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A notícia não veio com barulho.
Veio no silêncio estranho que antecede a tragédia.
Eu cheguei em casa ainda sentindo o eco do louvor dentro do peito. As crianças já estavam deitadas, a casa aparentemente em ordem, mas havia algo pesado no ar. Não era medo — era aviso. Aquele tipo de silêncio que não traz descanso, só expectativa.
Na rua, quase ninguém conversava. As portas fechavam mais cedo. Os olhares evitavam cruzar. Quando o Perigo e o Morte estavam juntos na comunidade, todo mundo sabia: algo já tinha sido decidido, só ainda não tinha acontecido.
Daniel entrou em casa diferente. Não falou muito. Bebeu água, sentou no sofá, levantou de novo. O corpo dele estava ali, mas a alma parecia longe, como se estivesse ouvindo algo que eu não podia ouvir.
— Mãe… — ele começou, parou, respirou fundo. — Se alguma coisa acontecer comigo, cuida da Soso.
Aquilo me atravessou como faca.
— Para com isso, menino — respondi, tentando manter a voz firme. — Você já passou pelo pior. Deus já te livrou demais.
Ele me olhou de um jeito estranho. Não era desespero. Era consciência.
Como quem sabe que o livramento não significa que a guerra acabou.
Lá fora, Fugaz não dormia.
A frustração dele tinha virado obsessão.
Daniel vivo era um erro que precisava ser corrigido.
E o Morte… o Morte agora era um problema maior ainda.
A ordem de Cicatriz tinha sido clara: mata os dois.
Sem cena.
Sem explicação.
Sem volta.
Bola e Foguete começaram a circular mais. Não ameaçavam. Observavam. E quem observa, já decidiu.
O Morte sabia.
Ele sempre sabia.
Por isso trouxe o Perigo para perto. Não era p******o — era estratégia. Quando os dois estavam juntos, ninguém atacava por impulso. Mas aquela união também acendia o sinal vermelho para todos: quando eles se juntavam, alguém ia cair.
Daniel passou a evitar a rua. Não por medo — por cuidado. Ele não queria envolver ninguém. Não queria que o nome dele fosse desculpa para mais sangue.
Mas Fugaz queria pressa.
Na cabeça dele, aquilo já tinha passado do ponto.
A mentira tinha crescido demais.
E mentiras grandes exigem mortes grandes para se sustentarem.
Naquela mesma noite, enquanto eu lavava a louça, senti um aperto forte no peito. Não era dor física. Era urgência espiritual. Larguei tudo, ajoelhei no chão da cozinha e orei como quem grita por dentro.
— Senhor… não deixa o m*l vencer no silêncio.
— Não deixa meu filho virar estatística.
— Se for preciso quebrar planos, quebra.
— Se for preciso expor mentiras, expõe.
— Mas não entrega o Daniel nas mãos deles.
Enquanto eu orava, decisões estavam sendo tomadas longe de mim.
Homens se moviam.
Armas eram carregadas.
Ordens eram repetidas.
E Daniel…
Daniel estava marcado não só pela violência daquele mundo,
mas por algo que eles não conseguiam entender:
Ele tinha sobrevivido quando já deveria estar morto.
E naquele lugar, sobreviver sem permissão era o maior pecado de todos.
Eu ainda não sabia, mas a notícia que viria não seria apenas sobre Daniel.
Seria sobre limites rompidos.
Sobre traições escancaradas.
E sobre o preço de desafiar estruturas que se alimentam do medo.
Naquela noite, o céu parecia quieto demais.
Mas eu já tinha aprendido:
Quando Deus silencia, não é ausência.
É porque Ele está agindo onde ninguém vê.
E o próximo amanhecer…
não seria comum.