O céu estava limpo.
O mesmo céu do verão em que tudo mudou, pensou Natasha, enquanto caminhava com passos lentos pelas trilhas de terra batida. As folhas sussurravam ao vento e, ao fundo, o campo de girassóis finalmente surgia — intacto, dourado e silencioso.
Ali, naquele campo, ela e Henri haviam se despedido… mesmo sem saber.
Ele já a esperava. De costas. Como da última vez em seus sonhos.
Quando ela se aproximou, ele se virou.
Mas agora… ela o reconheceu.
O contorno do rosto.
O brilho nos olhos.
A forma como seu corpo relaxava ao vê-la.
Era o Henri do verão. O mesmo.
— Você veio. — ele disse, com a voz embargada.
— Você também.
Silêncio.
— Eu achei suas cartas. — ela falou, baixinho.
Henri sorriu, mas o olhar se encheu de dor.
— Você guardou?
— Minha mãe deve ter escondido. Estavam entre minhas coisas.
Henri assentiu. Olhou o campo ao redor, como quem revive cada detalhe da cena.
— Foi aqui que você disse que queria fugir de tudo. Que queria esquecer esse mundo.
— E parece que eu consegui. — ela respondeu com um sorriso triste.
— Mas eu nunca consegui esquecer você. — disse Henri, dando um passo à frente.
— Por que você foi embora, Henri? — a pergunta veio trêmula. — Me diz a verdade. Toda a verdade. Eu já não sou mais fraca.
Henri respirou fundo.
— Naquela noite... eu tinha decidido contar tudo pra você. Sobre o que o ex-vice estava fazendo. Sobre a manipulação na D.O.L. Eu sabia que corríamos perigo, mas você era minha luz naquele caos.
Ele baixou os olhos.
— Mas então... houve uma reunião de emergência com seu pai. Ele estava ameaçado, emocionalmente destruído, e... pediu que eu me afastasse. Disse que, se algo acontecesse com você por minha causa, ele nunca se perdoaria.
— E você aceitou?
— Não. Eu fui atrás de você. No parque. Você estava furiosa, e com razão. Eu corri atrás... e...
Ele fechou os olhos.
— O carro veio rápido demais. Eu te empurrei. Consegui te tirar da frente. Mas você bateu a cabeça. E eu... não lembro do impacto. Só acordei horas depois no hospital, com ordens para sumir da sua vida.
Natasha tremia.
— Meu pai escondeu você.
— Ele achava que te protegia. E eu deixei. Porque a única coisa que eu queria... era que você vivesse.
Ela o encarou, olhos marejados.
— E você viveu quebrado, longe. Esperando que um dia eu lembrasse.
Henri assentiu.
— Antes que você me esquecesse.
Natasha andou até ele. Estava a poucos centímetros de distância. O vento fazia os girassóis dançarem ao redor deles.
Ela segurou o colar.
— Henri... eu ainda não lembro de tudo. Mas lembrar deixou de ser o mais importante.
— O que é, então? — ele sussurrou.
Ela tocou o rosto dele com uma das mãos, delicada.
— O que meu coração sente quando estou com você. Isso é o que importa.
E, pela primeira vez, ela o beijou.
Sem lembrança. Sem certeza.
Apenas amor.
Instintivo.
Real.