Eu queria saber porque o morte conhecido por não andar com ninguém agora deixava Daniel agora até subir na sua garupa foi quando a notícia começou a circular na comunidade Naquele dia, tudo aconteceu rápido demais.
Houve uma abordagem. Um movimento estranho. Um cerco que se fechava antes mesmo de dar tempo de pensar. As viaturas surgiram como sombras duras, e quem vivia naquele mundo soube na hora: alguém seria levado.
Morte.
Daniel percebeu antes dos outros.
Não pensou.
Não avaliou consequências.
Agiu.
Fez o que sabia fazer. Criou uma distração. Gritou, correu, puxou atenção para si. Abriu uma brecha pequena — mas suficiente. No meio da confusão, Morte escapou.
Não foi preso.
Para quem vive naquele território, isso não é detalhe.
É dívida.
E dívida ali não se escreve em papel — se grava na pele.
A partir daquele dia, os olhos de Morte passaram a seguir Daniel. Não houve agradecimento, nem palavra dita. Homens como ele não agradecem. Mas havia algo raro: respeito. Um adolescente havia feito o impensável. Não por valentia vazia, mas por ousadia.
E ousadia, naquele lugar, chama atenção.
Morte começou a querer andar com Daniel. Não como amigo. Como alguém que observa, mede, testa. A coragem de Daniel não foi vista como afronta. Foi vista como potencial.
Enquanto isso, dentro da minha casa, a guerra só aumentava.
Na quarta-feira, fui ao culto da tarde. Levei as crianças. Mateus estava na escola. Daniel não estudava mais — e isso virou mais um motivo de confusão. Jorge já não falava. Partia para a agressão. Onde via Daniel, batia. A casa deixou de ser abrigo. Virou campo de batalha.
Eu só pensava numa coisa:
queria dinheiro suficiente pra pegar meus filhos e desaparecer.
Mas eu era sacoleira. E ainda tinha muita gente que comprava e não pagava. Eu estava presa — financeiramente, emocionalmente, espiritualmente em luta.
Quando saí do culto, vi o que não queria ver.
Daniel estava com Morte. E com um amigo dele — um homem que ninguém sabia de onde vinha, nem qual era o verdadeiro nome. Só sabíamos de uma coisa: quando aqueles dois se juntavam, era bagaceira das grandes. Ninguém saía ileso.
Por que Daniel estava com eles?
Ele me viu. Olhou na minha direção. Eu ia chamá-lo. Mas antes que eu abrisse a boca, um carro parou. Eles entraram. O carro passou por mim.
Meu corpo arrepiou inteiro.
Tentei olhar quem dirigia, mas o vidro era escuro. Não dava pra ver nada lá dentro. Só senti o peso. O aviso. O medo.
Muitas vezes dizemos que acreditamos em Deus, que confiamos, que temos fé. Mas quando o inimigo da nossa alma faz barulho desse jeito, o coração treme. A mente corre. As perguntas gritam.
— E agora, meu Deus?
— O que vai acontecer?
Naquele dia eu entendi algo que nunca esqueci:
enquanto o medo fala, Deus fica em silêncio.
Enquanto a angústia faz festa dentro da gente, Deus fica em silêncio.
A voz de Deus só pode ser ouvida quando eu silencio todas as outras vozes.
Fui pra casa aflita. Andava de um lado pro outro, imaginando onde Daniel tinha ido, com quem estava, até onde aquilo iria. A noite caiu pesada. Eu não preguei os olhos.
Minha oração não foi bonita.
Foi aflita.
Foi quebrada.
Foi uma vigília — Deus e eu.
Na manhã seguinte, quando Daniel chegou à casa da avó, contou ao primo algo que saiu completamente do roteiro.
Disse que quase morreram.
Eles tinham ido a uma festa para comemorar o aniversário do Perigo, amigo de Morte. Só os mais chegados estariam lá. Mas alguém invadiu a festa querendo pegar o Perigo. Houve confusão. Tiros. Correria.
Daniel contou com a voz trêmula: — Eu não sei como a bala não me pegou… eu saí exatamente no momento certo.
Ele falava como se fosse sorte.
Mas eu sabia.
O que pra ele foi sorte,
pra mim foi a mão de Deus.
Deus ouviu minha oração naquela madrugada.
Deus guardou meu filho quando eu não podia alcançar.
Deus entrou onde eu não podia entrar.
E ali eu entendi:
a batalha estava ficando maior.
Mas Deus ainda estava no controle.
E enquanto houvesse oração,
a história ainda não estava perdida.