ROCINHA

1144 Palavras
CAPÍTULO 1 ISIS NARRANDO A Rocinha acorda antes do sol. Eu sempre achei isso bonito. Quando ainda está meio escuro e as luzes das casas parecem estrelas baixas, dá a sensação de que o morro respira devagar. Como se fosse um corpo enorme tentando não acordar de vez. Eu gosto desse horário. É o único momento em que tudo parece possível. — Isis, você já levantou? — minha mãe chamou da cozinha. — Já, mãe. — Eu estava sentada na beirada da cama, escutando o som distante de uma moto subindo. Não era incomum. Nada aqui é incomum o suficiente para assustar de manhã. A Íris ainda dormia. Ela sempre dorme como se tivesse vivido demais no dia anterior. Eu levantei, abri a janela e deixei o vento entrar. Lá embaixo, uma senhora varria a calçada com paciência. Um menino passava com uma mochila maior que ele. Duas mulheres discutiam o preço do pão. Vida comum. Eu me apego a essas cenas como quem guarda provas de que o mundo não é só o que dizem dele. — Você viu sua irmã chegar ontem? — minha mãe perguntou quando sentei à mesa. — Vi. — Que horas eram? — Quase cinco. — Ela suspirou. Minha mãe não faz escândalo. Ela guarda as preocupações como quem dobra roupa, com cuidado e silêncio. — Você precisa conversar com ela — ela disse. — Ela não me escuta. — Você é a única que ainda tenta. — Eu fiquei mexendo no café. Eu e Íris somos iguais por fora. Mas desde pequenas eu percebi que o que a encantava, me assustava. Quando crianças, ela queria subir nos lugares mais altos. Eu ficava segurando a escada. Quando adolescentes, ela queria respostas rápidas. Eu preferia perguntas demoradas. Poliana me encontrou na metade da viela. — Você está pensando de novo — ela disse, rindo. — Como você sabe? — Sua testa fica franzida. Eu ri. — Isso é injusto. — É prática. Eu te conheço desde os sete anos. — Poliana tem uma leveza que me ajuda a não endurecer. Ela não ignora a realidade do morro, mas também não deixa que ela seja tudo. Descemos juntas. No caminho, passamos por um grupo de homens conversando. Eles falavam baixo, mas havia tensão no ar. Eu não parei para ouvir. Não é que eu não saiba o que acontece ao meu redor. Eu só não gosto de me alimentar disso. — Sua irmã estava lá embaixo ontem — Poliana comentou, como quem fala do clima. — Eu sei. — Você não fica com medo? — Eu pensei antes de responder. — Eu fico com medo de ela não voltar. — Ela ficou em silêncio por alguns passos. — Você acha que ela está… envolvida? — Eu não gosto dessa palavra. “Envolvida” parece que a pessoa tropeçou sem querer. Íris nunca tropeça. Ela escolhe. — Eu acho que ela gosta de se sentir importante — eu disse. Poliana assentiu. — E você? — Eu gosto de me sentir tranquila. Ela sorriu. — Você nasceu com o coração diferente. — Eu não sei se é elogio ou aviso. Quando voltamos, Íris já estava acordada. Sentada na laje, tomando sol como se nada a tocasse. — Bom dia — eu disse. — Dia — ela respondeu, sem olhar. Eu sentei ao lado dela. Ficamos alguns minutos em silêncio. O morro já estava acordado de vez. Crianças corriam. Um rádio tocava música distante. — Você poderia ao menos avisar quando for chegar tarde — eu falei. Ela riu de lado. — Você virou minha mãe agora? — Eu virei sua irmã. — Ela me olhou então. E ali, por um segundo, eu vi cansaço. Não medo. Não culpa. Cansaço. — Você não entende, Isis. — Então me explica. — Ela respirou fundo. — Tem gente que nasce para observar. E tem gente que nasce para agir. — E você acha que agir é se colocar em risco? — Risco é ficar parada. — Eu balancei a cabeça. — Nem todo movimento é avanço. — Ela sorriu, como se eu tivesse dito algo curioso. — Você fala como se o mundo fosse gentil. — Eu não acho que ele seja gentil. Eu só não quero ser igual a ele. — Aquilo a silenciou. À tarde, houve um burburinho diferente na rua principal. Eu estava voltando da venda quando percebi que as pessoas falavam mais baixo. Não por pânico. Por respeito. Ou receio. Eu não me aproximei. Não é meu hábito ir em direção ao que me causa desconforto. Mas, de onde eu estava, consegui ver parte do movimento. Homens alinhados. Posturas firmes. Olhares atentos. E minha irmã no meio deles. Não no centro. Mas perto o suficiente. Meu peito apertou. Não porque eu reconhecesse alguém ali. Eu não conhecia nenhum rosto. Para mim, eram apenas homens adultos carregando decisões maiores do que deveriam. Eu dei meia-volta. Eu não queria ver mais. Mais tarde, ouvi um estampido. Depois outro. E outro. Tiro não é novidade aqui. Mas isso não significa que se acostume. Minha mãe deixou cair o copo. — Fica dentro de casa — ela ordenou. Eu fui até a janela, mas não me inclinei demais. A rua virou pressa. Passos correndo. Portas batendo. Vozes chamando nomes. — Íris — eu sussurrei. Eu não sabia onde ela estava. Esse é o pior tipo de medo: o que não tem endereço. Minutos depois, o silêncio voltou devagar. Como se alguém tivesse colocado um pano sobre o barulho. Íris entrou pela porta. Inteira. Respirando rápido, mas inteira. Minha mãe a abraçou com força inesperada. — Você quer matar a gente de susto? — Ela não respondeu. Apenas fechou os olhos por um instante. Eu me aproximei. — Você está bem? — Estou. — Eu observei as mãos dela. Não tremiam. As minhas, sim. À noite, deitada na cama, eu pensei em como duas pessoas podem nascer no mesmo minuto e ainda assim caminhar para lugares tão diferentes. Eu não odeio o morro. Ele é minha casa. Mas às vezes sinto que há uma corrente invisível tentando decidir quem eu devo ser. A irmã de alguém. A vizinha de alguém. A menina que observa demais. Eu não sei que nome dão aos homens que comandam certas ruas. Eu não sei os detalhes das decisões que tomam. E, sinceramente, não quero saber. O que eu sei é que minha irmã está se aproximando de um mundo que exige dureza. E eu tenho medo de que, um dia, ela volte diferente. Ou que não volte. Fechei os olhos com uma certeza silenciosa: Eu posso morar na Rocinha. Posso ser cria daqui. Posso conhecer o som dos tiros antes mesmo de distinguir fogos. Mas eu ainda escolho quem eu sou. E, enquanto eu puder escolher… Eu não vou deixar que o barulho seja maior que a minha consciência. CONTINUA..
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