — ele pergunta.
Eu me levanto, andando até a cômoda e apontando.
— Na segunda gaveta da cômoda.
Ele vai até lá, abre a gaveta e começa a jogar tudo para fora, começando a analisar cada peça. Sinto um frio na barriga, mas tento manter a calma.
— Isso é algum tipo de fetiche? — eu pergunto, tentando quebrar a tensão.
Ele me encara, mas não diz nada. Eu começo a andar pela sala enquanto ele continua sua busca.
— Ficarei de olho em você — ele diz, sem olhar para mim, ainda mexendo nas coisas. — E quando você menos esperar, vou aparecer para ver se realmente é confiável.
— Eu nunca cometi nenhum crime — eu digo, tentando manter a voz firme. — Ah, a não ser quando roubava chicletes na padaria...
Ele me encara sem paciência.
— Não denuncie nada, não conte a ninguém o que aconteceu, onde você esteve ou o que você viu — ele fala, com uma voz ameaçadora.
Eu engulo seco, tentando manter a calma.
— Eu preciso assinar o seguro do meu carro — eu digo, desviando de sua intensidade.
— Esquece seu carro — ele responde com firmeza. — Esquece o seguro.
— Mas, eu ainda estou pagando ele, é bem caro, demorei para conseguir — eu protesto.
Ele me encara com uma expressão impaciente.
— Você é surda? — ele pergunta, com raiva crescente.
— Não, graças a Deus escuto muito bem — eu respondo, nervosa.
— Então você escutou o que eu disse sobre o seu carro — ele fala, quase grunhindo.
— Ninguém vai atrás do endereço, eu só precisava avisar a seguradora — eu falo, tentando me justificar. — Assim, eles me dão um carro novo.
Ele dá um passo em minha direção, com o rosto tenso.
— Eu acho que você tem as orelhas só para enfeitar, então talvez eu deva cortá-las. Não servem para nada — ele fala, com raiva.
Eu coloco minhas mãos nas orelhas, tentando me afastar.
— Eu ando a pé, caminhar faz bem — eu falo, tentando desviar a tensão.
Ele me encara, com os olhos fixos em mim.
— Boa tarde, Sophia — ele diz, saindo do apartamento.
Assim que a porta se fecha, eu tranco-a rapidamente e me encosto nela. Sinto uma onda de alívio misturada com medo. Por mais que o plano fosse bem executado, eu sabia que Frederico poderia realmente acreditar que eu era uma traidora, como eu era, e me matar sem hesitar.
Olho ao redor do apartamento e, pela primeira vez desde que fui adotada, sinto uma sensação de solidão. Mesmo com a missão em andamento, essa sensação de liberdade era boa. Sem a pressão de Saimon me vigiando, eu podia finalmente fazer o que quisesse, na hora que quisesse, sem pedir permissão a ninguém.
Com isso, me jogo no sofá, cercada pelas almofadas, e deixo minha mente vagar por um momento.