capítulo 5— KAELITH

1630 Palavras
Ela ainda estava comigo. Isso, por si só, já era um erro. Humanos não duram aqui. Não sobrevivem ao ar pesado da floresta, nem ao cheiro constante de sangue antigo que parece grudar na pele. Mas Elizabeth não apenas continuava viva… ela começava a se adaptar. E isso era pior do que qualquer fraqueza. Eu sentia antes de ver. A mudança. A floresta não estava mais em silêncio comum. Estava… alerta. Como se algo estivesse sendo observado de volta. Os lobos. Eles não aparecem como simples animais aqui. Nada aqui é simples. São antigos, distorcidos pelo que esta floresta engole e devolve diferente. Alguns ainda lembram o que foram. Outros… esqueceram completamente. E hoje, estavam inquietos. — Você está ouvindo isso? — Elizabeth perguntou, baixa. Eu não respondi de imediato. Porque sim. Eu estava ouvindo. Passos leves entre as árvores. Cercando. Testando. Eles não atacam sem motivo. Nunca sem motivo. E o motivo agora… Era ela. — Fica atrás de mim — eu disse. — Você fala isso como se eu fosse obedecer sempre. — Você vai. Ela soltou um ar curto, quase um riso. Mas ficou. Isso era novo. Antes ela discutia mais. Agora ela avaliava. Aprendia. Perigoso. O primeiro apareceu entre as árvores. Não completamente lobo. Não completamente homem. Algo entre os dois. Olhos fundos. Movimentos tensos. Faminto. Mas não só por carne. Por algo mais difícil de explicar. Quando ele viu Elizabeth… parou. E inclinou a cabeça. Como se reconhecesse. Errado. Muito errado. — Kaelith… — ela sussurrou. — Não olha direto — eu disse. Mas já era tarde. Os outros começaram a aparecer. Um a um. Silenciosos. Observando. E então entendi. Não era caça. Era reconhecimento. Ela estava sendo sentida por eles. — Isso não é normal — ela disse. — Nada aqui é. O primeiro deu um passo à frente. Eu também. Ficando entre eles. Sempre entre eles. Mas ele não recuou. Isso me fez hesitar. Só um instante. Suficiente. Ele não queria me enfrentar. Queria ela. Elizabeth deu meio passo para trás. Mas não fugiu. Não completamente. — Eles estão… me olhando — ela disse. — Sim. — Como se… — Como se te conhecessem. Silêncio. Pesado. Errado. O ar mudou. E então… um uivo. Baixo. Profundo. Respondido em algum lugar da floresta. E todos eles reagiram. Não atacando. Não ainda. Mas… se alinhando. Formando algo. Uma ordem. Elizabeth percebeu junto comigo. — Eles não são só animais — ela disse. — Não. — Então o que são? Eu olhei para ela. Por um segundo longo demais. — O que sobra quando a floresta decide não devolver tudo. Silêncio. Ela engoliu seco. — Isso não ajuda muito. — Não foi pra ajudar. O líder deles avançou mais um passo. Agora perto o suficiente para ver melhor. E então ele fez algo inesperado. Ele abaixou a cabeça. Não submissão. Reconhecimento. Para mim… não. Para ela. Meu corpo travou. Isso não deveria acontecer. — Kaelith… — ela disse de novo. Mais tensa agora. — Eu sei. Mas eu não sabia o que fazer com isso. Porque lobos não reconhecem humanos assim. Não reconhecem nada assim. Exceto… Companheiros. O pensamento veio antes que eu pudesse impedir. Errado. Impossível. Perigoso. O lobo ergueu o olhar novamente. E rosnou baixo. Mas não para ela. Para mim. Como aviso. Proteção. Não ameaça. Proteção. Elizabeth notou isso também. — Ele… está te desafiando? — Não. Pausa. — Ele está te aceitando. Silêncio. Isso não deveria existir. Eu dei um passo à frente. O lobo não recuou. Mas os outros sim. Só um pouco. Respeito. Hierarquia. E então ele olhou de volta para ela. E isso foi o suficiente. A floresta inteira pareceu prender o ar. — Você está dizendo que… — Elizabeth começou. — Não diga. Mas já era tarde. Ela já tinha entendido. E eu também. Os lobos não estavam aqui por acaso. Eles estavam respondendo. A algo nela. Algo que não deveria existir. E isso… mudava tudo. Porque agora não era só sobre sobrevivência. Era sobre pertencimento. E isso era mais perigoso do que qualquer ataque. O lobo deu um último olhar. Depois recuou. E os outros o seguiram. Sumindo entre as árvores como se nunca tivessem estado ali. Silêncio voltou. Mas não normal. Nunca mais seria. Elizabeth ficou parada. — Isso foi… estranho. — Foi errado. Ela olhou para mim. — Mais do que tudo aqui? Eu não respondi. Porque sim. Muito mais. Ela respirou fundo. — O que isso significa pra mim? Pausa. Eu devia mentir. Mas não fiz. — Ainda não sei. E isso era o mais perigoso de todos. Porque quando a floresta começa a reconhecer alguém… ela nunca para. E eu ainda não sabia se isso era começo… ou sentença. O silêncio depois que os lobos partiram não trouxe alívio. Ele ficou pesado. Como se a floresta estivesse apenas segurando a respiração… esperando a próxima coisa acontecer. E eu não conseguia decidir o que era pior: quando tudo atacava ao mesmo tempo, ou quando tudo parava para observar. Kaelith ainda estava imóvel. Mas eu já tinha aprendido a perceber nele o que ninguém mais veria. A tensão. Não de medo. De cálculo. — Eles não te atacaram… — falei baixo, mais para mim do que para ele. — Não. — Mas também não me atacaram. — Não. Ele respondeu rápido demais. Isso não era bom sinal. Eu me virei levemente para ele. — Então o problema sou eu? Ele me olhou por um segundo longo. — Você sempre foi. Isso deveria ter me irritado. Mas não irritou. Porque agora… eu não tinha certeza se aquilo era insulto ou fato. Eu respirei fundo. O cheiro da floresta estava diferente. Mais antigo. Mais… atento. — O que eles viram em mim? — perguntei. Kaelith não respondeu de imediato. E quando respondeu, não foi direto. — Eles reconhecem o que pertence. Meu estômago apertou. — Eu não pertenço a isso aqui. — Ainda não. Essa palavra ficou ecoando. Ainda. Eu dei alguns passos para frente, ignorando o aviso silencioso no olhar dele. — Você fala isso como se fosse inevitável. — É. — Para de decidir coisas por mim. Ele soltou um ar leve pelo nariz. Quase um riso. Mas sem humor. — Você ainda acha que isso é sobre decisão. — Não é? Silêncio. O vento passou entre as árvores. Diferente agora. Menos agressivo. Mais… observador. — Nada aqui pergunta antes de mudar você — ele disse finalmente. Aquilo ficou mais tempo do que eu queria admitir. Eu olhei ao redor. As árvores pareciam mais próximas. Ou talvez fosse só impressão. Talvez eu estivesse começando a ver a floresta como ela realmente era. Viva. E consciente. — Eu não gosto disso — murmurei. — Ótimo. — Isso não deveria ser sua resposta padrão. — Mas é a mais honesta. Eu virei para ele. — Você nunca tenta me tranquilizar? Ele me encarou de volta. — Tranquilidade mata aqui. Silêncio. Eu não tinha como discutir isso. Porque… ele estava certo. O som de um galho quebrando me fez virar rápido. Mas não havia nada ali. Só o vazio entre as árvores. Mesmo assim… eu senti. Não perigo imediato. Mas atenção. Como olhos. Kaelith percebeu também. — Estamos sendo observados de novo. — Pelos lobos? — Não. Essa resposta veio mais baixa. Mais séria. Isso me fez ficar mais rígida. — Então por quem? Ele não respondeu. E isso foi pior do que qualquer coisa. Eu apertei a lâmina que ainda carregava. — Kaelith… — Não é hora de perguntas. — Sempre é hora de perguntas quando algo quer me matar. Ele finalmente se virou mais para mim. E agora havia algo diferente no olhar dele. Menos controle. Mais… urgência. — Não é matança — ele disse. — Então o quê? Ele hesitou. Quase imperceptível. — Convocação. Silêncio. Meu corpo inteiro ficou frio. — Convocação de quê? Ele olhou para a floresta ao redor. Como se estivesse ouvindo algo que eu não podia. — Daquilo que te reconheceu. Eu senti meu peito apertar. — Os lobos? — Não só eles. O vento parou. De novo. E dessa vez não parecia natural. Parecia… preparação. Kaelith deu um passo mais perto de mim. Não por proteção só. Mas por decisão. — Agora você precisa entender uma coisa — ele disse. — Qual? — Você não é mais invisível aqui. Eu engoli seco. — Eu nunca fui visível aqui. Ele negou com a cabeça. — Você não entende. A floresta pareceu escurecer um pouco. Ou talvez fosse só minha percepção mudando. — Eles não estão te caçando — ele continuou. — Então o quê? Silêncio. Longo demais. Pesado demais. E quando ele respondeu… não parecia uma explicação. Parecia sentença. — Estão te escolhendo. Meu corpo travou. — Isso não faz sentido. — Faz aqui. Eu dei um passo para trás. Instintivamente. — Escolhendo pra quê? Kaelith me observou como se estivesse decidindo o quanto deveria dizer. E isso me assustou mais do que qualquer criatura da floresta. — Para o que você vai se tornar. O silêncio que veio depois disso não era vazio. Era cheio demais. Eu senti algo mudar ao redor. Não visível. Mas presente. Como se a floresta inteira tivesse ouvido aquilo… e concordado. — Eu não vou me tornar nada — falei. Mas minha voz saiu menos firme do que eu queria. Kaelith deu um meio passo. — Você já está. Eu ia responder. Mas um som cortou o ar. Diferente de tudo antes. Não era uivo. Não era passo. Não era vento. Era chamado. Direto. Profundo. E vindo de todos os lados ao mesmo tempo. Kaelith reagiu na hora. — Agora corre. Eu arregalei os olhos. — O quê? — Corre. Mas não deu tempo de perguntar mais. A floresta respondeu. E começou a se mover.
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