Capítulo 19

1178 Palavras
Capítulo 19 — Entre a Vitória e o Vazio A vitória veio sem aplausos. Nenhum brinde, nenhum parabéns entusiasmado. Apenas o eco dos passos de Paulo e Aline nos corredores da Bianchi Hotels, agora mais silenciosos do que nunca. Aline achava curioso como o triunfo podia parecer tão... vazio. Sim, ele permanecera como CEO. Sim, a verdade prevalecera. Mas algo dentro dela sussurrava que aquilo era apenas o início — que por trás da calmaria, outras tempestades se formavam, invisíveis. --- Na manhã seguinte, ela chegou cedo, como sempre. O sol entrava tímido pelas janelas, refletindo o brilho frio dos computadores. Na mesa, um envelope de papel creme a esperava. O nome dela, escrito à mão. Reconheceu a caligrafia de Paulo antes mesmo de abrir. > “Aline, Hoje não há reuniões, nem conselhos, nem estratégias. Só queria que soubesse o quanto admiro a força com que enfrentou tudo. Não como minha funcionária, mas como alguém que eu confio — talvez mais do que confio em mim mesmo. P.D.B.” Ela leu três vezes, como quem tenta gravar cada palavra no coração. Depois, guardou o bilhete na agenda, entre as páginas do mês em que tudo começara. E sorriu — não o sorriso de quem vence, mas o de quem finalmente é vista. --- Do outro lado do prédio, Paulo observava a cidade da cobertura de vidro. Tinha dormido pouco, mas pela primeira vez em muito tempo, não se sentia cansado. Henrique entrou discretamente. — Achei que hoje você ia tirar o dia. — brincou. — E deixar Munhoz comemorar sozinho? — Paulo respondeu, com meio sorriso. Henrique riu, mas depois ficou sério. — Você sabe que ele não vai desistir. — Eu também não. — respondeu Paulo, firme. — E agora tenho um motivo ainda maior pra não recuar. Henrique arqueou uma sobrancelha. — Aline? Paulo desviou o olhar para a janela. — Não finge que não percebeu. — Percebi há meses. Só não sabia se você ia admitir. Paulo respirou fundo. — Não é simples, Henrique. Ela é minha funcionária, há ética, há o passado dela... — E há você, que não disfarça o que sente quando ela entra na sala. Paulo sorriu, cansado. — Às vezes acho que ela é o único lugar onde o mundo para de girar. Henrique apenas assentiu. — Então segura firme. Porque, se eu conheço Munhoz, ele vai usar exatamente isso contra você. --- Aline passou o dia revisando relatórios, atendendo ligações, tentando manter a rotina como escudo. Mas cada gesto parecia carregado de novo significado. Até o perfume que Paulo usava — antes apenas parte do ambiente — agora parecia um lembrete invisível da conexão que os unia. À tarde, enquanto organizava uma reunião externa, ele a chamou em sua sala. — Fecha a porta, por favor. — disse, sem levantar os olhos do notebook. Ela obedeceu, um pouco apreensiva. Ele terminou de digitar e então a olhou — um olhar que dizia mais do que as palavras. — Você leu o bilhete? — Li. — respondeu, com um leve rubor. — Achei que sim. — ele sorriu. — Foi a primeira coisa que pensei em fazer quando cheguei. — Paulo, você não precisava... — Eu precisava, sim. — interrompeu, gentilmente. — Porque há coisas que a gente precisa dizer antes que o silêncio diga por nós. Ela o fitou por alguns segundos, sentindo o coração acelerar. E então desviou o olhar, tentando manter o tom profissional. — E o conselho? Alguma repercussão? — Vão tentar me desgastar. Mas não vou cair. — respondeu. — Tenho você ao meu lado. Houve um instante de silêncio. Um silêncio cheio de tudo o que ainda não podiam viver. Aline ajeitou os óculos, disfarçando a emoção. — Então... seguimos? — Seguimos. — disse ele, e o sorriso que deu depois era quase um voto. --- Nos dias que se seguiram, a vida na empresa começou a se reequilibrar. Mas, entre os olhares de sempre e as novas tensões veladas, algo havia mudado. Paulo e Aline estavam mais próximos — não por gestos, mas por sintonia. Eles sabiam o que o outro pensava antes que fosse dito. Dividiam o mesmo silêncio durante reuniões, a mesma leve ironia quando Munhoz falava demais, o mesmo cansaço no fim de cada dia. Era como se tivessem aprendido uma nova forma de estar juntos — discreta, íntima e profunda. --- Certa tarde, ao final do expediente, Aline foi surpreendida por uma notificação interna: “Convite para o evento anual Bianchi Hotels — Jantar de Gala.” Ela hesitou. Nunca fora do tipo que gostava de se expor. Mas algo dentro dela, talvez o mesmo instinto que criara “Nina Alves”, sussurrou: vai. Talvez fosse hora de deixar o mundo ver o que Paulo já começava a enxergar. --- Na sexta-feira do evento, a cidade inteira parecia respirar outro ar. Os refletores iluminavam o salão principal do Hotel Bianchi Central, o lugar onde tudo havia começado. Homens de smoking, mulheres em vestidos longos, champanhes tilintando, música suave ao fundo. Paulo, impecável em seu terno preto, cumprimentava investidores e parceiros, mas seu olhar buscava alguém o tempo todo. Quando ela entrou, o tempo parou. Aline Méndez, com um vestido azul-petróleo que realçava o brilho sutil dos olhos — os olhos que ele nunca havia conseguido ver por completo até aquela noite. Sem óculos. Sem máscara. Sem medo. Os murmúrios começaram, inevitáveis. Mas ela caminhou com a cabeça erguida, cada passo firme, como quem finalmente aceitava ser vista. Paulo não conseguiu disfarçar o impacto. Por um instante, esqueceu as formalidades, esqueceu o público, esqueceu o mundo. Quando ela parou diante dele, o olhar dos dois se prendeu num silêncio tão denso que nem a música parecia ousar atravessar. — Senhorita Méndez... — ele disse, quase sem voz. — Senhor Bianchi. — respondeu, com um sorriso contido. Ele inclinou levemente a cabeça. — Posso dizer uma coisa sem parecer impróprio? — Pode tentar. Paulo sorriu, baixando o tom: — Eu sabia que você era linda. Só não sabia que o mundo pararia pra comprovar. Ela corou, mas respondeu com ironia delicada: — Então espero que o mundo volte a girar antes que a imprensa perceba. Eles riram. E, por um breve momento, esqueceram tudo o que os separava. A noite prosseguiu, mas nada mais parecia importar. Entre brindes, discursos e flashs de fotógrafos, havia algo no ar — uma promessa silenciosa de que o amor deles, agora, era inevitável. Mas, à distância, um olhar os observava. Munhoz, com um copo na mão e um sorriso frio, observava cada gesto. E, quando viu Paulo inclinar-se para sussurrar algo no ouvido de Aline, apertou o copo com tanta força que o vidro trincou. > “Então é assim, Bianchi... quer brincar de escândalo? Vamos ver quem perde primeiro.” Aline, alheia ao olhar venenoso, sentia apenas o coração pulsar — forte, livre, real. E Paulo, ao vê-la sorrir, soube: a luta ainda não havia terminado, mas, pela primeira vez, ele tinha um motivo que valia a pena lutar até o fim.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR