Capítulo 25

1020 Palavras
Capítulo 25 — A Verdade nas Luzes O dia começou com uma enxurrada de mensagens e ligações. Alguém — talvez um ex-funcionário de Ricardo, talvez a própria imprensa farejando escândalo — havia vazado parte das informações sobre Nina Alves. Não havia fotos comprometedoras, mas bastava o nome para reacender os boatos. As manchetes voltaram com força: > “Quem é, afinal, Aline Méndez?” “O retorno da misteriosa Nina Alves.” “A mulher por trás da nova empresa de Paulo Bianchi.” Paulo desligou o celular após a quinta ligação de um repórter. Olhou pela janela do escritório e suspirou. Aline estava sentada à mesa, quieta, os olhos fixos na tela do computador — mas ele sabia que ela não lia nada. — Quer que eu cuide disso? — perguntou ele. — Posso dar uma coletiva, responder à imprensa. Ela levantou o olhar, e o que ele viu o surpreendeu: não havia medo. Havia determinação. — Não, Paulo. — disse ela. — Dessa vez, sou eu quem vai falar. --- Dois dias depois, a Alvore Hotels convocou uma entrevista coletiva. Jornalistas de todos os grandes veículos compareceram, curiosos e impacientes. Esperavam um novo escândalo, uma retratação, talvez até um rompimento. Mas o que encontraram foi Aline — calma, serena, com o olhar firme e um sorriso contido. Vestia um terno branco simples, os cabelos presos em um coque solto, os óculos discretos. Não havia artifício, não havia disfarce. Quando os flashes começaram, ela respirou fundo e iniciou: — Boa tarde. Antes de começarem as perguntas, eu quero contar uma história. A sala silenciou. — Há alguns anos, eu era apenas uma jovem tentando sobreviver. Minha mãe estava doente, e eu precisava de dinheiro para cuidar dela. Trabalhei onde pude, e, em determinado momento, usei outro nome — Nina Alves. Não para enganar ninguém, mas para conseguir o que a vida não me dava: uma chance. Alguns jornalistas se entreolharam, surpresos com a franqueza. Mas Aline continuou, firme. — Eu fui criticada por isso. E entendo. Porque, às vezes, o mundo não perdoa quem é sincero demais. Mas eu aprendi que não há vergonha em fazer o que é preciso, quando o coração está no lugar certo. Ela fez uma breve pausa, e seu olhar se voltou diretamente para uma das câmeras. — Hoje, sou a diretora de uma empresa que acredita na segunda chance. A Alvore nasceu porque alguém acreditou em mim, mesmo quando o resto do mundo duvidava. E é isso que queremos oferecer aos nossos hóspedes e parceiros: um lugar onde ninguém precise esconder quem é. A emoção era palpável. Um repórter levantou a mão. — Senhorita Méndez, a senhora confirma, então, o relacionamento com o senhor Bianchi? Ela respirou fundo, e um pequeno sorriso se desenhou. — Confirmo que ele é o homem mais íntegro que conheci. E que, sem ele, eu talvez nunca tivesse encontrado coragem pra ser quem sou. Paulo, sentado discretamente ao fundo da sala, sentiu o peito apertar. Não por orgulho — mas por amor. --- A entrevista se espalhou rapidamente. Em poucas horas, os vídeos de Aline viralizaram nas redes. Mas, ao contrário do que todos esperavam, a repercussão foi positiva. Mensagens começaram a chegar de mulheres de todo o país: “Obrigada por falar o que tantas de nós sentimos.” “Você me inspirou.” “Não é vergonha lutar pra sobreviver.” Os jornais, antes ávidos por escândalo, agora estampavam manchetes diferentes: > “De Nina a Aline: a história de superação que emocionou o país.” “A coragem de ser quem se é.” O conselho da antiga Bianchi Hotels, ao ver a reação do público, tentou uma aproximação. Mas Paulo recusou qualquer proposta. — Não quero voltar. — disse ele. — O que temos agora é mais verdadeiro do que qualquer logotipo. --- Naquela noite, Aline e Paulo foram jantar em um pequeno restaurante no bairro de Pinheiros. Sem seguranças, sem reservas especiais. Apenas dois copos de vinho e uma mesa à luz de velas. — Você foi incrível. — disse ele, ainda com o olhar emocionado. Ela riu, aliviada. — Eu tremia por dentro. — E mesmo assim, fez o que muita gente poderosa não teria coragem de fazer. — Eu só... cansei de fugir. — disse ela, baixando o olhar. — Passei tanto tempo tentando esconder partes de mim que quase esqueci quem era. Paulo pegou a mão dela sobre a mesa. — Agora o mundo conhece a mulher que eu sempre vi. Aline sorriu, tímida, mas com os olhos brilhando. — Você acredita mesmo que a tempestade passou? Ele inclinou-se ligeiramente. — Não sei. Mas, se chover, podemos dançar na chuva. Ela riu. E, naquele instante, entendeu que, pela primeira vez, não havia medo, nem máscaras, nem segredos. Só eles — dois corações que tinham sobrevivido a tudo. --- Nos dias seguintes, as reservas nos hotéis da Alvore dispararam. As pessoas queriam conhecer “o lugar onde a verdade começou”. E, aos poucos, o império de Paulo e Aline cresceu — não movido por aparências, mas por propósito. Henrique, sempre brincalhão, comentou certa tarde: — Eu avisei que essa história ia render. Aline sorriu. — Rendeu mais do que eu podia imaginar. --- Na última cena do dia, quando o escritório já estava vazio, Aline ficou sozinha olhando o pôr do sol pela janela. O céu estava alaranjado, e o reflexo dourado se espalhava pelo vidro. Paulo se aproximou em silêncio e colocou a mão sobre o ombro dela. — Está pronta pra próxima fase? — perguntou ele. Ela virou-se e respondeu com serenidade: — Sempre estive. Só precisei lembrar quem eu era. Os dois se olharam por um instante, e o mundo pareceu caber naquele olhar. Um amor que começou em segredo, sobreviveu à exposição e, agora, brilhava à luz do dia. Enquanto o sol se escondia, o reflexo da ampulheta sobre a mesa parecia brilhar com uma nova cor. A areia continuava a cair — como sempre —, mas, agora, Aline sabia: não era o tempo que a controlava. Era ela quem o transformava em destino.
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