Observada

682 Palavras
Um deles se levantou. Lento. Calculado. Quando percebi, ele já estava na minha frente. A mão dele subiu… e, antes que eu reagisse, seus dedos se fecharam no meu cabelo, puxando levemente minha cabeça para trás. Não foi agressivo. Foi… controle. Meu corpo arrepiou inteiro. — Então… são vocês — falei, tentando manter a voz firme, mesmo com o coração acelerado. Silêncio. Eles não responderam. Respirei fundo, reunindo o pouco de sanidade que ainda restava. — Olha, aquilo foi uma burrice do meu pai — disparei. — Resolvem com ele. Eu não tenho nada a ver com isso. Eu estou muito bem vivendo a minha vida aqui. Dei um passo para trás, tentando recuperar espaço. — E vocês já me viram, já perceberam. Não adianta aparecer aqui achando que eu vou simplesmente obedecer. Eu não vou embora com vocês. Não vou virar mulher de ninguém. Muito menos escolher entre vocês. Um deles riu. Baixo. Perigoso. — Você não vai escolher. Meu estômago virou. — Como assim? — Como a gente disse… Outro deu um passo à frente. — Você não escolhe. Meu coração disparou. — Então… — engoli seco — quer dizer que eu fui prometida pra três… Levantei o olhar, encarando cada um deles. — E vou ter que ficar com três? — Exatamente. Eu ri. Não de humor. De incredulidade. — Ah, não… isso só pode ser uma piada. Passei a mão no rosto, tentando acordar. — Não, sério… eu ainda tô dormindo. Não é possível. Não é possível que vocês aparecem aqui do nada, no meio da noite, usando máscara e dizem que eu sou de vocês três. Balancei a cabeça. — Vocês nem me conhecem. — Conhecemos. Minha respiração falhou. — Como? O homem do meio inclinou levemente a cabeça. — Nós te observamos há meses. Silêncio. Frio. — Ou melhor… anos. Meu corpo travou. — Ah, claro… — ri nervosa — meus “admiradores secretos”, né? O da esquerda descruzou os braços. Meus olhos automaticamente desceram para a mão dele. Veias saltadas. Forte. Marcante. Meu corpo reagiu antes da minha mente. Se controla, Fernanda. — Nós estamos sempre aqui — ele disse. A voz. Aquela voz. Entrou em mim como um choque. Grave. Segura. Dominante. Por um segundo… Eu me perdi nela. Mas despertei. — O quê? — dei um passo atrás. — Como assim vocês estão sempre aqui? — Sempre. E então… Tudo começou a fazer sentido. O copo que eu jurava ter deixado na pia… e sumia. A porta que eu tinha certeza que estava trancada… e aparecia aberta. As noites em que eu acordava com a sensação de estar sendo observada. Meu coração acelerou. — Não… — murmurei. — Isso… isso não… — Fernanda — o do meio falou, firme — nós acompanhamos o seu dia a dia. Cada palavra era um golpe. — Vimos você cantar. Dançar. Cozinhar. Reclamar com suas amigas no celular… Meu sangue gelou. — Isso é invasão de privacidade! Um deles riu. — Invasão? Ele deu um passo mais perto. — Você é a nossa noiva… e fugiu da gente. Fiquei sem resposta. Sem ar. Sem reação. — Então vocês viram tudo? — minha voz saiu mais baixa. — Tudo. O silêncio pesou. E então… — Inclusive… — o da direita inclinou a cabeça — seu gosto por dark romance. Fechei os olhos por um segundo. Não. Não. Não. — Os livros — ele continuou. — Os filmes. A forma como você se perde neles. Levei a mão ao rosto. — Vocês estão de brincadeira… — Sua gaveta… Meu coração parou. — Com a sua caixinha de brinquedos. Abri os olhos na mesma hora. — NÃO. Eles riram. Baixo. Provocador. — Foi difícil não participar — um deles disse, a voz carregada de intenção. — Acredite. Meu rosto queimou. Eu tinha certeza… Estava vermelha como meu próprio cabelo. E eles perceberam. Claro que perceberam. Porque continuavam ali… Me olhando. Como se já fossem donos de tudo. De cada reação. De cada pensamento. De mim. E o pior… Era que uma parte de mim… Não estava tentando fugir.
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