Capítulo 9

1152 Palavras
Promessas sob a Luz da Lua A dor foi a primeira coisa que Lia sentiu ao acordar. Não uma dor aguda, como durante a batalha, mas uma dor profunda, espalhada, como se cada parte do seu corpo lembrasse exatamente o que havia acontecido. Seus músculos estavam rígidos, sua respiração um pouco pesada, e até abrir os olhos exigiu esforço. Mas ela abriu. E viu a luz. Suave. Dourada. Quente. O sol atravessava o tecido da barraca improvisada onde ela estava, criando sombras delicadas que dançavam com o vento. Lia piscou devagar. — Eu… tô viva… — murmurou, com a voz rouca. E aquele simples pensamento trouxe algo inesperado. Alívio. Ela tentou se mexer. E imediatamente fez uma careta. — Ai… Seu corpo protestou. Cada pequeno movimento parecia lembrar seus limites. Mas, ainda assim… ela estava ali. Respirando. Inteira. Do lado de fora, vozes ecoavam. Não eram gritos de guerra. Nem comandos. Eram… conversas. Baixas. Cansadas. Humanas. O mundo estava se reconstruindo. Ali mesmo. No meio dos restos da batalha. Sem voltar para casa. Porque… muitos não tinham mais para onde voltar. Lia virou o rosto lentamente, tentando entender onde estava. A barraca era simples. Feita às pressas. Mas organizada. Havia panos limpos, frascos de poções, ervas secas penduradas. Ela reconheceu. Era uma área de cura. Ela sorriu levemente. — Claro que eu ia parar aqui… — E eu sabia que você acordaria reclamando. A voz fez seu coração bater mais forte. Ela virou o rosto. E o viu. Maphis. Parado na entrada da barraca, com um leve sorriso nos lábios e um olhar… aliviado. Vivo. Seguro. Ali. — Você ficou… — disse Lia, quase em um sussurro. Ele inclinou levemente a cabeça. — Fiquei. Simples assim. Como se não houvesse outra opção. Ele deu alguns passos para dentro, mas parou antes de se aproximar mais. — Posso? — perguntou, indicando o espaço ao lado dela. Lia assentiu. — Pode. Ela tentou se ajeitar. E imediatamente fez outra careta. — Ai… Maphis franziu o cenho, aproximando-se rápido. — Não se mexe assim. Ele se ajoelhou ao lado dela. Seus olhos percorreram cada detalhe, avaliando, preocupado. — Você ainda está muito machucada. Lia respirou fundo. — Eu tô viva. — E isso já é muito — respondeu ele, mais baixo. Por um momento, nenhum dos dois falou. Apenas se olharam. E, naquele silêncio… havia muita coisa. Alívio. Cansaço. E algo mais. Algo que ainda não tinha nome completo. Mas já tinha peso. — A guerra acabou… — disse Lia, olhando para o teto da barraca. — Acabou — confirmou Maphis. — De verdade? Ele assentiu. — O m*l foi selado. — E as pessoas? Uma pequena pausa. — Muitas sobreviveram. Outra pausa. — Muitas não. Lia fechou os olhos por um instante. Absorvendo. Sentindo. Respeitando. — Eles estão ficando aqui? — perguntou ela, depois de um tempo. — Sim. — Porque não têm para onde voltar… — Exatamente. Lia virou o rosto novamente. Seus olhos encontraram os dele. — Então a gente vai ajudar. Não foi uma pergunta. Foi uma decisão. Maphis observou. E, lentamente… Sorriu. — Eu não esperaria outra resposta. O silêncio voltou. Mas dessa vez… mais leve. Mais calmo. — Maphis… — Hm? — Você vai voltar para o seu reino? Ela perguntou de forma direta. Sem rodeios. Sem tentar esconder. Ele soltou um pequeno suspiro. — Vou. A palavra caiu entre eles. Pesada. Necessária. Lia assentiu lentamente. Como se já soubesse. Como se já tivesse se preparado para aquilo. Mas, mesmo assim… Doeu. Ela desviou o olhar. Mas não foi rápido o suficiente. Uma lágrima escapou. Silenciosa. Discreta. Mas… impossível de ignorar. Maphis viu. E aquilo o atingiu. Mais do que qualquer golpe na batalha. Ele se aproximou um pouco mais. Sem tocar. Mas perto o suficiente. — Lia… Ela limpou a lágrima rapidamente. — Tá tudo bem. Mas não estava. E os dois sabiam. — Eu preciso ir — disse ele, com calma. — Eu sei. — Mas não é por escolha. Ela respirou fundo. — Eu sei disso também. Maphis a observava com intensidade. — Eu tenho coisas que precisam ser resolvidas. — Como o quê? Ele hesitou por um instante. E então decidiu ser completamente honesto. — Meu pai. Lia franziu levemente o cenho. — O rei? Ele assentiu. — Eu preciso falar com ele. — Sobre a guerra? Maphis negou suavemente. — Sobre mim. Ela ficou em silêncio. Esperando. — Sobre o fato de que… — ele fez uma pequena pausa — meu coração já fez uma escolha. O tempo pareceu parar. Lia prendeu a respiração. — E eu preciso dizer a ele que vou ficar ao lado dessa escolha. Os olhos dela se encheram novamente. Mas, dessa vez… não era só dor. Era algo mais. — Maphis… — Eu vou voltar — disse ele, firme. Sem hesitação. Sem dúvida. — Eu prometo. Lia o encarou por longos segundos. Buscando. Sentindo. Acreditando. — Você promete? — Prometo a você. E havia algo naquela forma de dizer… Que tornava impossível duvidar. Ela soltou um pequeno suspiro. E, mesmo com o corpo doendo… Ela conseguiu sorrir. — Então tá. Maphis ergueu uma sobrancelha. — “Então tá”? Ela deu de ombros, com dificuldade. — Eu confio em você. Aquilo… significava mais do que qualquer palavra elaborada. — E você? — perguntou ele. — Vai voltar para o seu reino? Lia pensou por um instante. Olhou ao redor. Para as barracas. Para os feridos. Para as pessoas tentando recomeçar. — Ainda não. Maphis assentiu. — Eu imaginei. — Eles precisam de ajuda. — E você vai ajudar. — Sim. Ela olhou para ele novamente. — Como sempre. Ele sorriu. Mas havia algo em seu olhar agora. Algo mais profundo. Mais decidido. — Então é isso… — disse Lia, mais baixo. — Por enquanto. Maphis completou. O silêncio voltou mais uma vez. Mas agora… Era um silêncio de despedida. Mesmo que temporária. Mesmo que necessária. Maphis se levantou lentamente. Mas não se afastou imediatamente. Ele olhou para ela por mais um instante. Memorizando. Guardando. — Descansa. — Você também. — Eu não sei fazer isso muito bem. Ela deu um pequeno sorriso. — Aprende. Ele deu um passo para trás. E depois outro. Mas, antes de sair da barraca… Parou. Se virou. — Lia. — Hm? — Cuida de você. Ela inclinou levemente a cabeça. — Só se você fizer o mesmo. Ele assentiu. — Combinado. E então… ele saiu. Lia ficou ali. Deitada. Dolorida. Cansada. Mas… viva. Ela fechou os olhos. E levou a mão ao peito. Seu coração ainda batia forte. Mas, agora… Com algo diferente. Espera. Do lado de fora, o mundo continuava. Ferido. Mas em reconstrução. E ela faria parte disso. E em algum lugar… Não tão distante… Maphis caminhava. Com um destino. Uma decisão. E uma promessa. Porque algumas despedidas… Não são fins. São apenas pausas. Entre um momento… E o próximo começo.
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