De todas as vozes, aquela era a que eu menos pensei que iria ouvir ao sair do avião.
A pessoa que eu menos esperava estava ali na minha frente. Vicenzo era como o dia*bo aparecia quando menos esperava. Este homem estava destinado a tornar a minha vida miserável.
Como di*abos ele me encontrou?
Eu não podia acreditar que ele estava realmente aqui.
Eu me virei e encarei a voz dos meus pesadelos.
Era incrível que ainda fosse exatamente como tinha sido meses atrás.
Inconscientemente eu comecei a pensar que o estava idealizando e que aqueles meses em que estive com ele, sendo cortejada, mimada e desejada, não passavam de produto da minha imaginação.
Que as vezes que ele acariciava a minha alma era realmente tudo fruto da minha imaginação e nunca foi tão lindo.
Tão atraente.
Eu sabia que tudo era tudo uma maneira de evitar que doesse tanto, se eu estava apenas inventando que Vicenzo era mesmo aquele irresistível e a outra opção era essa. Ele era verdadeiramente irresistível.
Ali, de frente para ele, depois de tanto tempo sem vê-lo, percebi que o segundo era o correto.
Os seus olhos escuros, quase pretos, olhavam para mim com ressentimento.
Era a única coisa que se destacava entre os cílios longos e as sobrancelhas espessas, o nariz um pouco mais fino do que os italianos costumavam ter.
É que sem pensar, eu o considerou o homem mais bonito que eu já tinha visto.
Eu nunca tinha conhecido ninguém como ele.
Foi uma m*aldição.
Ele usava um terno, estava sempre impecavelmente vestido: O seu cabelo era cortado muito curto, o seu cabelo era tão ne*gro quanto os seus olhos cativantes.
— Antonela. Você chegou sem me avisar. Você não acha que o seu marido merecia estar aqui, para receber você de volta em Nápoles?
— Vai para o infe*rno. Faz muito tempo que não sou sua esposa.
— Você sempre será.
— Não diga isso.
— Não me diga que você mudou tanto nesse tempo que ficou longe de mim. Ele fez o que pensei ser um clique com a língua.
Um gesto muito irritante. — A Espanha não te moldou nem um pouco.
— Vicenzo...Eu disse brevemente. Não tinha vontade de falar com ele, mas a necessidade me obrigava, e nessas circunstâncias, seria mais do que necessário cumprimentá-lo: — Desculpe não ter avisado.
Po*rra, eu estava morrendo de vontade de mais do que apenas um olá. Eu queria gritar com ele e bater nele.
Eu desejava ter a coragem de olhar nos olhos dele e dizer tudo que estava engasgado na minha garganta.
— Você não está nem um pouco arrependida. Ele respondeu.
— O que você quer que eu te diga então se não acredita quando eu falo?
— Diga de coração.
— Você destruiu o meu coração quando descobri as suas mentiras.
— Muito rápido que isso aconteceu, você não acha?
Eu mordi a língua para não dizer a ele como tudo foi rápido.
Com que rapidez eu entendi que ele nunca me amou. Mas eu precisava fechar esse ciclo.
A minha irmã me disse para fazer o que fosse necessário. E eu ia fazer.
— Olá, Vicenzo. Me desculpe, se eu não avisei você. Está melhor assim?
— Só assim? Esses meses te deixaram mais grosseira do que você era. Ele disse, enquanto se aproximava, com a intenção de me beijar na boca. Eu viu nos seus olhos, se aproximando como um predador, eu me esquivei abruptamente, mas ainda senti o roçar dos seus lábios na minha bochecha, o que me deu uma sensação familiar e muitas lembranças.
Eu me amaldiçoei por minha fraqueza culpada.
Eu tinha certeza de que o mesmo efeito era causado por Vincenzo em todas as mulheres. Eu era apenas mais uma na lista.
Alguém que tinha sido tola o suficiente para acreditar nas suas falsas palavras. Uma que havia sido seduzida por seu bom porte e olhos escuros.
Alguém que mentiu para mim o suficiente para fazer a sua conta bancária crescer com a sua herança.
— Você é minha esposa, Nella, e assim permanecerá até que eu diga o contrário. Ele sussurro tão perto do meu ouvido que eu quase desmaiei. — Não tire o rosto quando eu for te beijar de novo. Ele me ameaçou. — Agora vamos.
— Eu não vou a lugar nenhum com você. Você ficou louco? Deixei de ser sua esposa desde o dia em que parti. Eu rosnei, enquanto agarrava a minha mala de mão com força. — Você não vai me obrigar, Enzo.
Eu gritei com ele como costumava fazer e quase comecei a chorar. Um milhão de memórias.
Um mar de emoções.
— Você está errado sobre isso. Ele disse abruptamente. — Você é minha esposa, a certidão diz isso, o fato de você ter saído não anula o que nós dois assinamos, que nos casamos na frente de um padre, que gastei dinheiro para te dar o casamento que você merecia e sonhava desde menina, convidando toda a sua família, até pessoas que eu nem conhecia e outras que eu, nem gostava. Eu te dei o que você sonhou.
— No entanto, você não me deu amor de verdade. Ei completei.
— Nella...
— Acho que não é hora nem lugar, Vicenzo. Não gosto de falar da minha vida pessoal no meio de tanta multidão. Estamos na po*rra do aeroporto.
— Portanto, vamos! Ele me pegou pelo braço e me arrastou até o carro que já esperava com as portas abertas e um motorista de óculos escuros e cabelos pretos.
O homem tinha um porte militar.
— Mas o que você está fazendo? Você perdeu a cabeça! Você não pode vir e me arrastar assim, me pegar pelo braço como se eu fosse uma garotinha. Sou a...
— Entre no carro, Bella. Eu não vou repetir isso. A voz do Enzo sempre foI assim, imperiosa. Como se ele estivesse mandando, em vez de pedir.
Mas eu tive a leve impressão de que naquele momento ele não estava me pedindo para entrar no carro.
Ele estava redondamente enganado se pensou que poderia simplesmente aparecer e começar a exigir coisas de mim.
Eu nem havia contado a ele que estava indo para Nápoles. A minha intenção era acordar num hotel e ligar para ele no dia seguinte para marcar um encontro e assim assinar os papéis do divórcio que eu trouxe, ir embora.
Fazia tempo que ele estava fugindo daqueles papéis, tinha enviado para ele com a ajuda de um advogado, um intermediário, para não ter que ver a cara de Enzo de novo, mas as coisas não saíram como eu pensava. E agora eu estava de volta lá. Na cidade onde pensei que era feliz pela primeira vez na minha vida, onde pensei que iria começar uma família, um lar com o homem que pensei que me amava, mas estava errado, Vicenzo Luigi só queria receber uma herança.
Muito tarde eu percebi o meu erro.
Agora, depois de ter assinado aquele papel na frente de um padre, na frente da minha família e amigos, eu seria eternamente grata a minha irmã por ter estado lá quando eu mais precisei.
— Vá para o infe*rno. Eu rosnei.
— Nela. Ele disse o meu nome no diminutivo que antes me enlouquecia, me fazia derreter de amor. A sua voz sensual e rouca, combinada com aquele seu olhar profundo, tinham sido um afrodisíaco para a jovem inocente que eu era. — Estou à espera, tenho coisas para fazer. Eu não gosto de perder o meu tempo e você sabe disso.