Daniel vinha para casa.
Não corria. Não se escondia. Caminhava como quem só queria chegar.
O dia parecia comum demais para carregar o peso que já estava decidido sobre ele.
No caminho, encontrou Foguete.
Não houve conversa.
Foguete parou. Olhou nos olhos de Daniel por tempo demais. Um olhar diferente — pesado, silencioso, definitivo. Não era ameaça. Era constatação. Como quem já sabia algo que outro ainda não podia saber.
Daniel sustentou o olhar sem entender. Achou estranho, mas seguiu.
Ele não sabia que aquele silêncio dizia mais do que qualquer aviso.
Para Foguete, o destino já estava traçado.
As decisões tinham sido tomadas longe dali, em lugares onde Daniel não esteve e em conversas que ele nunca ouviu. Sua vida estava sendo medida em horas.
Enquanto Daniel caminhava em direção à casa, outros calculavam rotas, tempos e possibilidades. Não havia espaço para erro. Tudo já tinha sido desenhado.
Daniel não sabia.
Mas o céu sabia.
E naquela mesma hora, algo começou a me inquietar de um jeito diferente. Um aperto sem nome, uma urgência que não combinava com o fim de tarde. Eu senti vontade de orar antes mesmo de entender o porquê.
Talvez seja isso: quando a sentença é escrita na terra, Deus avisa o coração de uma mãe.
Eu sabia que tinha algo errado no mundo espiritual. Era uma sensação estranha, como se o ar estivesse pesado demais. Daniel estava pela comunidade — eu não sabia onde — mas sabia que alguma coisa estava sendo armada.
Fulgaz parecia diferente.
Determinado demais. Obcecado demais.
Ele sempre resolveu as coisas sem alarde, sem essa pressa nervosa. Mas agora havia inquietação nos olhos dele, como quem já tinha ido longe demais e não sabia mais como parar.
Mesmo com o coração apertado, fui para o culto jovem. Cultuei ao Senhor, porque Ele é o único digno de toda honra e glória. O culto foi uma bênção.
Veio uma pregadora de fora. Em determinado momento, ela olhou diretamente para mim e disse que Deus iria entrar no cenário. Disse que minhas orações estavam sendo ouvidas. E disse algo que me fez estremecer:
— Não se escandalize. Deus vai ter um particular com o seu filho. Vai haver uma cadeia, mas não será para morte. Será para resgate.
Quando ouvi aquilo, meu coração entrou em desespero.
Daniel tinha quatorze anos. Para ser preso, algo muito grave teria que acontecer.
Ali, em silêncio, eu clamei: “Senhor, não deixa meu filho tirar a vida de ninguém. Eu não suportaria uma mãe vindo até mim dizer: foi seu filho.”
Com esse peso no peito, voltei para casa.
Na esquina, encontrei Jorge. Ele veio dizendo: — O Daniel está andando de moto com o Morte por aí.
Disse também que o bairro estava cheio de polícia. Achei estranho. Jorge nunca se importava.
Entrei em casa, deixei minha Bíblia sobre a mesa da cozinha e voltei para a rua. Eu precisava achar Daniel. Precisava falar com ele. Mandar vir para casa.
Enquanto caminhava, ouvi um tiro.
Parecia perto.
Em seguida, ouvi o Márcio, o vizinho, gritar: — Foi o Daniel!
Meu corpo reagiu antes da minha mente. Saí correndo. Ouvi outro tiro, agora mais próximo. Um carro freando bruscamente. Um grito. Algo caindo no chão.
Quando cheguei à esquina, vi o Morte passando correndo. Logo atrás, Daniel.
Mas ele corria de lado.
Ali eu soube.
Alguma coisa estava muito errada.
A polícia chegou quase ao mesmo tempo. As vozes gritavam: — Achem eles! Achem eles!
Fulgaz tinha dito aos policiais que Daniel estava com o dinheiro do arrego e não queria entregar. Policiais revoltados, achando que estavam sendo enganados. A rua virou um caos.
Eu procurava Daniel desesperadamente.
Não encontrei.
Vi apenas um rastro de sangue que, de repente, desapareceu.
Foi quando um vizinho se aproximou de mim e disse em voz baixa: — Dona Solange… parece que o Daniel está baleado lá no fundo, perto do quartinho no mato. Ele não está conseguindo correr.
Naquele instante, começou a minha verdadeira agonia.
Como chegar até ele?
A polícia estava procurando.
Como tirar meu filho de lá?
O vizinho foi me guiando por trás, desviando dos olhares. Cada passo parecia uma eternidade. Meu coração batia tão forte que eu achava que todos podiam ouvir.
Quando cheguei até o fundo do quartinho…
eu vi uma cena que nunca mais sairia da minha cabeça.
(continua)