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1431 Palavras
Eu não conseguia me mexer. Meu corpo inteiro parecia ter esquecido como obedecer aos meus comandos. Do outro lado do vidro, ele permanecia imóvel. Apenas me observava. Não olhava para os cientistas. Não olhava para os guardas que corriam pelo corredor. Não parecia interessado nas luzes vermelhas que piscavam nem no alarme ensurdecedor que fazia meus ouvidos doerem. Os olhos dourados estavam presos em mim. E aquilo era muito pior. — Kaila! A doutora Helena puxou meu braço. — Precisamos ir. Eu não respondi. Continuei olhando para ele. Havia alguma coisa naquele olhar. Uma intensidade que eu não conseguia explicar. Não era simplesmente a curiosidade de um animal. Parecia reconhecimento. Como se ele soubesse quem eu era. Como se já tivesse decidido alguma coisa sobre mim. — Kaila, agora! Finalmente consegui reagir. Dei um passo para trás. Depois outro. A doutora praticamente me arrastou pelo corredor. — O que ele quer? — Ainda não sabemos. — Ele tentou entrar aqui! — Ele nunca fez isso antes. — Então por que está fazendo agora?! Ela não respondeu. Entramos em uma sala e dois homens fecharam a porta atrás de nós. Uma trava automática foi acionada. Eu encostei as costas na parede, tentando recuperar o ar. — Vocês precisam me explicar o que está acontecendo. Ninguém respondeu. — Agora! A doutora respirou fundo. — A criatura que você viu pertence a uma espécie que estamos estudando há aproximadamente seis anos. — Vocês sabem o que ele é? — Sabemos algumas coisas. — Ele é inteligente? — Sim. A resposta veio imediatamente. — Ele entende linguagem? — Algumas palavras. — Ele entende humanos? — Mais do que gostaríamos. Senti um arrepio. — Ele é perigoso? O silêncio respondeu antes dela. — Sim. Olhei para a porta. — Então por que vocês me trouxeram para cá? — Porque você foi selecionada para observar o comportamento dessas espécies em um ambiente controlado. — Eu não aceitei isso. — Eu sei. Aquelas duas palavras me atingiram mais do que qualquer explicação. — Então vocês me sequestraram. Ela abaixou os olhos. Não negou. Senti as lágrimas voltarem. — Eu quero ir embora. — Não podemos permitir. — Vocês não podem me manter presa aqui! — Se você sair da instalação, pode morrer. — Prefiro morrer tentando voltar para casa! Um estrondo fez a sala tremer. Todos ficaram imóveis. BUM! Outro. O teto vibrou. Uma lâmpada caiu. Um dos homens correu até o monitor. — Ele chegou ao setor externo. — Impossível — disse Helena. — As barreiras estão segurando. — Por quanto tempo? Ele não respondeu. Comecei a tremer. — Vocês disseram que ele era perigoso. Helena me encarou. — É por isso que você precisa ficar aqui. — Ele quer entrar. — Sim. — Por minha causa? Ela ficou em silêncio. Meu coração afundou. — Por minha causa... Antes que alguém respondesse, todas as telas da sala se acenderam. As câmeras mostravam diferentes partes da instalação. Corredores. Portões. Áreas externas. Floresta. E então uma das imagens mostrou ele. Kael. Eu ainda não sabia seu nome naquele momento. Mas, dias depois, descobriria que era assim que os cientistas o chamavam. Ele caminhava lentamente entre as árvores. Não corria. Não atacava. Apenas avançava. Como se soubesse exatamente para onde estava indo. — Ele está seguindo alguma coisa — murmurou um dos pesquisadores. — O quê? — perguntei. Ele ampliou a imagem. A criatura parou. Levantou o rosto. Respirou profundamente. Depois virou na direção da instalação. — Um cheiro — disse o homem. Meu estômago se contraiu. — Que cheiro? Ele olhou para mim. Não respondeu. Helena respondeu por ele. — O seu. Meu coração disparou. — O quê? — Ele está seguindo o seu cheiro. Eu balancei a cabeça. — Isso não faz sentido. — Para nós, não. Ela voltou os olhos para a tela. — Mas para a espécie dele... Outro impacto. As paredes tremeram. Dessa vez, os alarmes aumentaram de intensidade. — A barreira três caiu! — Preparem o sedativo! — Não! Helena levantou a voz. — Não usem sedativo. — Doutora, se ele entrar— — Se vocês o sedarem agora, não sabemos como ele vai reagir quando acordar. — E qual é a sua sugestão? Ela olhou para mim. Meu coração afundou. — Transferi-la. — Para onde? — Para o setor subterrâneo. — Ele vai sentir o cheiro dela. Helena ficou em silêncio. Eu ouvi aquilo. — Então não adianta. Ninguém respondeu. — Não adianta, não é? Minha voz saiu pequena. — Vocês podem me esconder, podem me trancar, podem colocar dez portas entre nós... ele ainda vai me encontrar. Helena se aproximou. — É possível. — Então por que vocês continuam tentando? Ela me encarou por alguns segundos. — Porque não sabemos por que ele está fazendo isso. — Talvez ele queira me m***r. — Se quisesse, provavelmente já teria feito. Aquilo deveria me tranquilizar. Não tranquilizou. Porque significava que havia uma razão. E eu não sabia qual. ⸻ Fui levada para uma área subterrânea. O lugar era frio. Cinza. Sem janelas. Havia uma cama, uma pequena mesa e uma câmera no canto do teto. Uma prisão. Foi assim que pensei. Uma prisão bonita o suficiente para fingirem que não era uma. Quando a porta fechou, fiquei sozinha. Sentei na cama. Passei as mãos pelo rosto. Eu queria minha mãe. Meu quarto. Minha cama. Minha vida. Tudo parecia tão distante. Peguei o cobertor e me encolhi. Foi quando ouvi um som. Muito baixo. Quase imperceptível. Toc. Levantei a cabeça. Silêncio. Toc. Olhei para a parede. Meu coração começou a bater mais rápido. Talvez fosse algum equipamento. Algum cano. Alguma máquina. Então veio novamente. Toc. Dessa vez, mais forte. Levantei. Caminhei até a parede. Coloquei a mão sobre ela. Nada. Afastei-me. E então ouvi. Um som grave. Distante. Quase como um chamado. Fechei os olhos. Era ele. Não sabia como. Não sabia por quê. Mas sabia. Ele estava do outro lado da instalação. Procurando por mim. ⸻ As horas passaram. Ninguém entrou. Até que a porta se abriu. Dois guardas apareceram. — Levante. — Para onde vocês vão me levar? — Exame. — Não. — Não é uma escolha. Um deles segurou meu braço. Eu me afastei. — Não encosta em mim. Ele tentou novamente. Foi quando um barulho enorme ecoou pelo corredor. Todos congelaram. O guarda soltou meu braço. — O que foi isso? As luzes apagaram. Por alguns segundos, tudo ficou completamente escuro. Então... Uma luz de emergência vermelha acendeu. O guarda olhou para o rádio. — Setor subterrâneo comprometido. Meu coração parou. — Como assim? O rádio chiou. Uma voz desesperada surgiu do outro lado. — Ele entrou. O guarda empalideceu. — Repita. — Ele entrou no setor subterrâneo. Olhei para a porta. — Não... O som de passos surgiu no corredor. Lentos. Pesados. Tum. Tum. Tum. Cada passo parecia atravessar meu peito. Os guardas sacaram armas. Eu recuei. — Fique atrás de nós! O som ficou mais próximo. Tum. Tum. Então parou. Do outro lado da porta. Ninguém respirava. Um dos guardas levantou a arma. A maçaneta começou a se mover. Devagar. Muito devagar. Meu coração parecia querer sair do peito. A porta abriu alguns centímetros. Uma mão apareceu. Grande. Com garras escuras. O guarda apontou a arma. — Não se mova. A porta abriu mais. E ele apareceu. Pela primeira vez, eu o vi de perto. De verdade. Era ainda maior do que parecia nas câmeras. Muito maior. Tinha ombros largos, músculos cobertos por marcas naturais e olhos dourados que brilhavam sob a luz vermelha. Mas não olhou para os guardas. Olhou para mim. Meu corpo inteiro ficou imóvel. Ele deu um passo para dentro. O guarda disparou o sedativo. A agulha atingiu o ombro dele. Kael sequer pareceu sentir. Ele arrancou o dardo. Olhou para o pequeno objeto na própria mão. Depois para o guarda. O homem começou a recuar. Kael soltou um rosnado baixo. Mas então voltou a olhar para mim. Ele deu outro passo. Eu recuei. Mais um. Até minhas costas encontrarem a parede. Ele parou. Não avançou. Apenas me observou. Respirou profundamente. Como se estivesse tentando memorizar meu cheiro. Eu estava tremendo tanto que meus dentes batiam. — Não chega perto... Ele inclinou levemente a cabeça. Como se tivesse entendido. E então aconteceu algo que me assustou ainda mais. Ele falou. A voz era rouca. Baixa. Quase humana. Uma única palavra. — Minha. Meu coração parou. Os guardas levantaram novamente as armas. E eu finalmente compreendi. Aquela criatura não havia invadido o laboratório para me atacar. Ela havia atravessado todas aquelas barreiras... para chegar até mim.
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