6- CAROL

1204 Palavras
CAPÍTULO 6 CAROL NARRANDO O despertador tocou. Aquele som irritante, repetitivo, que parecia martelar direto no meu cérebro. Abri os olhos devagar, sentindo o rosto arder antes mesmo de lembrar o porquê. O tapa. A lembrança veio como um soco no estômago. Levei a mão até a bochecha e toquei com cuidado. Ainda tava quente, meio inchada, sensível. Respirei fundo, tentando não chorar de novo. Eu já tinha feito isso ontem. E anteontem. E em tantos outros dias. Levantei devagar da cama, calcei os chinelos velhos do lado do colchão e peguei a toalha pendurada atrás da porta. O barraco ainda tava silencioso, só o som de uma moto passando ao longe e o barulho da goteira pingando no balde da cozinha. Fui pro banheiro improvisado, aquele cantinho apertado de madeira e lona onde m*l dava pra se mexer. Fechei a porta com cuidado e liguei o chuveiro. A água caiu gelada, como sempre. Mas naquele dia… nem me incomodou. Era como se o frio por fora combinasse com o que tava dentro de mim. Passei a mão pelo rosto devagar, sentindo o corpo inteiro doer, não só pela pancada… mas pelo peso de tudo. Da vida. Da rotina. Da solidão. Fechei os olhos por um segundo e deixei a água escorrer. Como se ela pudesse levar junto o medo, a raiva, o nojo, a vergonha. Mas não levava. Nada levava e, mesmo assim, eu levantava todos os dias. Me vestia. Trabalhava. Voltava pra casa. E fazia tudo de novo. Porque eu não tinha escolha. Só um objetivo: sobreviver. Saí do banheiro com os cabelos pingando e o corpo arrepiado. Enrolei a toalha no corpo e fui direto pro quarto, andando na ponta dos pés pra não fazer barulho. Escolhi a calça jeans, já meio desbotada nas pernas e a camisetaa com o logo do posto estampado no peito. Vesti devagar, cada movimento com cuidado, como se meu corpo tivesse medo de doer mais. Prendi o cabelo num r**o de cavalo baixo, sem força, só pra não ficar no rosto. Peguei o espelhinho rachado do canto e olhei meu reflexo com tristeza. O rosto ainda marcado, a bochecha um pouco inchada, e o olhar. O olhar de quem já cansou de fingir que tá tudo bem. Passei um pouco de pomada na pele, só pra tentar disfarçar. Nem maquiagem eu tinha. Nunca me sobrava pra essas coisas. Peguei meu celular velho na cabeceira, coloquei dentro da bolsa junto com o crachá do posto e um trocado que tinha achado no bolso da calça ontem. Antes de sair, parei na porta do quarto e olhei pra sala. Meu pai tava lá. Jogado no sofá, descalço, deitado de qualquer jeito, com a boca aberta e o cheiro de álcool tomando conta do ambiente. Tava apagado. Nem se mexia. Eu podia tentar preparar um café, talvez comer um pão duro que ainda tinha na sacola… Mas qualquer movimento ali podia acordar ele. E eu não queria mais ouvir a voz dele. Não queria mais ouvir que sou um peso, uma vadiä, uma vergonhä. Então saí em silêncio. Sem café. Sem palavra. Sem esperança. Fechei a porta devagar, travei com o cadeado velho, e segui pelo beco com a cabeça baixa. O dia tava só começando. E eu já me sentia esgotada. Saí do beco com o sol ainda se escondendo por trás dos prédios inacabados do morro. A luz era fraca, mas já dava pra ver a sujeira acumulada no canto da calçada, os muros pichados, os portões de ferro que rangiam com o vento. Desci pelas vielas estreitas com cuidado, desviando de lixo, poça d’água e caco de vidro. Um cachorro magro rosnava de dentro de uma garagem aberta, e um rádio tocava samba alto demais numa casa onde ninguém parecia dormir. O caminho até o posto não era longo. Mas cada passo parecia pesar uma tonelada. Tava frio. Não no corpo, o calor da cidade não dava trégua, mas dentro de mim. Atravessei a rua principal com atenção, olhando pros dois lados, como sempre. A cidade acordava devagar, com o barulho dos primeiros ônibus e o cheiro de pão fresco se misturando ao de gasolina e poeira. Quando cheguei no posto, o céu já tava tingido de laranja. Bati ponto com o dedo suado no leitor e fui direto pro caixa. O lugar ainda tava vazio, mas as luzes fluorescentes já zumbiam acima da minha cabeça. Foi aí que vi dona Cida entrando com aquela sacola plástica de mercado balançando no braço. Ela vinha toda suada, mas com um sorriso leve no rosto, daquele tipo que só gente boa de coração sabe dar. — Bom dia, minha filha — ela disse, se aproximando do balcão com calma. — Trouxe um cafezinho e um pão com ovo da minha casa. Fiz na hora. Meus olhos encheram d’água na hora. Segurei o choro com um sorriso tremido e respondi: — Obrigada, dona Cida. A senhora não precisava… — Precisava sim — ela cortou, colocando o copinho de plástico e o papel alumínio na minha frente. — Tu vem todo dia com a cara murcha, magrinha desse jeito, e ainda tem que aturar o mundo nas costas. Aceita sem vergonha, viu? Assenti com a cabeça, abrindo o embrulho devagar. O cheiro do pão quente com ovo frito me fez engolir seco. A barriga doeu. Eu tava mesmo sem comer nada desde ontem. Sentei num banquinho atrás do balcão e dei uma mordida, tentando não me emocionar. Ela encostou do outro lado e ficou ali, me olhando em silêncio por alguns segundos. — Ele fez de novo, né? — ela perguntou, sem rodeio. Engoli com dificuldade. Não precisava responder. O inchaço no meu rosto falava por mim. — Foi ontem à noite — soltei, baixinho. — Cheguei em casa, ele tava acordado… pediu dinheiro… mil reais. Eu disse que não tinha. Ele me bateu de novo. Como sempre faz, e hoje como eu não vou ter o dinheiro, eu sei que vou apanhar de novo. Ela suspirou, fechando os olhos com pesar. — Meu Deus do céu, Carol… e tu ainda levanta pra trabalhar? Se fosse outra, já tinha desistido da vida. — Eu não posso desistir — falei, segurando as lágrimas. — Porque se eu desistir, aí sim ele me mata. Ela balançou a cabeça, visivelmente tocada. — E essa dívida dele… cê sabe com quem é? — Só ouvi falar que é “na boca”. Nem sei direito o quanto. Só sei que tão cobrando, e que o prazo é até hoje. E eu… eu não tenho nada. Dona Cida respirou fundo, pegou minha mão por cima do balcão e apertou com firmeza. — Se protege, minha filha. E se acontecer alguma coisa… cê corre daqui, me avisa, vai embora. Tu é nova, bonita, trabalhadora. Não merece essa vida. Assenti de novo, com os olhos marejados. Ela se levantou devagar, ajeitou a blusa no corpo e antes de sair, deixou o aviso: — Hoje o dia vai ser quente. Senti no vento quando saí de casa. Fica esperta. Fiquei olhando ela se afastar, com o coração ainda mais apertado. Porque quando gente antiga sente no ar… É porque tem coisa vindo. Continua..... Deixem bilhetinhos 📚
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