Quando o céu se cala antes do strondo.

562 Palavras
. A notícia não veio com barulho. Veio no silêncio estranho que antecede a tragédia. Eu cheguei em casa ainda sentindo o eco do louvor dentro do peito. As crianças já estavam deitadas, a casa aparentemente em ordem, mas havia algo pesado no ar. Não era medo — era aviso. Aquele tipo de silêncio que não traz descanso, só expectativa. Na rua, quase ninguém conversava. As portas fechavam mais cedo. Os olhares evitavam cruzar. Quando o Perigo e o Morte estavam juntos na comunidade, todo mundo sabia: algo já tinha sido decidido, só ainda não tinha acontecido. Daniel entrou em casa diferente. Não falou muito. Bebeu água, sentou no sofá, levantou de novo. O corpo dele estava ali, mas a alma parecia longe, como se estivesse ouvindo algo que eu não podia ouvir. — Mãe… — ele começou, parou, respirou fundo. — Se alguma coisa acontecer comigo, cuida da Soso. Aquilo me atravessou como faca. — Para com isso, menino — respondi, tentando manter a voz firme. — Você já passou pelo pior. Deus já te livrou demais. Ele me olhou de um jeito estranho. Não era desespero. Era consciência. Como quem sabe que o livramento não significa que a guerra acabou. Lá fora, Fugaz não dormia. A frustração dele tinha virado obsessão. Daniel vivo era um erro que precisava ser corrigido. E o Morte… o Morte agora era um problema maior ainda. A ordem de Cicatriz tinha sido clara: mata os dois. Sem cena. Sem explicação. Sem volta. Bola e Foguete começaram a circular mais. Não ameaçavam. Observavam. E quem observa, já decidiu. O Morte sabia. Ele sempre sabia. Por isso trouxe o Perigo para perto. Não era p******o — era estratégia. Quando os dois estavam juntos, ninguém atacava por impulso. Mas aquela união também acendia o sinal vermelho para todos: quando eles se juntavam, alguém ia cair. Daniel passou a evitar a rua. Não por medo — por cuidado. Ele não queria envolver ninguém. Não queria que o nome dele fosse desculpa para mais sangue. Mas Fugaz queria pressa. Na cabeça dele, aquilo já tinha passado do ponto. A mentira tinha crescido demais. E mentiras grandes exigem mortes grandes para se sustentarem. Naquela mesma noite, enquanto eu lavava a louça, senti um aperto forte no peito. Não era dor física. Era urgência espiritual. Larguei tudo, ajoelhei no chão da cozinha e orei como quem grita por dentro. — Senhor… não deixa o m*l vencer no silêncio. — Não deixa meu filho virar estatística. — Se for preciso quebrar planos, quebra. — Se for preciso expor mentiras, expõe. — Mas não entrega o Daniel nas mãos deles. Enquanto eu orava, decisões estavam sendo tomadas longe de mim. Homens se moviam. Armas eram carregadas. Ordens eram repetidas. E Daniel… Daniel estava marcado não só pela violência daquele mundo, mas por algo que eles não conseguiam entender: Ele tinha sobrevivido quando já deveria estar morto. E naquele lugar, sobreviver sem permissão era o maior pecado de todos. Eu ainda não sabia, mas a notícia que viria não seria apenas sobre Daniel. Seria sobre limites rompidos. Sobre traições escancaradas. E sobre o preço de desafiar estruturas que se alimentam do medo. Naquela noite, o céu parecia quieto demais. Mas eu já tinha aprendido: Quando Deus silencia, não é ausência. É porque Ele está agindo onde ninguém vê. E o próximo amanhecer… não seria comum.
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