capítulo 10— ELIZABETH

1128 Palavras
O silêncio que veio depois não foi alívio. Foi expectativa. Como se tudo ao redor tivesse parado só para ver qual versão de mim sobreviveria ao que vinha a seguir. Kaelith não se mexia. Mas eu sentia ele inteiro em alerta. Diferente. Mais… focado. — Ela não vai aparecer direto — ele disse baixo. — Então o quê vai aparecer? Ele olhou para a floresta como se ela já tivesse respondido. — Preparação. Eu não gostei da palavra. Nenhuma parte dela. O ar ficou mais pesado de novo. Mas não era só pressão. Era presença. Como se a floresta tivesse começado a se dobrar para dentro de si mesma. E então eu vi. Os primeiros sinais. Os corpos vazios que tinham atacado antes não estavam mais correndo. Estavam… parando. Um a um. Como se algo tivesse desligado dentro deles. — Kaelith… — minha voz saiu baixa. — Não olha para eles — ele respondeu imediatamente. — Por quê? — Porque isso é o que ela quer. Eu engoli seco, mas não consegui obedecer completamente. Porque eles não estavam apenas parando. Estavam mudando. O jeito como se moviam… se reorganizava. Como peças sendo reposicionadas sem vontade própria. Errado. Completamente errado. — Isso não é controle comum — murmurei. Kaelith não respondeu. Mas o silêncio dele foi resposta suficiente. O chão vibrou levemente. Não como terremoto. Mas como batimento. E isso fez meu estômago apertar. — Ela está aqui dentro da floresta mesmo? — perguntei. — Ela nunca sai daqui — ele disse. — Isso não faz sentido… — Faz para ela. Mais um som. Dessa vez mais próximo. Mas não vindo dos corpos. Vindo de cima. Eu levantei o olhar instintivamente. E vi. As árvores… estavam se curvando. Não quebrando. Curvando. Como se algo estivesse passando entre elas sem tocar o chão. Errado demais para ser natural. Kaelith se moveu um passo à frente. E dessa vez… eu senti algo diferente nele. Não medo. Não hesitação. Mas contenção. Como se ele estivesse segurando algo dentro de si com força. — Ela está testando sua reação emocional — ele disse. — Minha o quê? — Medo. Raiva. Instinto. Eu ri sem humor. — Que simpático. Ele não respondeu. Mas o ar mudou de novo. E então ela apareceu. Não onde eu esperava. Nunca onde eu esperava. Ela estava atrás de nós. Simples assim. Como se sempre tivesse estado ali. A voz veio suave. Quase divertida. — Você está aprendendo rápido demais para alguém que deveria estar quebrando. Eu virei rápido. Kaelith já estava entre nós. Claro. Sempre entre nós. A esposa dele estava diferente dessa vez. Mais… próxima. Não em distância. Em presença. Como se o espaço ao redor dela tivesse sido tomado. — Você está interferindo demais — Kaelith disse. Ela inclinou a cabeça. — Eu estou apenas observando. — Com seus brinquedos? Ela sorriu. — Você chama assim porque não entende evolução. Meu estômago apertou. — Esses são… humanos? — perguntei sem querer. Os olhos dela foram até mim. Diretos. Sem piscar. — Foram. Silêncio. Aquilo não deveria ser dito assim. Tão simples. Tão leve. Kaelith não olhou para mim. Mas senti ele reagir mesmo assim. — Não mexa com ela — ele disse baixo. A elfa sorriu mais. — Ou o quê? Silêncio. Tensão. Quase física. E então ela estalou os dedos. O chão atrás dela se abriu em movimento. E eles vieram de novo. Mas agora… Não eram caóticos. Não eram famintos. Eram guiados. Coordenados. E todos… olhando para mim. Meu corpo congelou por meio segundo. Só meio. Mas Kaelith percebeu. Sempre percebe. — Não trava — ele disse, firme. Eu respirei fundo. E levantei a lâmina. Mas algo dentro de mim já tinha mudado. Porque agora eu via. Não era só ataque. Era teste. Eu era o teste. Um deles veio. Eu desviei. Mais rápido. Outro. Eu cortei. Menos hesitação. Outro. Eu senti o impacto, mas não parei. Kaelith estava ao meu lado em alguns momentos. Atrás em outros. Sempre mudando. Sempre protegendo o espaço sem me sufocar. — Isso mesmo — ele murmurou. Eu não sabia se era para mim ou para o caos. Mas eu continuei. Até perceber algo pior. Eles não estavam tentando me matar imediatamente. Estavam me forçando a reagir. A adaptar. A aprender. — Kaelith… — eu disse ofegante — isso não é luta. — Não. — Então o quê é isso? Ele desviou de um ataque e respondeu sem olhar: — Educação dela. Aquilo fez meu sangue gelar. Educação. Eu era o que estava sendo moldado. Mais um veio. Mais rápido. Eu quase não consegui acompanhar. Quase. Mas consegui. E isso foi novo. Eu senti. A diferença. A elfa observava tudo. Sem piscar. Sem emoção aparente. Só interesse. — Ela está ficando útil — ela comentou. Kaelith virou o rosto de imediato. — Pare. — Ou o quê, Kaelith? Ela sorriu. — Você vai me impedir na frente dela? Silêncio. E isso… pesou. Eu senti. Algo entre eles que eu não entendia completamente. Mas entendia o suficiente para saber que não era simples. Outro ataque veio. Mais forte. Eu bloqueei. Mas o impacto me empurrou para trás. Kaelith segurou meu braço antes que eu caísse. Firme. Rápido. — Fica em pé — ele disse baixo. Eu respirei. — Eu estou em pé! — Fica mais em pé. Eu quase ri. Quase. Mas não tive tempo. Porque os corpos começaram a recuar. Todos ao mesmo tempo. Pararam. E olharam. Como se tivessem recebido ordem. E então silêncio. Total. Kaelith ficou imóvel. A elfa também. E isso… Isso foi o pior tipo de silêncio. — Chega por hoje — ela disse finalmente. Como se estivesse encerrando um experimento. Eu apertei a lâmina. — Isso foi… teste? — perguntei. Ela me olhou de novo. — Foi começo. Kaelith não respondeu. Mas eu vi. Ele não gostou. Em nada. Ela começou a desaparecer como antes. Mas antes disso… olhou diretamente para mim. — Você ainda não entendeu o que você é aqui. Silêncio. — Mas ele entende. E então sumiu. De novo. Como se nunca tivesse existido. O ar ficou pesado. Mas agora… vazio também. Eu baixei a lâmina devagar. O corpo tremendo levemente. — Eu fui o teste… — murmurei. Kaelith não respondeu de imediato. Ele apenas ficou ali. Ao meu lado. Como se ainda estivesse esperando o próximo ataque. E então disse: — Você passou. Silêncio. Eu olhei para ele. — Isso é bom? Ele finalmente virou para mim. E dessa vez… não havia resposta fácil no olhar dele. — Depende do que ela quer de você. E aquilo… foi a primeira vez que eu entendi de verdade. Não era sobre sobreviver. Era sobre o que eu estava virando enquanto sobrevivia. E ninguém ali parecia disposto a me deixar escolher isso.
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