O Retorno

731 Palavras
O som do despertador tocou como um lembrete incômodo de que aquele não seria um dia qualquer. A luz do sol atravessava a cortina de linho claro e dançava em seu rosto. Natasha apertou os olhos, ainda envolta por aquela preguiça boa de quem não quer levantar — mas hoje não era um dia para preguiça. Antes mesmo que pudesse se levantar, ouviu a voz animada: — Bom dia, maninha! — TaeHyung entrou no quarto com seu sorriso costumeiro. — Hoje é o grande dia. Ela revirou os olhos, tentando disfarçar o nervosismo. — Bom dia, Tae. TaeHyung sentou-se ao lado dela na cama, pegando suas mãos como faziam todas as manhãs. — Vamos orar? Natasha assentiu em silêncio. As palavras dele, simples, cheias de fé, trouxeram um conforto silencioso. Era impossível não se emocionar. Mesmo sem entender completamente o que havia vivido, ela sabia que havia algo maior que a sustentava. As memórias podiam falhar, mas a presença de Tae, de seus pais, e aquela fé simples, continuavam a ser seus pilares. Quando terminaram, TaeHyung sorriu: — Ei, chorona... vamos tomar café? Ela riu, já com os olhos marejados. — Vamos. O café da manhã estava posto, como sempre. Seus pais, Sr. e Sra. Lee, já a esperavam na mesa. Seu pai lia os relatórios do dia com a costumeira tensão no rosto. Sua mãe falava algo ao telefone com um cliente da D.O.L Entertainment, como se tentasse, em vão, fingir que aquele dia seria só mais um. — Bom dia, minha princesa. — sua mãe a cumprimentou com um beijo na testa. — Bom dia. O silêncio tenso foi interrompido pelo próprio Sr. Lee. — Estão todos prontos? — Eu vou me arrumar agora. A jovem subiu rapidamente as escadas, tentando conter o turbilhão de sentimentos. ‘É só uma entrevista’, repetia mentalmente. Mas não era. Era sua reapresentação ao mundo. No carro, o trajeto parecia mais longo do que o habitual. O trânsito, o movimento de fotógrafos e repórteres em frente à empresa, as ligações incessantes do seu pai, tudo era um lembrete da pressão que aguardava. Natasha tentava não pensar. Tentava respirar fundo, manter a compostura, mas seu estômago parecia dar voltas. — Está tudo isso por causa do novo vice-presidente? — perguntou, tentando se distrair. — Não, minha filha... Está tudo isso por sua causa. A mão da mãe repousou delicadamente sobre a sua perna. Tae sorriu para ela no banco de trás. — Todos querem ouvir sua história, maninha. Ela assentiu com um sorriso tímido, engolindo o medo. Quando saíram pela entrada lateral da empresa, o prédio de vidro n***o pareceu ainda mais imponente. E foi ali, ao colocar os pés no chão, que veio o primeiro impacto. Um ‘flash’. Um breve vislumbre. “Venha Naylee...” A voz masculina ecoou na sua mente como um sussurro perdido no tempo. Ela parou por instinto, levando a mão à cabeça. — Nay? — chamou Tae, preocupado. — Está tudo bem? Ela forçou um sorriso. — Sim... só um leve m*l-estar. Mas por dentro, a inquietação crescia. Ela conhecia aquela voz. Ou achava que conhecia. Mas por que o nome Naylee? Por que soava tão familiar, mesmo que estranho? Antes que pudesse mergulhar mais fundo nessa confusão interna, chegaram à sala de espera da entrevista. Ali, cercada de câmeras e microfones, o coração de Natasha batia tão alto que parecia querer sair pela boca. Foi então que ouviu a voz que marcaria o início de um novo ciclo. Suave. Gentil. Familiar, de um jeito inexplicável. — Não precisa ficar nervosa. Ela virou o rosto e viu o homem alto, de terno azul-marinho, cabelo n***o perfeitamente penteado, lábios rosados. Os olhos dele encontraram os dela — e por um breve instante, o tempo pareceu parar. Havia algo ali. — Perdoe minha intromissão. Sou Enrique Seok Myung. Ele estendeu a mão num gesto educado. Ao tocar a mão dele, um choque elétrico percorreu seu corpo. Ela puxou a mão num reflexo rápido, tentando disfarçar o susto. A mente dela girava. Algo dentro de si gritou: "Você já o conhece." Mas a lógica, fria e racional, sussurrou: "É apenas um desconhecido educado." — Natasha Lee Ferraz.  Ela sorriu, sem conseguir esconder a confusão em seus olhos. E assim, o passado e o presente voltaram a se encontrar. Sem que ela soubesse… sua história real estava apenas começando.
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