O ar parecia mais pesado do lado de dentro do meu peito do que do lado de fora.
Quando dei aquele passo à frente, não foi coragem pura. Foi algo mais estranho… como se uma parte de mim já estivesse cansada de ser empurrada. De fugir. De não entender.
Agora pelo menos eu estava olhando direto para o problema.
E ele estava olhando de volta.
A elfa não se moveu de imediato. Isso era pior do que ataque. Era avaliação. Como se eu fosse uma coisa nova que ela ainda não tinha decidido quebrar ou manter viva.
— Você não deveria estar aqui na frente — Kaelith disse atrás de mim.
Eu não virei.
— Você já falou isso várias vezes.
— E ainda continua verdadeiro.
— Talvez o problema seja esse.
Silêncio.
Eu senti ele se mexer, mas não recuar. Ele nunca recuava completamente quando eu fazia isso. Era como se ele sempre estivesse a meio passo de me puxar de volta, mesmo quando não fazia.
A elfa inclinou a cabeça, me observando.
— Você não entende o que está fazendo — ela disse.
Eu soltei uma risada curta.
— Isso está virando padrão.
Os lobos ao redor se moveram levemente. Não atacaram. Só reagiram à voz dela, como se cada palavra fosse um comando que ainda não tinha sido liberado.
Eu apertei a lâmina.
— Eu só quero respostas — falei.
A elfa sorriu.
— Respostas são perigosas.
— Eu já estou cercada de perigo.
— Não como esse.
Aquilo me irritou.
Mais do que medo.
— Então me diz logo — eu avancei mais um passo — o que eu sou pra você? Um experimento? Um erro? Um problema?
A elfa me observou como se estivesse escolhendo qual parte de mim responder.
— Você é… a consequência.
Silêncio.
Aquilo não fazia sentido.
Ou fazia sentido demais.
Eu virei levemente o rosto, procurando Kaelith sem tirar a atenção dela.
— Você sabia disso? — perguntei.
Ele demorou.
E isso já foi resposta suficiente.
— Não completamente — ele disse.
Eu ri de novo.
Mas dessa vez não teve humor nenhum.
— Claro.
A elfa deu um passo lento para o lado, como se estivesse rodeando não só a mim, mas a ideia de mim.
— Ele te encontrou cedo demais — ela disse. — Ou tarde demais… depende de quem conta a história.
— Eu não sou história.
— Ainda.
Aquilo fez algo estranho no meu estômago.
Os lobos ao redor ficaram mais atentos. Eu percebi agora que não era só cerca. Era espera coordenada. Como se todos estivessem segurando algo que poderia explodir a qualquer momento.
Kaelith deu um passo para mais perto de mim.
Dessa vez não como controle.
Como proteção.
— Isso não é sobre ela te provocar — ele disse para a elfa. — É sobre você quebrar o equilíbrio.
Ela sorriu mais uma vez.
— O equilíbrio já estava rachado.
Silêncio.
Eu olhei entre os dois.
— Alguém pode explicar isso sem falar em metáforas?
Kaelith me olhou.
E por um instante, parecia mais cansado do que perigoso.
— Lobos antigos não deveriam interagir com humanos — ele disse.
— Mas estão interagindo — eu respondi.
— Sim.
A elfa completou, suave:
— Por sua causa.
Eu senti o impacto daquilo mais do que queria admitir.
— Eu não fiz nada.
— Ainda — ela corrigiu.
Silêncio.
O vento passou… mas não trouxe alívio. Parecia que até ele estava ouvindo.
Eu dei mais um passo.
Agora estava perto o suficiente para sentir o cheiro da presença dela. Não era só perfume ou natureza. Era algo mais antigo. Mais denso.
— Então me diz direto — eu falei. — O que acontece comigo agora?
Kaelith respondeu primeiro.
— Você não sai disso como entrou.
Aquilo não era resposta.
Era aviso.
A elfa sorriu, satisfeita.
— Ela entende rápido.
Eu ignorei ela.
— Isso não é resposta.
Kaelith continuou, mais baixo:
— Você está ligada a isso agora.
— Ligada como?
Silêncio.
Eu vi o conflito nele antes dele falar.
— Como algo que eles vão tentar controlar… ou eliminar.
O ar pareceu cair um pouco.
Eu engoli seco.
— Ótimo… — murmurei. — só opções maravilhosas.
A elfa deu outro passo.
E os lobos acompanharam.
— Mas há uma terceira possibilidade — ela disse.
Eu estreitei o olhar.
— E qual é?
Ela sorriu.
Dessa vez… diferente.
Mais pessoal.
— Você se torna parte.
Silêncio.
Kaelith ficou mais rígido ao meu lado.
— Não — ele disse.
Mas a elfa não olhou para ele.
Olhou para mim.
— Você já está no meio da transição.
— Eu não estou transicionando nada.
— Está sim.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Você já começou a reagir à floresta.
Eu ia negar.
Mas parei.
Porque lembrei do que senti antes.
Não era só medo.
Não era só confusão.
Era… resposta.
A floresta respondendo a mim.
Eu dei um passo para trás sem perceber.
Kaelith percebeu imediatamente.
— Elizabeth…
— Não.
Minha voz saiu mais firme do que eu esperava.
— Não termina essa frase agora.
Silêncio.
Eu respirei fundo.
Tentando organizar tudo.
Tentando manter algo dentro de mim estável.
— Eu não estou virando nada — falei.
A elfa sorriu.
— Ainda não.
Kaelith avançou meio passo, a tensão nele subindo de novo.
— Chega.
Mas ela continuou.
— Você sente isso, não sente?
Ela estava falando comigo agora.
Direto.
— A forma como a floresta responde a você… como se te reconhecesse.
Eu não respondi.
Porque era verdade demais.
E isso era perigoso.
Kaelith virou levemente o rosto para mim.
— Elizabeth, não escuta—
— Eu estou ouvindo — eu interrompi.
Silêncio.
Eu apertei a lâmina com força.
— Eu quero saber.
Ele ficou imóvel.
A elfa sorriu como se aquilo fosse vitória.
— Então vem mais perto da verdade.
Eu dei mais um passo.
Kaelith não me segurou.
Mas eu senti.
Ele queria.
Muito.
E não fez.
Isso foi novo.
E assustador.
A elfa falou mais baixo:
— Você não é só humana aqui.
Silêncio.
— Você é um ponto de escolha.
Eu respirei fundo.
— Escolha de quê?
Ela abriu um sorriso lento.
— De quem vai dominar isso tudo.
O mundo pareceu ficar menor.
Mais concentrado.
Mais perigoso.
Kaelith finalmente falou, voz baixa e firme:
— Isso não deveria ter começado.
A elfa respondeu sem olhar para ele:
— Já começou.
E então… os lobos se moveram.
Não ataque.
Preparação.
Como se algo tivesse sido liberado.
Kaelith ficou completamente imóvel por meio segundo.
E eu entendi.
Não era mais sobre conversa.
Nunca foi.
Era sobre o que acontecia depois dela.
E agora…
eu estava no centro de novo.