BETINA Mano, o dia amanheceu com aquele sol brabo do morro, o calor subindo do asfalto e o som das motos cortando o ar. A casa tava cheia de vida, com a Ceci ensaiando suas falas pro teatro na sala, andando de um lado pro outro com um papel na mão, toda concentrada. Minha menina tá brilhando de novo, e isso me enche de esperança. Ela tá tão metida com essa peça de fada que às vezes até esqueço o peso do ano passado, quando aquele desgraçado do Bernardo levou ela. O Lipe, meu furacão, tava no quintal, chutando a bola de futebol e quase derrubando mais um vaso da Dona Maria. — Mãe, olha meu chute! Tô igual o Gabigol! — gritou ele, rindo, com o joelho ralado de tanto tomar tombo de bicicleta. Eu ri, balançando a cabeça, mas por dentro o ciúme tava me roendo como nunca. Desde o baile,

