capítulo 1

1760 Palavras
Helena Evelyn Agora que estou prestes a completar os tão aguardados dezoito anos, sinto o coração bater mais forte a cada dia. Em breve, partirei rumo a São Paulo, para enfrentar de frente a imensidão da cidade e conquistar o que, até então, parecia um sonho distante: me tornar modelo. Mas não é só um sonho — é uma meta, um desejo que arde em mim como o sol da Bahia. Eu sei que será difícil, mas também sei que não posso falhar. Com determinação, qualquer barreira pode ser superada, e estou disposta a deixar tudo para trás, até mesmo as pessoas que mais amo, para perseguir o meu destino. A decisão de partir não foi fácil. Deixar minha família e o pouco que conheço em busca de um futuro incerto traz um aperto no peito. Vou precisar de um trabalho para me sustentar, algo que me permita viver enquanto batalho por um espaço na moda. Mas eu jurei a mim mesma que, mesmo trabalhando em outra área, nunca vou parar de procurar agências, de mostrar minhas fotos e de me fazer notar. Desde os quinze anos, venho capturando minha imagem como uma promessa silenciosa de tudo que posso ser, e agora chegou a hora de cumprir essa promessa. Minha história começa em uma região rural da Bahia, onde as coisas nunca foram fáceis. Aqui, a vida é uma batalha contra a terra e o sol, tanto para mim quanto para meus pais. Desde criança, observo-os trabalhar sob um calor escaldante, enfrentando temperaturas que não raro passam dos quarenta graus, lutando para colocar comida na mesa e m*l conseguindo suprir nossas necessidades mais básicas. E ainda assim, a nossa pequena casa, com apenas dois cômodos e quase nada de conforto, sempre foi um lugar de amor. Dormimos juntos, no chão, sobre esteiras de palha de bananeira seca. Meu pai fez, com suas próprias mãos, uma cama simples para minha mãe, mas ele mesmo dorme no chão. Esse é o lugar onde cresci, e é ele que estou deixando para trás. Trabalhei na colheita desde os quinze anos, ao lado deles, com a pele queimada de sol e as mãos machucadas, mas sempre com o coração repleto de sonhos. Foi o estudo que me trouxe esperança — a chance de enxergar além dos campos de pimenta e das lavouras, de imaginar um futuro onde eu pudesse ser mais diferente. Meus pais sabem que meu desejo é forte, que minha decisão é sólida. E mesmo com lágrimas nos olhos, me apoiam. São pessoas como eles que me impulsionam a ir além, a querer ser a mudança. Em São Paulo, vejo uma vida nova, uma oportunidade de não apenas me tornar modelo, mas também de estudar Moda e, quem sabe, me tornar uma referência para outras garotas como eu. Esse é o começo de uma batalha que promete tanto suor quanto sonhos. Levarei comigo a força da minha terra e a vontade de transformar o futuro. Cada passo que darei será também por eles, e um dia, prometo, voltarei para construir uma casa onde terão o conforto que sempre mereceram. Essa é a minha luta, minha promessa e minha verdade. E estou pronta para conquistar o que parece impossível, não só por mim, mas por tudo e todos que amo. Apesar das dificuldades, sinto uma força avassaladora me impulsionando. Sou jovem, determinada, e tenho a certeza de que meu destino é brilhar. Cada passo que dou é uma promessa de que nada será capaz de me parar — não importa quantos obstáculos surjam, vou me tornar uma referência, seja como modelo ou em qualquer outro caminho que decida trilhar. Estou disposta a enfrentar o que vier, pois meu objetivo é claro: trazer dignidade e alegria para minha família, que tanto amo. Na colheita, meu trabalho diário me rende menos de trinta reais, mas nunca reclamei. Esse dinheiro ajuda a manter nossa casa e, com sacrifício, também paguei algumas sessões de fotos com um fotógrafo local. Lembro-me das palavras dele, cada elogio me dava mais confiança. "Você é única diante das câmeras", ele dizia, sempre destacando minha fotogenia. Isso me fazia acreditar que, apesar das dificuldades, a vida tinha algo grandioso reservado para mim. Agora, com dezoito anos recém-completados e o ensino médio concluído, estou pronta para o próximo grande passo: a universidade. Meu sonho é trabalhar duro, economizar e, um dia, poder comprar uma casa para meus pais, com mais quartos, camas confortáveis e tudo o que eles merecem. Prometi a eles que essa casa seria uma realidade, e jurei a mim mesma que cumpriria essa promessa. Mas em meio a tantos sonhos e planos, há algo que ainda não experimentei, algo que me deixa inquieta: o primeiro amor. Quero sentir o frio na barriga, o coração disparando, as mãos trêmulas — tudo aquilo que leio nos meus livros favoritos. A Saga Crepúsculo e A Culpa é das Estrelas me fazem mergulhar em histórias de amor intensas, e cada vez me pergunto: será que o amor dos livros é real? Será que, em algum lugar, existe alguém que vai despertar em mim essas emoções arrebatadoras? Enquanto esse amor não chega, alimento minha imaginação com as páginas de romances, onde vivo cada história como se fosse minha. Às vezes, me pego sonhando acordada, desejando vivenciar um sentimento tão genuíno quanto o que vejo entre meus pais. O amor deles é sólido, quase palpável, e, apesar de tudo que enfrentaram juntos, ainda há uma alegria constante em seus olhares. Se algum dia eu tiver a sorte de encontrar alguém assim, espero que seja um amor eterno, intenso e verdadeiro, como o deles. Mas, por enquanto, continuo com meus pés firmes no caminho que escolhi. Carrego meus sonhos como bandeiras e a certeza de que o futuro guarda grandes realizações para mim. Embora, às vezes, ocorram pequenos desentendimentos, meus pais nunca se afastaram um do outro. Enquanto outras pessoas que conheço testemunharam o abandono de seus lares em busca de uma nova vida, meus pais permaneceram firmes, unidos. O relacionamento deles é sustentado por uma confiança inabalável, onde não há segredos nem mentiras; tudo entre eles é compartilhado. Às vezes, me pego imaginando como seria se um dia esse amor entre eles enfraquecesse. Mas, na verdade, vejo o contrário: o amor entre meus pais só parece crescer com o tempo. A cumplicidade deles é tanta que, em alguns momentos, preciso pedir para que diminuam as demonstrações de carinho quando estou por perto, mas, no fundo, isso me faz sorrir. Entre risadas e olhares cúmplices, meus pais sempre me dizem que, quando o amor surgir em minha vida, ele será tão intenso e verdadeiro quanto o deles, ou talvez até maior. Se algum dia eu encontrar alguém para compartilhar a minha vida, desejo que seja um amor que resista a todas as tempestades e que floresça, assim como o deles. Eles são meu maior exemplo de força e resiliência. Em tempos difíceis, quando a comida parece escassa, sempre encontram uma maneira de garantir que nunca nos falte nada. Graças à generosidade da nossa terra, sempre conseguimos colher alguma fruta ou alimento para nos sustentar, e isso faz com que nossa mesa, mesmo simples, nunca esteja vazia. Vivemos com o essencial, mas o que temos é suficiente para nos fazer felizes. Eu admiro a forma como meu pai cuida de minha mãe com um carinho que só aumenta. Mesmo após vinte anos de casamento, ele ainda a trata com a mesma atenção, como se cada dia fosse o primeiro. Essa relação, construída sobre afeto e lealdade, é a base do meu conceito de amor. E se algum dia eu tiver a sorte de encontrar um parceiro, quero que ele seja como meu pai, que mesmo na simplicidade, faz tudo para que minha mãe se sinta a mulher mais amada do mundo. Apesar de sonhar com o amor, sei que jamais abriria mão da minha profissão. Quem quer que um dia venha a ser meu parceiro terá que compreender e apoiar minhas escolhas, sem questionar meu compromisso com a minha carreira. Mas, por enquanto, o amor é um pensamento distante. Sou jovem e ainda tenho um longo caminho a trilhar. Meu foco é o trabalho e a estabilidade financeira que posso conquistar, para dar aos meus pais a tranquilidade que merecem. Outros sonhos terão de esperar. Eu acredito profundamente que o universo tem seu tempo, e que com paciência, as coisas vão se alinhar. Minha jornada será positiva; confio que um dia vou alcançar tudo o que tanto almejo. Me sinto abençoada por ter ao meu redor pessoas generosas e amigas queridas que me compreendem e apoiam. Elas sabem da minha paixão por livros e já me presentearam com volumes preciosos. Se dependesse do que ganho na colheita, nunca poderia me dar a esse luxo; meu salário m*l cobre o básico, mas ainda assim, economizo um pouco sempre que posso. Esse pequeno fundo representa minha esperança, meu combustível para continuar sonhando. Entrego uma parte do meu salário aos meus pais, mesmo quando insistem para que eu guarde tudo para mim. Ainda assim, conservo uma pequena reserva, acumulando o suficiente para dar os primeiros passos no meu caminho. Tenho um cofrinho em forma de porquinho, chamado Bene, onde deposito cada moeda com carinho. Logo terei que quebrá-lo para dar início aos meus planos, e isso me entristece. É um símbolo da minha luta e do meu apego, mas sei que é um sacrifício necessário. Amo animais e sonho em ter minha própria casa cheia de vida, com um cachorro, um gato e talvez mais. Mas por enquanto, essa vontade fica apenas na imaginação. Sei que não temos condições de alimentar um animal, e isso seria um peso para todos nós. Me doeria ver um ser inocente sofrendo como nós. Um dia, quando conquistar o que desejo, espero poder dar uma vida digna não só aos meus pais, mas também a esses companheiros que tanto amo. Meu maior desejo é conquistar reconhecimento e sucesso, não só para mim, mas para transformar a vida dos meus pais, que enfrentam tantas dificuldades com uma força que me inspira. A sensação de impotência é uma dor constante, um peso no coração que não consigo ignorar. Todo meu trabalho parece insignificante diante do que realmente precisamos, e é frustrante. O salário é tão baixo que às vezes sequer dá para comprar carne. Essa é a nossa realidade. Mas a esperança ainda vive em mim. Sei que, com esforço, resiliência e determinação, posso mudar nossa história. Meu coração me diz que dias melhores estão por vir.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR