EPISODIO 1

1263 Palavras
De todas as vozes, aquela era a que eu menos pensei que iria ouvir ao sair do avião. A pessoa que eu menos esperava estava ali na minha frente. Vicenzo era como o dia*bo aparecia quando menos esperava. Este homem estava destinado a tornar a minha vida miserável. Como di*abos ele me encontrou? Eu não podia acreditar que ele estava realmente aqui. Eu me virei e encarei a voz dos meus pesadelos. Era incrível que ainda fosse exatamente como tinha sido meses atrás. Inconscientemente eu comecei a pensar que o estava idealizando e que aqueles meses em que estive com ele, sendo cortejada, mimada e desejada, não passavam de produto da minha imaginação. Que as vezes que ele acariciava a minha alma era realmente tudo fruto da minha imaginação e nunca foi tão lindo. Tão atraente. Eu sabia que tudo era tudo uma maneira de evitar que doesse tanto, se eu estava apenas inventando que Vicenzo era mesmo aquele irresistível e a outra opção era essa. Ele era verdadeiramente irresistível. Ali, de frente para ele, depois de tanto tempo sem vê-lo, percebi que o segundo era o correto. Os seus olhos escuros, quase pretos, olhavam para mim com ressentimento. Era a única coisa que se destacava entre os cílios longos e as sobrancelhas espessas, o nariz um pouco mais fino do que os italianos costumavam ter. É que sem pensar, eu o considerou o homem mais bonito que eu já tinha visto. Eu nunca tinha conhecido ninguém como ele. Foi uma m*aldição. Ele usava um terno, estava sempre impecavelmente vestido: O seu cabelo era cortado muito curto, o seu cabelo era tão ne*gro quanto os seus olhos cativantes. — Antonela. Você chegou sem me avisar. Você não acha que o seu marido merecia estar aqui, para receber você de volta em Nápoles? — Vai para o infe*rno. Faz muito tempo que não sou sua esposa. — Você sempre será. — Não diga isso. — Não me diga que você mudou tanto nesse tempo que ficou longe de mim. Ele fez o que pensei ser um clique com a língua. Um gesto muito irritante. — A Espanha não te moldou nem um pouco. — Vicenzo...Eu disse brevemente. Não tinha vontade de falar com ele, mas a necessidade me obrigava, e nessas circunstâncias, seria mais do que necessário cumprimentá-lo: — Desculpe não ter avisado. Po*rra, eu estava morrendo de vontade de mais do que apenas um olá. Eu queria gritar com ele e bater nele. Eu desejava ter a coragem de olhar nos olhos dele e dizer tudo que estava engasgado na minha garganta. — Você não está nem um pouco arrependida. Ele respondeu. — O que você quer que eu te diga então se não acredita quando eu falo? — Diga de coração. — Você destruiu o meu coração quando descobri as suas mentiras. — Muito rápido que isso aconteceu, você não acha? Eu mordi a língua para não dizer a ele como tudo foi rápido. Com que rapidez eu entendi que ele nunca me amou. Mas eu precisava fechar esse ciclo. A minha irmã me disse para fazer o que fosse necessário. E eu ia fazer. — Olá, Vicenzo. Me desculpe, se eu não avisei você. Está melhor assim? — Só assim? Esses meses te deixaram mais grosseira do que você era. Ele disse, enquanto se aproximava, com a intenção de me beijar na boca. Eu viu nos seus olhos, se aproximando como um predador, eu me esquivei abruptamente, mas ainda senti o roçar dos seus lábios na minha bochecha, o que me deu uma sensação familiar e muitas lembranças. Eu me amaldiçoei por minha fraqueza culpada. Eu tinha certeza de que o mesmo efeito era causado por Vincenzo em todas as mulheres. Eu era apenas mais uma na lista. Alguém que tinha sido tola o suficiente para acreditar nas suas falsas palavras. Uma que havia sido seduzida por seu bom porte e olhos escuros. Alguém que mentiu para mim o suficiente para fazer a sua conta bancária crescer com a sua herança. — Você é minha esposa, Nella, e assim permanecerá até que eu diga o contrário. Ele sussurro tão perto do meu ouvido que eu quase desmaiei. — Não tire o rosto quando eu for te beijar de novo. Ele me ameaçou. — Agora vamos. — Eu não vou a lugar nenhum com você. Você ficou louco? Deixei de ser sua esposa desde o dia em que parti. Eu rosnei, enquanto agarrava a minha mala de mão com força. — Você não vai me obrigar, Enzo. Eu gritei com ele como costumava fazer e quase comecei a chorar. Um milhão de memórias. Um mar de emoções. — Você está errado sobre isso. Ele disse abruptamente. — Você é minha esposa, a certidão diz isso, o fato de você ter saído não anula o que nós dois assinamos, que nos casamos na frente de um padre, que gastei dinheiro para te dar o casamento que você merecia e sonhava desde menina, convidando toda a sua família, até pessoas que eu nem conhecia e outras que eu, nem gostava. Eu te dei o que você sonhou. — No entanto, você não me deu amor de verdade. Ei completei. — Nella... — Acho que não é hora nem lugar, Vicenzo. Não gosto de falar da minha vida pessoal no meio de tanta multidão. Estamos na po*rra do aeroporto. — Portanto, vamos! Ele me pegou pelo braço e me arrastou até o carro que já esperava com as portas abertas e um motorista de óculos escuros e cabelos pretos. O homem tinha um porte militar. — Mas o que você está fazendo? Você perdeu a cabeça! Você não pode vir e me arrastar assim, me pegar pelo braço como se eu fosse uma garotinha. Sou a... — Entre no carro, Bella. Eu não vou repetir isso. A voz do Enzo sempre foI assim, imperiosa. Como se ele estivesse mandando, em vez de pedir. Mas eu tive a leve impressão de que naquele momento ele não estava me pedindo para entrar no carro. Ele estava redondamente enganado se pensou que poderia simplesmente aparecer e começar a exigir coisas de mim. Eu nem havia contado a ele que estava indo para Nápoles. A minha intenção era acordar num hotel e ligar para ele no dia seguinte para marcar um encontro e assim assinar os papéis do divórcio que eu trouxe, ir embora. Fazia tempo que ele estava fugindo daqueles papéis, tinha enviado para ele com a ajuda de um advogado, um intermediário, para não ter que ver a cara de Enzo de novo, mas as coisas não saíram como eu pensava. E agora eu estava de volta lá. Na cidade onde pensei que era feliz pela primeira vez na minha vida, onde pensei que iria começar uma família, um lar com o homem que pensei que me amava, mas estava errado, Vicenzo Luigi só queria receber uma herança. Muito tarde eu percebi o meu erro. Agora, depois de ter assinado aquele papel na frente de um padre, na frente da minha família e amigos, eu seria eternamente grata a minha irmã por ter estado lá quando eu mais precisei. — Vá para o infe*rno. Eu rosnei. — Nela. Ele disse o meu nome no diminutivo que antes me enlouquecia, me fazia derreter de amor. A sua voz sensual e rouca, combinada com aquele seu olhar profundo, tinham sido um afrodisíaco para a jovem inocente que eu era. — Estou à espera, tenho coisas para fazer. Eu não gosto de perder o meu tempo e você sabe disso.
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