capítulo 13—KAELITH

1131 Palavras
A floresta não dorme. Ela apenas muda de respiração. Eu senti isso antes mesmo do primeiro passo ecoar entre as árvores. Não era só presença. Era intenção. Como se algo antigo tivesse lembrado que ainda sabia meu nome. Elizabeth ainda estava perto de mim. Eu não precisava olhar para confirmar. Eu sentia o cheiro dela misturado ao ambiente — vida humana insistindo em existir onde não deveria. Frágil. Teimosa. Errada… e, por algum motivo, constante. — Você está mais quieto — ela disse. — Estou ouvindo. — O quê? Eu parei. Ela também. O vento não estava soprando. E isso já era resposta suficiente. — Eles não estão vindo de um lado só — eu disse. Ela apertou a lâmina. — Então estão cercando de novo? — Não. Silêncio. Eu virei o rosto levemente. — Estão esperando. Isso foi pior. Elizabeth engoliu seco, mas não recuou. Isso já estava virando hábito nela. Um hábito perigoso. — Esperando o quê? Eu não respondi de imediato. Porque eu sabia. E porque eu não queria dizer. O ar ficou mais pesado. As árvores pareciam mais próximas, como se a floresta estivesse inclinando a cabeça para ouvir. Então eu senti. Ela. De novo. Não perto. Não longe. Em todo lugar. Elizabeth percebeu a mudança no meu olhar. — É ela… não é? Eu assenti. Uma vez. — Ela não vai atacar direto — eu disse. — Ela nunca faz isso quando quer algo vivo. — E o que ela quer comigo? Eu olhei para ela. Por tempo demais. — Você já sabe. Ela não desviou. Mas a respiração falhou por um segundo. — Eu não sou objeto. — Aqui você é disputa. Silêncio. Ela apertou a lâmina com mais força. — Então eu mato ela. Eu quase ri. Quase. — Não. — Por quê? Eu dei um passo à frente. — Porque você não entende o que ela é. — Então me faz entender. Errado. Essa insistência dela sempre foi o erro. Eu me aproximei mais. Não o suficiente para tocar. Mas o suficiente para invadir. — Ela não é como os outros. — Eu já percebi isso. — Não. Eu interrompi. — Você percebeu o que ela deixa você perceber. Silêncio. A floresta pareceu se fechar mais um pouco. — Ela não caça — continuei. — Ela escolhe. Elizabeth ficou imóvel. — Isso não muda nada. — Muda tudo. Minha voz saiu mais baixa. Mais firme. — Porque você não está sendo perseguida. Pausa. — Está sendo avaliada. Aquilo fez algo nela. Eu vi. Nos olhos. Na respiração. No modo como o corpo dela ficou mais rígido. — E se eu falhar na avaliação? Silêncio. Honesto demais. Eu respondi mesmo assim. — Então você não sobrevive. Ela soltou o ar devagar. — Ótimo. Mas não havia sarcasmo agora. Só realidade sendo aceita à força. Um som distante cortou o ar. Não um ataque. Não ainda. Era diferente. Chamado. Organizado. Controlado demais para aquilo que costumava habitar a floresta. Eu estreitei o olhar. — Isso não é normal… Elizabeth se virou levemente. — O quê não é normal? — Isso não é dela sozinha. Eu comecei a andar. Mais rápido. — Kaelith? — Fica perto. — Isso já virou padrão. — Hoje mais ainda. O som ficou mais claro. Passos. Vários. Mas não desordenados. Sincronizados. Elizabeth acompanhou, mas a tensão dela aumentava a cada segundo. — Isso é seu povo? Eu parei por meio segundo. — Não é meu povo. — Então de quem é? Silêncio. Eu já sabia a resposta. E isso não era bom. Quando saímos da área de árvores densas, vi. Marcas. Rituais. Sinais antigos riscados no chão e nas raízes, como se alguém tivesse reescrito a floresta por cima da própria natureza. Elizabeth respirou fundo. — Isso parece… humano. — Não. — Lobos então? Eu olhei para ela. Ela entendeu antes de eu falar. O silêncio dela mudou. Mais pesado. Mais atento. — Eles chegaram aqui também… — ela murmurou. Eu assenti. — Estão aprendendo o território. E isso era o problema. Porque lobos não entram na floresta para sobreviver. Eles entram para dominar. Um estalo ecoou à direita. Depois outro à esquerda. Eu parei. Elizabeth parou junto. — Eles já estão aqui — ela disse. — Sim. — Quantos? Eu escutei. Calculei. Senti. — Muitos. Silêncio. — E a gente? Eu olhei para ela. Direto. — A gente não é o alvo principal. Aquilo não deveria aliviar. Mas ela entendeu errado. — Então quem é? Eu não respondi. Porque ela já sabia. E naquele momento… O vento voltou. Mas não era natural. Era anúncio. As árvores se moveram como se estivessem cedendo espaço. E então eles apareceram. Não completamente humanos. Não completamente animais. Algo entre os dois. Olhos mais atentos. Movimentos mais pesados. Presença territorial. Elizabeth deu um passo para trás sem perceber. Eu não me movi. — Fica atrás de mim — eu disse. — Eu não vou— — Fica. Dessa vez não foi pedido. Foi ordem. Ela hesitou. Mas ficou. Um dos lobos avançou. Lento. Calculado. Ele me reconheceu. Isso era claro. E isso não era bom. — Kaelith… — a voz veio rouca, quase humana. — Você ainda está aqui. Eu não respondi. — E trazendo… isso. O olhar dele caiu em Elizabeth. A avaliação foi imediata. Predatória. Ela apertou a lâmina. Mas não recuou. — Ela não pertence — ele disse. — Não é sua decisão. — Agora é. Silêncio. O ar ficou mais pesado. Elizabeth sussurrou atrás de mim: — Eles falam como se fossem donos disso tudo… — Porque acham que são. O lobo sorriu. Mas não era humano. — Você sabe o que vai acontecer, Kaelith. Eu sabia. Sempre soube. Mas não era isso que importava. Ele deu um passo à frente. — Entregue ela. Eu não me movi. — Não. Simples. Final. O sorriso dele sumiu. — Então você escolheu de novo. — Sim. Silêncio. E então o ar quebrou. Ele avançou. Rápido demais. Pesado demais. Instinto puro. Eu me movi junto. O impacto foi brutal. Diferente dos outros. Mais força. Mais resistência. Elizabeth tentou reagir atrás de mim, mas eu não deixei espaço. — Não interfere — eu disse. — Eu não sou inútil! — Não é sobre isso. Eu empurrei o lobo para trás. Ele recuou alguns passos, rindo baixo. — Interessante… Outro movimento atrás dele. Mais lobos. Emergindo. Cercando. Elizabeth percebeu. — Kaelith… — Eu sei. Mas agora já não era escolha simples. Era linha. E ela tinha sido cruzada. O primeiro grupo avançou. Eu não esperei. Porque agora… Não era mais sobre controle. Era sobre território. E ela… Ainda estava no centro disso. O caos começou. E eu não olhei para trás. Mas sabia. Ela não tinha saído. Ainda estava ali. E isso mudava tudo outra vez.
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