O som do despertador tocou como um lembrete incômodo de que aquele não seria um dia qualquer.
A luz do sol atravessava a cortina de linho claro e dançava em seu rosto. Natasha apertou os olhos, ainda envolta por aquela preguiça boa de quem não quer levantar — mas hoje não era um dia para preguiça.
Antes mesmo que pudesse se levantar, ouviu a voz animada:
— Bom dia, maninha! — TaeHyung entrou no quarto com seu sorriso costumeiro. — Hoje é o grande dia.
Ela revirou os olhos, tentando disfarçar o nervosismo.
— Bom dia, Tae.
TaeHyung sentou-se ao lado dela na cama, pegando suas mãos como faziam todas as manhãs.
— Vamos orar?
Natasha assentiu em silêncio.
As palavras dele, simples, cheias de fé, trouxeram um conforto silencioso. Era impossível não se emocionar. Mesmo sem entender completamente o que havia vivido, ela sabia que havia algo maior que a sustentava. As memórias podiam falhar, mas a presença de Tae, de seus pais, e aquela fé simples, continuavam a ser seus pilares.
Quando terminaram, TaeHyung sorriu:
— Ei, chorona... vamos tomar café?
Ela riu, já com os olhos marejados.
— Vamos.
O café da manhã estava posto, como sempre.
Seus pais, Sr. e Sra. Lee, já a esperavam na mesa. Seu pai lia os relatórios do dia com a costumeira tensão no rosto. Sua mãe falava algo ao telefone com um cliente da D.O.L Entertainment, como se tentasse, em vão, fingir que aquele dia seria só mais um.
— Bom dia, minha princesa. — sua mãe a cumprimentou com um beijo na testa.
— Bom dia.
O silêncio tenso foi interrompido pelo próprio Sr. Lee.
— Estão todos prontos?
— Eu vou me arrumar agora.
A jovem subiu rapidamente as escadas, tentando conter o turbilhão de sentimentos.
‘É só uma entrevista’, repetia mentalmente.
Mas não era.
Era sua reapresentação ao mundo.
No carro, o trajeto parecia mais longo do que o habitual. O trânsito, o movimento de fotógrafos e repórteres em frente à empresa, as ligações incessantes do seu pai, tudo era um lembrete da pressão que aguardava.
Natasha tentava não pensar. Tentava respirar fundo, manter a compostura, mas seu estômago parecia dar voltas.
— Está tudo isso por causa do novo vice-presidente? — perguntou, tentando se distrair.
— Não, minha filha... Está tudo isso por sua causa.
A mão da mãe repousou delicadamente sobre a sua perna. Tae sorriu para ela no banco de trás.
— Todos querem ouvir sua história, maninha.
Ela assentiu com um sorriso tímido, engolindo o medo.
Quando saíram pela entrada lateral da empresa, o prédio de vidro n***o pareceu ainda mais imponente. E foi ali, ao colocar os pés no chão, que veio o primeiro impacto.
Um ‘flash’.
Um breve vislumbre.
“Venha Naylee...”
A voz masculina ecoou na sua mente como um sussurro perdido no tempo.
Ela parou por instinto, levando a mão à cabeça.
— Nay? — chamou Tae, preocupado. — Está tudo bem?
Ela forçou um sorriso.
— Sim... só um leve m*l-estar.
Mas por dentro, a inquietação crescia. Ela conhecia aquela voz. Ou achava que conhecia. Mas por que o nome Naylee? Por que soava tão familiar, mesmo que estranho?
Antes que pudesse mergulhar mais fundo nessa confusão interna, chegaram à sala de espera da entrevista.
Ali, cercada de câmeras e microfones, o coração de Natasha batia tão alto que parecia querer sair pela boca.
Foi então que ouviu a voz que marcaria o início de um novo ciclo.
Suave. Gentil. Familiar, de um jeito inexplicável.
— Não precisa ficar nervosa.
Ela virou o rosto e viu o homem alto, de terno azul-marinho, cabelo n***o perfeitamente penteado, lábios rosados.
Os olhos dele encontraram os dela — e por um breve instante, o tempo pareceu parar.
Havia algo ali.
— Perdoe minha intromissão. Sou Enrique Seok Myung.
Ele estendeu a mão num gesto educado.
Ao tocar a mão dele, um choque elétrico percorreu seu corpo. Ela puxou a mão num reflexo rápido, tentando disfarçar o susto.
A mente dela girava.
Algo dentro de si gritou:
"Você já o conhece."
Mas a lógica, fria e racional, sussurrou:
"É apenas um desconhecido educado."
— Natasha Lee Ferraz.
Ela sorriu, sem conseguir esconder a confusão em seus olhos.
E assim, o passado e o presente voltaram a se encontrar.
Sem que ela soubesse… sua história real estava apenas começando.