Eu sabia que não era uma boa ideia deixar meus irmãos sozinhos em casa, nem sair sozinha pela floresta. Mas me sentiria péssima se não seguisse o meu instinto, eu precisava sair daquela casa hoje, então pedi aos deuses que meus irmãos ficassem bem, eles não fizeram perguntas como sempre, eles nunca me questionavam quando saía à noite, talvez eles pensassem que eu iria matar alguém novamente, talvez eu fosse, me peguei me perguntando novamente, por que meus irmãos ainda me olhavam na manhã seguinte. Puxei mais o capuz, sentindo a adaga me queimar na cintura, respirei fundo e entrei a floresta. Apertando com força o cabo do arco.
A lua já estava no céu, iluminando a floresta em meio a toda escuridão. A cena de um filme de terror começava a se desenrolar, mas tive a sensação de que eu era o assassino vagando pela floresta escura. Quando eu era criança, minha mãe me proibia de sair de casa depois de escurecer, nunca soube o por que, sempre pensei que minha família fosse apenas humanos normais, mas não eram. Nas luas cheias, ficávamos apenas eu e minha mãe em casa, ela me abraçava e eu ouvia atentamente os uivos lá fora, ela dizia que eles tinham ido fazer coisas de homem, como acampar, essa era também uma das melhores noites para caçar, que era o principal objetivo deles. Eles voltavam pela manhã, eu ficava sentada na escada, encolhida, torcendo para que eles não me vissem e eu ficava ali, vendo meus irmãos, meu pai, meu avô, com os olhos incandescentes, quando eles subiam, eu já estava no meu quarto, fingindo estar dormindo. Eu sempre fui atenta aos detalhes, mas qualquer um perceberia que eles nunca voltavam com algum animal morto, e se voltassem, eles tinham sido mortos por animais.
No meio do caminho, o mundo girou e parou, eu senti que estava ficando sem tempo, então eu corri, corri como se minha vida dependesse disso, senti meus pulmões rasgando, implorando por ar, mas continuei correndo. Meu corpo parou e eu respirei fundo, olhei em volta. A floresta ficou mórbida e solitária, fechei os olhos, normalizando a respiração, tentando me concentrar nas coisas ao meu redor.
E o cheiro de sangue podre me atingiu como uma bomba.
Andei por entre as árvores, galhos quebravam sobre meus pés e corujas gritavam, me alertando para voltar. Eu não voltei, eu gostava de ir em direção ao perigo, sempre gostei, me fazia não parecer uma covarde na maioria do tempo. Um rastro de sangue surgiu nos meus pés, comecei a andar mais lentamente, tentando fazer menos barulho, quando parei, vi um garoto. Ele estava sentando no chão e encostado a uma árvore, três corpos estavam perto dele, meio humanos, estavam totalmente dilacerados, marcas de garras de lobos, tinha sido uma árdua briga, um alfa esteve aqui e não era esse garoto.
— Fuja. — Foi o que ele disse antes de um lobo n***o aparecer, minhas mãos pegaram minha adaga na cintura. Observei novamente a criatura, era parecido com um lobo, mas não era um. Andava apenas nas patas de trás, parecia com sede de sangue como vampiro, com vontade de dilacerar carne como lobos. Um híbrido, talvez?
Ele rosnou para mim e investiu, eu desviei e cravei a adaga em seu peito, eu sabia que isso não era o suficiente, puxei a adaga e o chutei para longe. Ele rosnou, puxei uma flecha da aljava e mirei, atirei em seu olho, mas ele não parou. Ele tinha mais força que um lobo, mas já estava muito machucado, dava para ver no modo como mancava, agora ele só estava desesperado por comida, para sua mínima chance de sobrevivência, talvez fosse seu resquício de humano gritando para sobreviver, mas ele já não era a muito tempo. Juntei meu fôlego e ele atacou, seus dentes rasgaram meu braço e consegui cravar a adaga na sua cabeça, ele caiu, resmungando de dor. Me abaixei e para garantir, cravei uma flecha também em seu coração.
— Você é caça...dora? — Olhei para o rapaz, percebi agora que ele era um lobo. Ele era moreno, e tinha olhos verdes, típicos de um lobo.
— Não. — Encarei seus machucados, um corte na testa, as garras perfuraram seu estômago e ele tinha uma mordida no braço, quase no ombro. O pé direito dele estava quebrado. — Porque não está se curando?
— Fui mor...dido.
— E desde quando mordidas de híbridos não se curam? — Observei meu braço, concentrando um pouco de magia lá, para se curar. Estava mais lento que o normal, mas logo estaria curado.
— Não são híbridos quais...quer. — Ele gemeu de dor, colocando a mão no estômago.
— Parecem. — Olhei para ele, ele já tinha desistido, estava apenas esperando a morte. — Por que seus colegas não o pouparam da dor? — Ele riu, tossindo sangue.
— Só porque somos lo...bos não somos mons....tros sem cora...ção.
— A maioria é. — Me agachei em sua frente.
— Você é u..ma híbrida? — Não respondi, apenas encarei os olhos quase mortos do garoto. — Como está se curan...do? Isso era... para ma..tar você. — O céu rugiu, a primeira gota caiu, depois outra, e outra. Fazendo o túmulo do jovem rapaz ali.
— Merda de tempo instável de Toerat. — Xinguei. Me levantei para ir embora, coloquei o arco no ombro e me virei para voltar. Mas então o garoto tossiu e eu estanquei no lugar. — Merda, por que você tem que ser assim? — Me xinguei e me virei para ele. Ele me encarou curioso, antes de gritar, veias negras surgiram no seu pescoço, saindo do machucado. Estalei a língua. Qual seria a probabilidade dele sobreviver, se eu o transformasse em um híbrido? Ou talvez dar meu sangue a ele faça o veneno se esvair, veneno contra veneno.
— Vá...embora. — Mandou, sua voz ficou monstruosa e eu xinguei alto quando meu corpo se moveu por conta própria, enfiando meu braço na sua boca. Ele me mordeu com força e assim que ele tomou uma boa quantidade do meu sangue, puxei meu braço.
— Meu sangue vai eliminar o veneno da mordida do híbrido, mas... — Engoli em seco. — Você vai ter que sobreviver a ele. — Ele me olhou com desespero, depois gritou, seus olhos ficaram laranjas. Ele se contorceu de dor, gritou, se esperniou e me olhou com raiva. — Ainda vou estar aqui, quando passar. — Me sentei a sua frente, esperando o efeito passar. Ergui meu rosto para o céu, meu capuz caiu e deixei a água da chuva molhar meu rosto. Soltei um suspiro de alívio de ainda poder sentir a vida batendo no meu rosto.
Em dias chuvosos, Théo costumava me levar para perto da cachoeira, nos escondiamos em uma caverna ali, ele sorria e jogávamos xadrez. Nunca gostei do jogo, sempre achei ele muito chato, também achava desnecessário sairmos na chuva, mesmo assim, Théo insistia, ele sempre, sempre estava esperando por alguma coisa, ficava olhando em volta a todo momento, nunca aconteceu nada, mesmo assim, ele esperava.
Meu coração parou por um segundo e eu olhei novamente o garoto, dessa vez, ele me encarava com medo.
— Quem é você? — Perguntou, puxei novamente meu capuz, me levantei.
— Alguém que você nunca viu. Ok? — Minha voz soou mais ameaçadora do que eu planejei, mas quando ele assentiu, vi que foi melhor assim. Me virei novamente e ele falou.
— Obrigado. — Segurei a risada e me virei para ele.
— Pelo o que?
— Por ter salvo a minha vida.
— Não acho que estará tão grato pela manhã. — Então eu me virei e voltei a andar.
— O que quer dizer? Ei! O que quis dizer com isso?! Quem é você?! — Eu não respondi, apenas pedi aos deuses para nunca mais vê-lo.
Naquela noite eu sentei na caverna próxima a cachoeira e entendi porque Théo vinha ali. Fauna e Flora, se banhavam no lago, sorrindo descontraidamente uma para a outra, irradiando vida por seus poros. Me encolhi mais, apertando meus joelhos contra o peito.
A quanto tempo eu não via a vida tão de perto?
A quanto tempo eu não vivia?