Capítulo 1

1201 Palavras
Capítulo 1 ARCANJO NARRANDO Eu virei dono do morro porque era isso ou morrer tentando. Nunca teve meio-termo pra mim. Aqui em cima, ou você manda ou você obedece. E eu nunca nasci pra abaixar a cabeça pra ninguém. Quando o antigo caiu, foi questão de tempo até todo mundo entender que agora quem mandava era eu. Sem votação, sem cerimônia, sem desculpa. Sangue chama sangue. Poder chama mais poder. E eu sempre soube lidar bem com os dois. Não me arrependo. Nunca me arrependi. Tudo que eu construí aqui foi na base da mão suja, da mente fria e do peito fechado. Eu sei do que sou capaz. Sei o que já fiz. Sei o que ainda faria sem perder uma noite de sono. Vergonha nunca fez parte do meu vocabulário. O que eu sinto é orgulho. Orgulho de olhar esse morro inteiro e saber que cada viela, cada barraco, cada boca funcionando tá de pé porque eu segurei. Porque eu matei quando precisei. Porque eu mandei matar quando foi necessário. O morro me respeita. O morro me teme. Mas a Carol… Carol é o caralhö do meu ponto fraco. A única coisa que nunca se curvou pra mim. Desde moleque eu já era assim. Dono demais do que eu achava que era meu. Carol sempre foi minha, mesmo quando ela dizia que não. Mesmo quando ela virava a cara. Mesmo quando ela fazia questão de fingir que eu não existia. A gente cresceu junto, se födeu junto, se protegeu quando ninguém mais protegia. Eu era o escudo, ela era o que me fazia lembrar que eu ainda era gente. Na adolescência, a gente se envolveu. Do jeito torto que dava. Escondido, rápido, cheio de promessa que eu nem sabia cumprir direito. Eu já era bandido, mesmo antes de virar chefe. Já fazia corre, já andava armado, já tinha gente olhando torto pra mim. E a Carol sempre odiou isso. Dizia que não queria essa vida. Que não queria ser mulher de bandido, que não queria viver olhando por cima do ombro, com medo de bala perdida ou polícia arrombandö porta. Eu achava que era fase. Achava que ela ia cansar de bancar a certinha. Não cansou. Quando eu subi de vez no comando, pensei que tudo ia mudar. Pensei que agora, com poder, dinheiro, nome pesado, ela ia entender que não tinha pra onde correr. Que aqui era nosso lugar. Que eu podia dar tudo. Segurança. Respeito. Status. Só que foi o contrário. Quanto mais alto eu subi, mais longe ela ficou. Carol passou a me ignorar como se eu fosse um erro do passado que ela queria apagar. Nem me xingava mais. Nem gritava. Simplesmente fingia que eu não existia. E isso me deixava louco de um jeito que nem guerra com facção rival conseguia. Porque tiro você revida. Traição você resolve. Desafio você esmaga. Mas indiferença? Indiferença corrói por dentro. Eu sabia que ela não queria se envolver com bandido. Sempre soube. Mas fodä-se. Nunca importou de verdade. O que importava era que ela era minha. Sempre foi. Mesmo quando ela dizia que não. Mesmo quando ela tentava fugir disso. Ninguém simplesmente deixa de ser meu só porque decidiu. Aqui no morro, escolha é luxo. Tô encostado no parapeito da laje da boca quando vejo ela descendo. Carol vem andando rápido, mochila no ombro, cara fechada, como se tivesse medo de cruzar com alguém conhecido. Como se o chão daqui fosse sujo demais pra ela pisar. O sol bate no cabelo dela e, porrä ainda dói igual. Meu peito aperta de um jeito que me deixa putö comigo mesmo. — Arcanjo — TH chama atrás de mim, mas eu nem escuto direito. Só consigo olhar pra ela. Carol não mudou quase nada. Tá mais mulher, claro. Mais dura também. Mas ainda anda do mesmo jeito, como se estivesse sempre pronta pra correr. Como se aqui fosse uma prisão e não a casa onde ela cresceu. Eu desço da laje sem pensar muito. Meus soldados se ajeitam automaticamente, abrindo espaço. Ninguém questiona. Todo mundo sabe que quando eu caminho assim é melhor sair da frente. — Carol — eu chamo, a voz grave, firme. Ela escuta. Eu sei que escuta. Mas continua andando. Isso me irrita. — Carol! — chamo de novo, mais alto. Ela para. Devagar. Respira fundo antes de virar, como se estivesse juntando paciência pra lidar comigo. O olhar dela quando encontra o meu não tem medo. Nunca teve. Tem desprezo. E isso dói mais do que qualquer bala. — O que você quer, Arcanjo? — ela pergunta seca, sem me chamar de chefe, sem respeito nenhum. Eu sorrio torto. Sempre gostei disso nela. Do jeito que ela nunca se curvou. Mas também sempre quis quebrar isso. — Vai ter baile esse fim de semana — falo, chegando mais perto. — Baile grande. Quero você lá. Ela solta uma risada curta, sem humor. — Tá de sacanägem, né? — Tô falando sério. — Eu não piso em baile de bandido. — Você mora num morro, Carol. Querendo ou não, você pisa em coisa pior todo dia . Ela fecha a cara . — Não fala assim comigo. Eu já falei que não quero conversa com você . — Você fala como se tivesse escolha — respondo, sentindo o sangue ferver . Ela dá um passo pra trás, mas não por medo. É mais como quem se afasta de algo que dá nojo . — Eu não sou mais aquela menina idiotä, Arcanjo. Não sou mais sua. Essa frase bate forte. — Nunca deixou de ser — respondo baixo, perigoso. Ela arregala os olhos, indignada. — Você é doente. — E você sempre soube disso . O silêncio pesa entre a gente. O morro inteiro parece prender a respiração. Ninguém se mete. Ninguém ousa. Carol ajeita a mochila no ombro e cruza os braços . — Um dia eu vou embora daqui — ela diz. — E você não tem nada a ver com isso . — Vai pra onde? — pergunto, já imaginando mil cenários de merdä . — Isso não te interessa . — Tudo que envolve você me interessa. Ela dá um sorriso frio . — Pois vai ter que aprender a viver frustrado. Ela vira as costas pra mim. De novo. E dessa vez eu sinto algo diferente . Um pressentimento rüim . Como se essa cena não fosse só mais uma discussão. Como se fosse o começo de alguma coisa grande pra caralhö . Eu fico aqui parado, olhando ela se afastar, enquanto o ódio e o desejo se misturam dentro de mim de um jeito perigoso. Carol acha que pode simplesmente ir embora. Acha que pode me apagar da vida dela. Acha que eu vou aceitar isso calado . Não vai. Ela ainda vai aprender que ninguém simplesmente vira as costas pra mim e sai ileso. Ainda mais alguém que eu considero minha. Nem que eu tenha que quebrar o mundo inteiro pra provar isso. E enquanto observo ela sumir na curva da viela, uma coisa fica clara na minha cabeça, pesada, inevitável: Carol pode até fugir de mim . Mas ninguém foge do que é meu por direito .
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