Capítulo 21

1107 Palavras
Capítulo 21 — O Passado de Nina A noite estava fria, e Aline não conseguia dormir. A cidade, vista da janela do pequeno apartamento, parecia pulsar em silêncio, como se respirasse junto com ela — cada luz distante, um pensamento, uma lembrança, um arrependimento. Do outro lado do vidro, a própria imagem refletida parecia uma estranha. Sem os óculos, sem o coque apertado, com o cabelo solto e a pele cansada, ela não era mais a secretária impecável da Bianchi Hotels. Era apenas ela — Aline Méndez. Ou, talvez, Nina Alves, a mulher que tentava esquecer. O nome “Nina” havia nascido de uma noite de desespero. Cinco anos antes, Aline era apenas uma jovem formada em administração, vinda de uma família simples do interior de São Paulo. Seu pai, Augusto Méndez, havia sido gerente de um pequeno hotel em Campos do Jordão; homem honesto, mas vencido pela vida. A mãe, Dolores, costureira. Trabalhadora, doce — mas doente. Quando a mãe adoeceu, Aline precisou de dinheiro rápido. As entrevistas de emprego não vinham, e os currículos eram ignorados. Até que, num evento empresarial, uma amiga a convenceu a tentar algo “diferente”: trabalhar como recepcionista e anfitriã em jantares de empresários, usando um nome artístico. “É só conversar, sorrir, segurar uma taça. Nada mais”, dissera a amiga. E assim nasceu Nina Alves. Nina era o oposto de Aline: confiante, ousada, elegante, sempre com um vestido que chamava atenção e uma risada que não pedia desculpas. Com o dinheiro que ganhou, pagou o tratamento da mãe. E, pouco a pouco, começou a se destacar — não pela aparência, mas pela inteligência com que conduzia conversas. Homens poderosos se encantavam com sua perspicácia. Mulheres ricas pediam sua opinião sobre negócios. E foi em um desses eventos que ela viu, pela primeira vez, Paulo Daniel Bianchi. Ele estava em uma palestra sobre expansão hoteleira. Falava com convicção, voz firme, gestos calculados. Nina — Aline — o observou de longe, sem imaginar que o destino voltaria a cruzá-los. Lembrava-se bem daquele momento: como ele rejeitara uma proposta milionária porque envolvia demissões injustas; como a honestidade dele a impressionara. E foi ali, no meio de uma multidão, que Aline prometeu a si mesma: um dia, eu vou trabalhar para um homem como ele. Nunca imaginou que seria o próprio. Meses depois, deixou de ser Nina. A mãe faleceu, e com ela, a necessidade daquele disfarce. Aline guardou o nome como quem fecha uma caixa — uma parte de si que não queria mais abrir. E então veio a vaga na Bianchi Hotels. Ela se inscreveu sem esperanças, mas foi chamada. Paulo não a reconheceu. E ela decidiu não lembrá-lo. — “Se ele souber, vai achar que fui atrás dele de propósito”, — dissera a si mesma. E assim começou o jogo silencioso que agora a sufocava. Enquanto Aline revivia o passado, do outro lado da cidade, Paulo enfrentava o conselho. A sala estava cheia, e os olhares — frios. Munhoz falava com sua voz untuosa: — Senhor Bianchi, não é apenas sobre ética. É sobre confiança. Sua secretária tem um passado... digamos, controverso. Paulo o encarou com calma. — Um passado não define uma pessoa, Munhoz. Se define, o seu conselho já estaria vazio. Houve um murmúrio contido. Mas Munhoz insistiu: — A imprensa já apelidou a situação de “o caso Bianchi & Nina”. A senhorita Méndez usava um nome falso para frequentar círculos de empresários. Isso, convenhamos, não é comum. Paulo apoiou as mãos na mesa. — Ela fazia o que precisava pra sobreviver. Pra cuidar da mãe doente. — A voz dele se elevou. — E se o senhor tivesse um pingo de humanidade, saberia reconhecer coragem quando a visse. Um dos diretores, até então calado, falou: — Então confirma que sabia de tudo? Paulo hesitou por um instante. Sabia que dizer sim o condenaria. Mas dizer não seria negar Aline. Ele inspirou fundo. — Sabia o suficiente pra confiar nela. E isso basta. O murmúrio cresceu. Munhoz sorriu, satisfeito. — Então o senhor admite envolvimento pessoal. — Admito humanidade. — respondeu Paulo. — Algo que parece raro por aqui. Enquanto isso, Aline foi chamada a depor informalmente. Sentou-se diante de uma mesa longa, com três membros do conselho e um advogado. — Senhorita Méndez, pode nos explicar o nome “Nina Alves”? — perguntou a diretora, num tom falso de gentileza. Aline respirou fundo. — Posso. Era um nome que usei quando precisava ajudar minha mãe. Eu não tinha dinheiro, não tinha contatos. Só coragem. Um dos homens anotava, impassível. — Coragem... ou ambição? — perguntou ele, seco. Ela levantou o olhar. — Coragem. Ambição é o que move quem pisa nos outros. Eu só tentei não ser esmagada. O silêncio que se seguiu foi quase respeitoso. Mesmo entre os julgadores, havia quem se comovesse. Mas Munhoz, que observava à distância, sorria em segredo. Sabia que as palavras certas podiam emocionar, mas as manchetes ainda falavam mais alto. --- No final da tarde, Aline saiu do prédio pela última vez — por enquanto. O vento soprava frio, e ela apertava o casaco no corpo. De repente, o celular vibrou: uma mensagem de Paulo. > “Não diga nada à imprensa. Eu cuido disso. E, Aline... nunca mais tenha vergonha de quem você foi. — P.” Ela sentiu as lágrimas virem — não de fraqueza, mas de alívio. Porque, pela primeira vez, alguém não a olhava com julgamento. Mas com entendimento. Na mesma noite, Paulo marcou uma coletiva de imprensa. Os jornalistas lotaram o salão principal do hotel. Câmeras, flashes, microfones. Henrique tentava convencê-lo a cancelar. — Vai se queimar junto com ela. — disse. — Se eu não fizer isso, ela será queimada sozinha. — respondeu Paulo. E quando os repórteres começaram as perguntas, ele não hesitou. — Sim, conheço Aline Méndez. Sim, confio nela plenamente. E, se a empresa considerar isso um problema, posso resolver de forma simples: renuncio ao cargo. O salão inteiro reagiu em choque. As câmeras dispararam. Munhoz, que assistia ao vivo, empalideceu. Paulo continuou, firme: — Aline não é uma mentira. Ela é a prova de que a verdade às vezes precisa de coragem pra ser dita. E, se isso for errado, então prefiro estar errado ao lado dela. Horas depois, Aline assistia à transmissão pela televisão, sozinha em seu apartamento. Quando ouviu as últimas palavras dele, levou a mão à boca, chorando em silêncio. > “Prefiro estar errado ao lado dela.” E, no fundo, soube: por mais que o mundo tentasse separá-los, já era tarde demais.
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