Por Isabel...
Meu irmão levanta depois de alguns minutos abraçado comigo, então estende a mão para que eu possa fazer o mesmo. O abraço apertado que recebo faz com que eu dê um soluço alto, porém não me rendo ao choro. Vou ser forte, enfrentarei tudo de cabeça erguida, eu deveria saber que esse dia chegaria.
Kaio acaricia meus cabelos fazendo uma calma súbita me invadir. Ele sabe que esse é meu ponto fraco, desde quando eu era pequena, quer dizer, criança, ele faz isso sabendo muito bem o efeito.
— Me perdoa. — Pede baixo e eu balanço a cabeça — Te amo.
— Eu também. Eu só preciso de um tempinho para digerir tudo. — Digo — Eu não vou a faculdade hoje, preciso respirar, tomar um ar.
Ele me solta e sorri fraco. Ainda sabendo que eu estou chateada. Não teria como eu não estar.
Suspiro limpando o rosto e pego uma caixa de leite na geladeira. É isso! Eu preciso comer e esquecer que acordei na minha cama, e que obviamente foi Saulo quem me trouxe para cá. Tentar esquecer que num futuro próximo vamos ter a conversa mais esperada do século — pelo menos para mim, e que a minha reação diante do que ele falar é desconhecida. Eu tenho medo, muito medo dos meus sentimentos, tenho medo de ser traída por eles.

Ao chegar a praia eu tiro de dentro da bolsa uma canga reserva e estendo na areia. Por ser terça feira o movimento não é muito e eu me sinto mais aliviada. Me livro do mini short jeans e deito sendo agraciada pelo céu um pouco nublado. Eu amo sentir o vento em meu rosto, gosto da sensação que me trás.
Pego o celular e tiro algumas selfies. Eu preciso olhar para mim e ver que eu não sou mais aquela adolescente de seis anos atrás. Eu não sou!
Tenho vinte e dois anos, não dependo do meu irmão e já estou quase formada. Minha vida profissional vai de melhor a excelente e eu me sinto mais que realizada. Ao longo dos anos fiz cursinhos que darão um Up no meu currículo, isso por si só já deveria me fazer a mulher mais feliz do mundo, mas é aí que está a questão, não faz. Eu sinto que falta algo, eu não consigo me relacionar e talvez seja um problema. Eu tenho que me dá uma nova chance!
Mas para isso tenho que ter a bendita conversa com Saulo, enfrentar o passado e passar uma borracha para poder seguir em frente, eu ainda estou presa aquele maldito dia e não quero mais isso. Quero ser uma nova Isabel, livre de mágoas, livre do passado, livre de tudo.
Levanto, guardando tudo na bolsa e caminhando até a água, olho para cima fechando os olhos e respirando fundo. Posso parecer dramática demais, porém só eu sei a dor que sentir quando vi o amor da minha vida sendo algemado, só eu sentir
quando vi aquelas drogas. Pode ser incompreensível mas eu me decepcionei. Decepção. Essa é a palavra que define tudo que senti.
Entro na água gelada e dou um mergulho pedindo para ela levar a velha Isabel Sasaki que apartir de hoje outra renascerá. Chega de choro e mímimi, sou mulher p***a! E enfrentarei isso com a cabeça erguida, mesmo que o coração esteja doendo.
Não vou mais fugir.
∆
Respiro fundo quando a cabeleireira dizer que irá virar a cadeira.
Quando sair da praia por impulso resolvi que iria me livrar de algumas coisas da antiga Isa, e por um momento de loucura parei em frente a um salão e pedi um corte extremo.
E agora estou aqui boquiaberta olhando para o meu reflexo no espelho. Uau...
— Você ficou maravilhosa. — Ela elogia admirada com o próprio trabalho e eu devo confessar que se soubesse teria feito antes.
— Estou me sentindo mais mulher. — Murmuro encantada passando os dedos pelas medeixas agora curtas.
A mulher rir.
Saio de lá me sentindo animada e vou para casa. Eu não sei o que o futuro me reversa, só sei que quero está preparada para tudo que possa vir a acontecer.
Exatos meio dia entro em casa encontrando Kaio na cozinha terminando de preparar o almoço. Ele está sem camisa com uma calça de moletom e um avental. Sorrio ao vê-lo de costas mexendo algo na frigideira. Talvez tentando se redimir porque vejo em cima da ilha as mais variadas saladas. Um mini som está ligado ao som de funk pesadão, ele rebola sem se dar conta de que estou aqui.
Dou risada e pego o celular para gravar e num futuro tirar sarro dele.
Arranho a garganta e ele se assusta virando em seguida com um sorriso que logo morre ao olhar para mim.
— Que p***a você fez no cabelo Isabel? — Pergunta quase gritando e eu reviro os olhos.
— Cortei.
— Isso eu estou vendo. p***a ficou muito gata. — Elogia e eu faço uma dancinha.
— Ficou bom mesmo? — questiono, ele responde um "ficou parecendo a mamãe ainda mais, por mas que ela tenha tido os cabelos longos". Me aproximo e seguro sua mão.
— Eu me orgulho em parecer com ela. — Ele sorri e eu vou para o quarto enquanto ele termina de preparar a comida.
Depois de almoçar liguei para o proprietário do bar, vulgo "meu chefe" para saber a minha atual situação e se ainda tenho um emprego. Porém me surpreendi quando ele falou está tudo bem e que eu podia tirar a semana de folga para me recuperar do surto.
Eu quis mata-lo por me chamar de surtada, mas me contive e agradeci prontamente.
Ele não parecia o ranzinza que eu costumo lidar, estava até com um ar risonho na voz. Que louco!
A tarde fui para a academia e me submetir a pegar peso, minha auto confiança estando nas alturas. Observei pelo espelho quando Eduardo se aproximou por detrás e ficou me observando, sorri para ele e fui retribuída acompanhado de um arquear de sobrancelha.
— Me desculpe se isso vai soar indelicado, mas você está ainda mais linda. — Falou e eu senti as bochechas ruborizarem.
— Obrigado!? — exclamo porque eu não sei reagir quando recebo um elogio.
— Não á de quê baixinha. — Responde rindo e eu fecho o semblante não gostando quando um arrepio sobe a espinha.
— Isabel!
Ele me olha confuso.
— Não entendi.
— Me chame de Isa, Bel ou Isabel. — Peço tentando em vão não soar grossa.
— Oh! Me desculpe, não se repetirá Bel. — Diz piscando um olho e se vai quando alguém o chama.
Meu bom humor se esvai consideravelmente e eu trabalho duro focando apenas na minha função.
Depois de uma hora e meia eu já estou pronta para ir embora quando ele chega, dessa vez todo sério
— É sério mesmo Isabel, me desculpe. Não queria te deixar chateada.
Caminho até mesa no canto contendo alguns papéis jogados em cima, pego uma caneta e anoto meu número.
— Pode se redimir me convidando para um café. — Entrego a ele que pega de bom grado.
— Com toda certeza farei isso. — Beija minha bochecha e meu rosto esquenta.
— Até depois Eduardo.
Digo saindo satisfeita com uma sensação de ter feito a coisa certa.
Horas mais tarde estou saindo do banheiro com uma decisão e confiante de que é a coisa certa a se fazer.
Como está frio eu ponho uma calça de couro preta com uma blusa branca e jaqueta, calço uma bota e depois de pegar celular e carteira eu saio do quarto.
— Preciso falar com você. — Encontro Kaio no sofá assistindo um jogo qualquer, estranhado também que de ontem pra cá ele não tem saído de casa.
— Pode falar. O que quer de mim dessa vez, já fui buscar a sua moto no bar, fiz sua comida preferida... — Inúmera nos dedos e eu vou direto ao assunto.
— Eu quero o endereço de Saulo. — Digo atraíndo sua atenção — Não quero não como resposta Kaio, você sabe que se eu sair só descansarei quando souber onde ele mora. E você me dando o endereço pouparia muita dor de cabeça.
Falo decidida e me surpreendo quando ele pega o celular e me manda por mensagem.
— Obrigado.
Agradeço pegando a chave da moto e o capacete.
— Não faça loucuras Bel. Confio em você. — Diz antes que eu saia porta afora.
Já em cima da moto fico surpresa ao ver que ele mora perto da praia a qual eu estava pela manhã. Guardo o celular no bolso e ligo a moto ouvido o ronco adentrar meus ouvidos.
No caminho eu vou pensando se o que estou fazendo não é uma loucura. Pensei muitas vezes em dá meia volta e ir para casa. Confesso que estou tremendo mas voltar já não é mais uma opção quando paro em frente a uma casa enorme, com muros altos e câmeras de segurança espelhada pela entrada.
De início me assusto e quase pulo da moto quando o portão se abre. Respiro fundo e piloto para dentro.
Meu coração está prestes a saltar pela minha boca e eu não sei o que fazer, me arrependo amargamente por ter vindo, porém quando olho para trás o portão já se encontra fechado e eu não tenho escolha a não ser descer da moto e enfrentar-lo.
Tiro o capacete ajeitando meu cabelo quando o vendo o trás para o meu rosto. Olhando ao redor agora observo que a casa é toda de vidro e está tudo apagado lá dentro.
Deus me ajude.
Peço mentalmente.
Se estou com medo?
É óbvio que sim.
Mas no fundo eu sei que ele não me fará m*l, louco eu sei, mas eu sinto que não.
Caminho até a entrada com minhas pernas tremendo e não é de frio. Estou prestes a levar a mão ao trinco quando a porta se abre e eu o vejo. A personificação do d***o na minha frente. Não me julgue, é assim que eu o vejo agora.
Engulo seco vendo-o sem camisa com suas tatuagens antes inexistentes amostra. Eu não consigo falar, ou ao menos me expressar. Estou feito uma estátua, parada olhando para ele porque minha garganta secou e travou. Na verdade eu travei por inteira.
— Baixinha...
Saulo sussurra e eu explodo em uma choro eminente nao conseguindo controlar. Foi uma péssima ideia vim.