Capítulo 1 - Ayla

2322 Palavras
Eu diria que tinha me desacostumado a adolescentes com hormônios a flor da pele, mesmo sendo uma deles, mas eles parecem tão diferentes, tão distantes. O sol já ameaçava brilhar sem culpa lá no alto, as garotas piscavam para os garotos e riam de forma exagerada, os garotos olhavam discretamente para a b***a delas, sorrindo maliciosamente enquanto discutiam sobre qual delas era mais gostosa. E a maioria se virava para me ver passar, uma intrusa no território hostil deles. Minhas mãos tremiam quando comecei a seguir sozinha, puxei mais a touca do moletom e enfiei as mãos no bolso, quando estava subindo as escadas, puxaram minha mão. — Senhorita Clark? — Perguntou uma moça jovem. Assenti, ela sorriu. — Sou a secretária da escola, vou lhe apresentar o Colégio. — Ela seguiu pelos corredores, me apresentando o básico do local. Parou no meio do corredor, apontando para uma sala. — Ali será onde vai ocorrer sua primeira aula. — Ela me entregou um papel. — Esse é seu horário, os números da sala estão logo ao lado, tenho certeza que irá achar. — Piscou para mim. — Tome cuidado com os garotos e seja bem-vinda a Toerat Scholars. É um prazer ter uma aluna de sua patente aqui. — Ela acenou e saiu, engoli em seco me encaminhando para minha sala. Eu já iria entrar na sala quando um braço me impediu, levei lentamente os olhos até os dele. O garoto sorriu, exibindo as covinhas, passou a língua nos lábios. — Vem sempre aqui? — Segurei a risada. Ele soprou os cabelos castanhos claros. — Aqui é a escola. — Mas essa não é sua sala. — Agora é. — Ele estalou a língua, sorrindo em entendimento. Os olhos castanhos escuros brilharam. — Sou Nathan. — Não ligo. Saí da frente. — Seu sorriso se transformou em um de deboche. — Você, por acaso, sabe quem sou eu? — Eu não ligo, tem uma pequena diferença. — Ele riu. Se aproximando. — E qual é? — Me deixa em paz. — O empurrei para passar e ele riu. — Sou mais forte aqui. — Ele me empurrou na parede, pressando seu corpo no meu, deixando meu joelho em um lugar perigoso. Meu capuz caiu. — Saí fora garoto! — Tentei o empurrar e ele segurou meus pulsos, todos olhavam aquilo e ignoravam, qual era o problema dessa cidade? Ele passou as mãos pelo meu cabelo. — Você está me irritando. — E o que você vai fazer, mocinha? — Levantei com força meu joelho, ele gemeu de dor e soltou o aperto, o empurrei e lhe dei um soco, ele cambaleou para trás, a mão saindo das partes baixas para o nariz, que começou a sangrar, seu olhar se transformou em pura ira. — Será que temos algum problema aqui? — Perguntou um senhor, vi que todo o corredor tinha se virado para nossa briga. — Merda. — Xinguei baixo. — Foi ela que começou. — Falou Nathan. Segurei a vontade de voltar e espanca-lo. — Ele estava abusando de mim no corredor! — Você, já para a sala da diretora, me espere lá. — Apontou para mim. — E você, comigo para a enfermaria. Todos vocês, para a sala, acabou o show. — Não sei onde é a diretoria. — Falei, ele estalou a língua, apontando para um garoto com óculos de garrafa. — Leve-a até a diretoria. — O garoto assentiu. — Nos vemos mais tarde, tomatinho. — Falou Nathan, vermelho de raiva, revirei os olhos, seguindo o garoto. — Sou Ayla, é um prazer. — Falei para o garoto, ele levou a mão ao óculos, ajeitando-o. —Thomas, é um prazer, exceto pelo seu começo....preocupante. — A culpa não foi minha. — Ele é filho de um dos maiores contribuidores da escola. Além de que seu pai é do governo. — E quem liga? — Você deveria ligar se quer ter uma vida aqui. — Já estou pensando no meu suicídio então. — Thomas riu, ajeitando novamente o óculos. Ele tinha cabelos claros, quase louros, olhos azuis escuros, era um pouco mais alto que eu. — Está entregue. Boa sorte. — Thomas me encarou por alguns segundos, sorri para ele, ele ficou vermelho e eu ri. — Até mais? — Até, Ayla. — Ele foi embora, andando todo pomposo. Thomas parecia ser o nerd do Colégio, julgaria isso pelo seu jeito arrogante e confiante, mas pelo seu porte atlético, ele não poderia ser só isso, marquei para descobrir mais sobre ele, e porque ele irradiar magia, de um jeito que o fazia parecer totalmente inexperiente e sem ter consciência do poder que tinha, mas parecia algo totalmente proposital, seja lá quem for ele, sabia a magia que estava irradiando, não ignorei a possibilidade dele ser um bruxo, ou até mesmo um híbrido. Sentei-me em uma cadeira azul quando entrei na secretaria, pouco tempo depois, o mesmo senhor do corredor chegou, falando algo para a secretária que me apresentou o colégio. Ela me olhou e sussurrou um "Eu avisei", sorri me desculpando para ela, ela deu de ombros. Fiquei olhando para o nada por um bom tempo. Quando eu era criança, meus pais viviam sendo chamados na escola por causa do Rafa, eu ficava esperando do outro lado, brincando na sala de espera, enquanto Théo lia seu livro, escondendo sua irritação por ter que ficar na escola por causa dele. Minha mãe saiu vermelha da sala, meu pai com a cara fechada e eu corri para os braços de Rafa, ele me segurou, me colocando por sobre seus ombros. Eu poderia ter eternizado aquele momento. A cena de uma família comum, apenas com a preocupação de seu filho mais velho ser um bagunceiro. Mas a realidade me socou com força. — Senhorita Clark! — Me chamou, era outra secretária da escola. Uma velhinha rechonchuda, de cabelos grisalhos. — Ah! Sim? desculpa... — Resmunguei incerta do que dizer. — A diretora quer ver você, desejo boa sorte, garota! — Levantei e entrei, a diretora me encarou. Seus olhos eram verdes, tinha rugas em torno dos olhos e da boca fina. Os cabelos pretos já se tornavam grisalhos. Ela tinha uma pequena concentração de magia, tão pequena que quase não podia ser notada. Talvez ela fosse realmente humana, ou estava a escondendo, se estava, fazia um ótimo trabalho. Talvez eu só esteja paranóica. — Senhorita Clark?! — Sim? — Você ouviu o que eu disse? — Perdão, estava distraída. — Ela resmungou por horas como sobre era errado socar um garoto, ainda mais para uma dama e uma aluna nova, mas em seus olhos parecia que tinha uma pitada de satisfação e orgulho. Ganhei uma advertência, que maravilhoso! Sorri com satisfação ao ver o menino, ao qual descobri se chamar: Nathan Thompson, o grande cretino. Seu nariz estava inchado e ele estava com um algodão em cada narina e vermelho de raiva. Entrei na minha sala e ele logo depois, todos nos encaravam, acho que deveria ter me segurado mais, até o intervalo pelo menos, mas não! A esquentadinha aqui socou ele na primeira aula! Qual é a droga do meu problema? Ah, mas ele mereceu! Mereceu muito! Pelo menos estou livre desse babaca, mas com certeza não vou fazer amizade com ninguém, o que em parte, é bom. O mesmo senhor do corredor estava dando nossa aula de história, Professor Carlos, ele me olhou com certo ódio, imaginei que cara ele faria quando eu tirasse cem na matéria dele. Sentei-me na última carteira, ao lado de uma menina de cabelos pretos lisos e olhos verdes, mais bonitos que os do meu irmão! Ela sorriu para mim, não um sorriso qualquer, um sorriso de entendimento, maldade. — Finalmente uma das minhas! Achei que eu iria ser a única a bater naquele metido! — Espera, você também bateu nele? — Perguntei incrédula, ela parecia ser uma daquelas garotas que não machucavam uma mosca e gritavam por qualquer coisa. — Sim, no meu primeiro dia, assim como você. Dei um soco no olho dele. — Ela falava como se não fosse nada demais. — Mas e ai? Como foi sua maravilhosa conversa com a diretora? — Segundo ela, não é adequado uma dama bater num homem, foi a única parte que ouvi. Mas pareceu que ela ficou orgulhosa! — É a cara da minha avó fazer isso. — Disse ela balançando a cabeça e dando um sorriso sapeca. — Avó? — Sim, a diretora é minha avó, tenho que aguentar ela em casa e na escola. — Resmunga indignada. — Fiquem quietas ai atrás. Senhorita Clark quer visitar a diretora novamente? — Não, professor, desculpe! — Murmurei. — Sou Ellen. — Sussurrou a garota, fingindo olhar para a explicação do professor. — Ayla. — Ayla? Que nome diferente...— Ela sorriu de lado. E eu concordei, acho que nomes dados por bruxas realmente são diferentes. O sinal finalmente tocou, Ellen se levantou e esperou que eu a acompanhasse para fora da sala. Caminhamos juntos até o refeitório, ela comprou uma bebida e eu também, nos sentamos em uma mesa afastada. Ela apresentou o básico da escola para mim. Nathan Thompson era um dos garotos populares, metido, ex-namorado da líder de torcida da escola, Amanda. Ela me apresentou os principais grupos do colégio, os excluídos, os nerds, os jogadores, e os populares. Thomas estava sentado em uma mesa, lendo um livro qualquer, seu olhar cruzou momentaneamente com o meu, ele abaixou a cabeça envergonhado. — E ele? — Que rápida! Já vai começar a passar o rodo? — Ri. — Aquele é... Thomas Houver, nerd, gato, jogador, infelizmente, ele é assexual e muito fechado, incluindo ser ignorante, talvez você não consiga conversar com ele por mais de um segundo sem se sentir uma completa i****a. — Assexual? Ele só parece ser timido. — Ele não é tímido! — Protestou, bebeu um gole de seu refrigerante, e continuou. — Thomas é mais cara de p*u que o Nathan, mas é difícil ele gostar de alguma pessoa. Ano passado ele disse que era assexuado, foi um choque para metade da escola, metade das garotas tentaram pegar ele para mostrar que era só charme, ele poderia ter levado todas pra cama, mas ele não levou. Mas, sério, ele é um pedaço de m*l caminho. Por sorte consegui passar o resto do dia sem nenhum problema, graças a Ellen e seu super bom senso para me afastar dos adolescentes malditos. Ellen era uma garota incrível, por algum motivo eu me abri para ela e confiei logo de cara, o que é estranho, devido ao meu passado, mas algo me dizia que ela seria uma pessoa importante para mim, ou talvez, eu só torcesse para que fosse e não desistisse de mim no final. Caminhávamos juntas até o estacionamento, longe já avistava minha irmã sendo acompanhada de um grupo de garotas, enquanto conversavam histericamente sobre algo. — O que vai fazer o resto da tarde? Não quer uma carona? — Ah, não vou fazer nada. Tenho que buscar meu irmão mais novo. E tenho minha lata velha. — Oh! Vamos lá pra casa! — Você ouviu o que eu disse? — Deixa seu irmão na sua casa e bora pra minha. — Ayla? — Thomas sorriu para mim quando chegou. — Ellen. — E aí. — Pelos deuses, que milagre é esse? — Minha irmã chegou, batendo palmas, invadindo nossa rodinha. — Vocês são reais? — Ellen riu. — Acho melhor a gente conversar amanhã. — Murmurou ele, assenti, ele se aproximou, me dando um beijo molhado no canto da boca. — Até mais. — Minha irmã ficou boquiaberta, e nós três ficamos em silêncio vendo ele se afastar. Suspeito. Extremamente suspeito. — Não posso deixar eles sozinhos em casa. — Respondi empurrando minha irmã em direção ao carro. Ignorando o efeito que Thomas causará a minha ansiedade e paranóia. — Nenhum de seus pais vão estar em casa agora? — Somos órfãos. — Ah... — Ela mordeu o lábio inferior — Então leva eles junto, tenho certeza que meu irmão vai adorar brincar com ele e sua irmã fica com a gente. — Foi m*l, mas não dá, talvez na próxima vez! — Disse parando em frente ao meu carro. Mesmo já estando fora de moda, ele ainda era lindo. — Se eu não estivesse ocupada hoje, obrigaria você a ir. — Ela olhava com certa preocupação para o lado contrário, segui seu olhar encontrando um homem de olhos verdes, cabelos negros e muito bonito, mas senti um cheiro diferente imediatamente: Lobo. Ele irradiava isso por todos os poros. Um lobo puro, talvez um alfa. Tive quase a certeza de que ele me atacaria ali, para marcar seu território, engoli em seco. Sentindo meu lado lobo se agitar, quase tive a certeza dele rosnar. — Seu namorado? — Perguntei tentando disfarçar o desgosto em minha voz. Mas parece que ela notou, me olhou com sua sobrancelha erguida. — Não, meu irmão. Algum problema? — Eu estava tão confusa no meio desses adolescentes que não percebi que minha nova amiga também irradiava o mesmo cheiro, uma loba, uma loba pura. — Você está bem? Está um pouco pálida. — Murmurou me pegando pelos ombros. Tentei ignorar que com aquelas mesmas mãos ela poderia cortar meu pescoço, arrancar cada pedaço da minha pele macia, enquanto se deliciava com o meu sangue adocicado de híbrida. — S...sim, estou. Acho que já vou indo. Nos vemos amanhã. — Uma tola, uma tola i****a. Como pode confiar tão fácil nela? Eu me xingava mentalmente. Liguei o carro, não ouvi os resmungos de felicidade de minha irmã, perguntando quem era o garoto que quase me dera um selinho, estava apenas preocupada em sair dali o mais rápido possível, sai do estacionamento, mas ainda sentia o olhar penetrante do homem sobre mim. Me queimando a pele, me deixando tonta. Me fazendo querer ir atrás dele. Merda.
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