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- Olha, mamãe, olha!
Mandy e eu estamos em um jardim, ele é tão lindo, tem tantas rosas. Mandy quer que eu olhe para as borboletas, elas posam nas rosas e batem de leve suas asas.
- Mamãe, olha! - Mandy me mostra a borboleta azul que pousou em seu dedo.
Ela ri, está alegre, está tão feliz. Minha menininha linda.
- Para onde você está indo? Mamãe, não me deixe, mamãe! - Mandy começa a gritar.
Eu estou ficando cada vez mais longe dela, o jardim não é mais lindo, está em ruinas e as rosas morreram, as borboletas não voam mais. Eu não consigo falar, minha cabeça doí.
- Mamãe!
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Foi apenas um sonho, mais um de muitos.
Estou deitada no banco de trás de um carro, não consigo abrir os olhos, minha cabeça lateja e um lado do meu rosto está doendo.
- Não... claro que não... não fiz isso... estou indo... não sei, porra...
Ouço alguém falar do lado de fora do carro, mas não é o Harry, é outra pessoa. É um homem, não consigo reconhecer a voz dele. Acho que ele está envolvido com o Harry nessa. Aqui está tão frio, onde estamos? Eles estão me levando para algum lugar.
O homem que falava do lado de fora entra batendo com força a porta do carro, ele tem cheiro de lareira e cinzas.
- Ela ainda tá dormindo? - Ele pergunta.
- Tá sim, como um bebezinho. - Harry responde em tom alegre.
O carro começa a andar. Preciso abrir os olhos, ver o que posso fazer para sair desse carro. Mexo minhas mãos e pulsos, estão livres, e não tem nada amarrando meus pés. Só preciso abrir os olhos, só isso, vamos lá! Você consegue! Helena, seja forte, seja forte pela Mandy.
Com muito esforço e dor, consigo, não completamente, abrir os olhos. Não vejo com muita clareza, mas sei que quem estar no volante é o Harry. Levo minha cabeça um pouco para a cima para ver a porta, está destrancada. Mas não vou conseguir me levantar, abrir ela e sair porta a fora com o carro em movimento.
- Para o carro. - O homem desconhecido pede.
- Para que? - Harry pergunta com desgosto do pedido.
- Quero mijar, para logo a p***a do carro. - O desconhecido pede novamente com arrogância.
Harry para o carro com mau jeito. O desconhecido saí do carro logo em seguida.
Minha chance é essa, tenho que aproveitar que o carro está parado. Mesmo com a péssima visão que estou no momento, me levanto e abro a porta ao mesmo tempo, e, para a minha sorte, escorrego bem no instante que vou começar a correr.
- m***a, Barth, pega ela! - Harry saí e corre para onde estou.
Me levanto, e Barth, o desconhecido me pega por trás.
- Para onde você pensa que vai garotinha tola? - Barth diz em meu ouvido e cheira meu pescoço, seu hálito fede a uísque.
- Não é da sua conta, seu bêbado fedido! - Respondo e mordo sua mão que estava perto da minha bochecha.
- Aí, sua c****a. - Ele me solta e aperta sua mão no lugar onde mordi.
Começo a correr de novo.
- Seu i****a! - Harry xinga ele e vem novamente atrás de mim.
Corro pela estrada cheia de gelo, tem umas árvores logo a frente. Corro mais rápido, mas minha visão não ajuda em nada. Viro a direita onde estão as árvores, meus pés afundam no gelo macio, está mais difícil de correr e os galhos das árvores me atrapalham.
- Pare! Helena, pare! - Harry grita correndo atrás de mim - Eu só quero te ajudar! - Ele diz.
- Se quer me ajudar, vá embora! - Respondo.
- Pare logo de correr, sua vaca! - Ele se exalta.
Com uma leve distração e sem perceber para onde eu estava correndo no meio daquelas árvores e todo aquele gelo, bato de cara com um tronco e escorrego para dentro de um buraco do lado. d***a! Não desmaie, de novo não...
- Para onde ela foi? - Ouço Harry perguntar para si mesmo.
E isso foi a última coisa que escutei antes de desmaiar, a dor é insuportável e não consigo me manter acordada.
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Passos, passos fundos e firmes na neve. Estou sendo carregada no ombro de alguém, sinto os músculos do ombro.
- Quem é você? - Murmuro.
Ouço um sorrisinho contagiante.
- Eu queria te fazer a mesma pergunta, moça bonita. - Responde.
É um homem, por que só aparece homens? Ele tem a voz de um monge, ele fala como um monge; tão calmo e devagar.
- Para onde está me levando? - Pergunto curiosa.
- Apenas durma, não é nada confortável mas tente dormir, o caminho é longo.
- E vai conseguir me levar por isso longo caminho no ombro? - Faço outra pergunta.
Ele ri de forma contagiante de novo.
- Não me subestime, moça bonita.
Moça bonita... sorrio e apago, de novo.
- Quem é ela, papai? - Uma voz muito aguda pergunta a alguém.
- Não sei, querida. Encontrei ela no esconderijo que eu e você fizemos. - Um homem responde, é o mesmo homem que me carregava.
Abro os olhos, e para a minha alegria, consigo abrir por completo e minha visão está melhor.
- Papai, ela acordou. - Uma menina de lindos cabelos ruivos sentada no canto da cama avisa para um homem que está de costas e não consigo ver o rosto dele, mas sei que ele é careca. Uma bela careca.
- Olha só, a moça bonita acordou mesmo. - Ele diz quando se vira.
Ele é tão branco quanto a neve e tem extraordinários olhos verdes, ele é alto e muito musculoso.
- Olá. - Murmuro.
- Ah, pai, ela nem é tão bonita assim, eu sou mais. - A menina de cabelos ruivos exclama.
Ela é branca igual o pai, deve ter uns 7 anos, e tem os olhos castanhos, deve ter puxado a mãe os olhos.
- Claro que você é querida - Ele afirma e ela fica cheia de si - Agora deixa o papai sozinho para terminar de cuidar da moça. - Ela obedece e saí.
Estou em um quarto muito quentinho todo de madeira, deve ser uma cabana. Estou deitada em uma cama cheia de almofadas, estou com uma roupa diferente, uma roupa masculina que creio eu ser do homem careca. O quarto só tem a cama e uma pequena mesa de vidro onde tem vários remédios e curativos.
- Vou colocar isso em você agora, e acabamos. - Ele diz.
Ele se senta na cama, afasta meu cabelo para atrás da orelha e coloca o curativo na minha testa.
- Aí!
- Desculpa.
- Tudo bem, eu que sou meio chorona para curativos. - Digo e sorrio.
Ele termina de colocar e diz:
- Pronto, agora basta você tomar uma bela sopa de carneiro e estará novinha.
- Sopa de carneiro? - Digo esboçando não querer a sopa.
- Sim, é a melhor do mundo, eu mesmo fiz. - Ele diz se enaltecendo.
- Ah, melhor ainda. - Desdenho.
Ele ri.
- Quando você comer a sopa, não querer comer mais nada a não ser a sopa. - Ele diz com grande certeza da afirmação inusitada que acabou de fazer.
- Ah, é né...
Ele guarda tudo que estava na mesa dentro de uma bolsa de couro.
- Alias, me chamo Arth. - Ele diz.
Arth.
- Sou a Helena - Digo meu nome também - Sua filha se parece muito com você. - Digo, do nada para o assunto não acabar.
- Sim, mas ela se parece mais com a mãe. - Ele responde.
- Como sua filha se chama? - Pergunto, estou curiosa.
- Eva, o mesmo nome da mãe. - Ele responde.
Nas duas respostas ele menciona a mãe mesmo eu não tendo perguntado, ele deve a amar muito e está pensando que quero tomar o lugar dela ou me envolver com ele.
- Menciono a mãe da Eva nas respostas por que foi uma coisa que a Eva pediu, mesmo sendo tão nova ela é muito inteligente e sabe se posicionar nas coisas que acha importante. - Ele diz.
É agora faz sentido.
- Entendi.
Eva aparece de repente.
- Vamos comer a sopa, já está na hora! - Ela diz animada.
- Claro que sim, querida. E hoje temos uma convidada, a Helena. - Arth olha para mim.
- Você não quer o meu papai, quer? - Eva pergunta na seca.
Arrumo a garganta e respondo devagar:
- Não, Eva. Sou apenas uma hospede do seu pai por hoje, logo mais irei embora.
Ela me encara como se fosse uma leoa protegendo seus filhotes.
Não a culpo, ela tem um pai lindo... quer dizer, Arth é muito atraente.
- Meu pai e eu, eu e meu pai. Entendeu?
- Entendi sim, não irei tomar o lugar da sua mãe, não se preocupe. - Quando digo isso, o rosto de Eva fica triste.
- Querida, vai na frente, papai já está indo. - Arth diz a Eva.
- Eu falei algo de errado? - Pergunto.
- A mãe dela, minha esposa, morreu em um acidente. - Ele responde com a voz baixa e rouca.
- Oh, me desculpe.
Nossa, como eu fui burra. Deveria ter percebido o por que da Eva pedir para o pai sempre mencionar a mãe e o motivo dela ser super apegada ele, não por ciúmes, mas por medo de perde-lo também.
- Como me achou naquele buraco no meio de nada? - Mudo de assunto, não quero desagradar mais do que desagradei.
Ele se encosta na parede do lado da mesa.
- Lá é um esconderijo para que eu possa tirar fotos de modo mais seguro a noite e os animais não me devorar. - Ele responde sorrindo.
Ufa, pelo menos ele esqueceu da bobagem que fiz sobre falar da falecida esposa, assim espero.
- Você é fotografo?
- Sou sim, irei exibir minhas fotos semana que vem em uma exposição de talentos. - Ele diz todo orgulhoso e por alguma estranha razão, fico orgulhosa dele por isso.
- Parabéns.
- Obrigado, significa muito pra mim.
O que será que aconteceu com o Harry?
- Quando você me achou naquele buraco, tinha mais alguém por perto? - Pergunto.
Ele fica sério.
- Não tinha ninguém, só umas pegadas de botas que não era sua. - Responde.
- Entendi...
- Por que? Estava fugindo de alguém? - Arth pergunta.
Como posso responder isso pra ele, sinto que deveria mentir, mas isso pode colocar ele e a Eva em risco caso Harry apareça por aqui.
- É, meio que isso mesmo. É complicado de explicar...
- Pode explicar, confie em mim. - Ele diz, me sinto segura para contar.
Conto tudo desde o inicio para ele, explicando e falando cada detalhe da história.
- E você acha que esse tal de Harry está com sua filha Mandy?
- Tudo indica que sim...
Quando iria falar mais coisas, Eva aparece.
- Papai, a sopa tá ficando fria. - Ela avisa irritada pela demora.
Ele ri para ela.
- Melhor a gente ir. - Ele diz olhando pra mim.
Arth me ajuda a sair da cama e me leva nos braços para a cozinha.