Capítulo VIII - A Princesa

2006 Palavras
Elinor não tinha certeza se já tinha amanhecido. Ela se rastejou para fora da cama no meio da escuridão, sentindo cada tendão de seu corpo se contorcer. A princesa escancarou as portas do banheiro, as pernas tremendo, fracas demais para sustentar seu peso. De joelhos, se permitiu vomitar todo o jantar da noite anterior. Sua cabeça pulsava, demasiadas manchas escuras tapavam sua visão daltônica. Não era de todo sua pior manhã. Esvaziar o estômago daquela forma, os dedos tremendo, frios, o suor escorrendo pela sua testa era parte da rotina diária da princesa de Nyamie desde que adoeceu. Ela esticou o braço ossudo na direção da pia de mármore, se puxando para ficar de pé mais uma vez. Agarrou os comprimidos medicinais cuidadosamente posicionados em um prato de porcelana ao lado dos óleos de bálsamo e engoliu a porção inteira. Elinor se apoiou na pedra, esperando ansiosamente para o efeito adormecer os demônios dentro de si. Ela olhou-se no espelho, as olheiras profundas, o rosto pálido e magro demais. Quando a tontura acalmou, Elinor passou os dedos pelo seu rosto, manipulando sua pele para desfazer seus sinais de decadência. Pôs um sorriso angelical no rosto, admirando a imagem que ela mesma tinha criado. A criatura mais especial de toda Nyamie. Elinor se deitou em sua cama mais uma vez, e fingiu dormir por dezessete minutos, concentrada nos aromas passeando no corredor. Metal, os sentinelas em sua ronda de manhã. Carvalho e óleo, o soldado Trieke a caminho da sua primeira refeição do dia. Resina, Anika mais uma vez coberta em tinta, levando materiais para o ateliê. E então, o cheiro familiar da sua companhia de criados se aproximava. Elinor inspirou profundamente, permanecendo imóvel na cama como se estivesse dormindo tranquilamente. Como formigas trabalhadoras, os elfos entraram no quarto da princesa, lhe chamando, abrindo as cortinas, preparando um banho quente. Em pouco tempo, Elinor já estava sendo apaparicada com jóias e um vestido branco com rendas e cristais. — Se divertiu na festa ontem a noite, alteza? — Perguntou o criado que lhe removia a camisola. — Muito, na verdade — respondeu ela, sem lhe dirigir o olhar, o queixo levantado na direção do espelho. Quando estava nua, os criados silenciaram entre si. A doença de Elinor piorava, o que era como uma sentença de morte para o reino inteiro. Metade da pele de seu tronco já tinha se tornado transparente, espiralando do canto direito da sua cintura até o canto esquerdo de seu peito. Era possível enxergar tudo por dentro, desde a carne cinzenta às veias escuras e robustas. Em questão de segundos, eles voltaram a conversar entre si e com ela. — A sua estilista optou por um vestido branco pela manhã e tarde. À noite, há um vestido vermelho pronto para a vossa alteza — explicou a outra criada, que usava seus poderes para esquentar suas mãos e moldar alguns cachos nos cabelos de ouro da princesa. — Viste a filha do Conde de Priuk? — Perguntou uma elfa anã para a outra, esfregando os hidratantes nas pernas de Elinor. — Ela veio ontem vestida com um traje amarelo, acredita nisso? — Ugh, eu vi. Todo mundo sabe que não se veste vermelho ou amarelo pra um baile real — respondeu a outra. Elinor soltou um sorriso encantador, fazendo forças para conseguir continuar em pé naquele pequeno altar. — Deixem disso, meninas — disse a princesa. — Eu sempre pensei em abolir essa regra que a minha mãe criou. A criada anã riu em bajulação. — Tão generosa, alteza. És muito humilde. Todos deveriam respeitar que porque vossa alteza e vossas majestades não vêem outras cores além de vermelho, amarelo, branco e preto, pessoas ordinárias não devem se destacar aos seus olhos. Elinor quase se esqueceu das dores com os elogios e permaneceu com o sorriso no rosto, soltando um suspiro silencioso. — Devo lembrar-lhe da sua agenda para hoje, alteza? — disse o jovem criado perto da entrada, as mãos atrás do corpo em sinal de respeito. — Não é preciso. — A senhora Alethea mandou uma carta dizendo que a sua mentoria hoje ainda acontecerá. Elinor enrijeceu o corpo ao ouvir o nome da bruxa. A sua história com Alethea era longa, apesar de só ter vinte míseros anos de vida. Seu pai dizia que Elinor era simplesmente teimosa como sua mãe, Eliope, que também tinha seu próprio passado com a bruxa. Diziam os boatos que o rei, em seus jovens anos de vida, havia se apaixonado por Alethea. Ela, no entanto, nunca pareceu ter demonstrado interesse de volta. — Que ótimo — disse Elinor com graciosidade em abundância. — Já sentia falta da minha querida professora.                                                                                         ~ Já a caminho do salão de refeições, os remédios para a dor que Elinor havia tomado já tinham a deixado dormente o suficiente para passar o dia. O efeito acabaria em algum momento enquanto ela estiver dormindo, e ela acordaria do mesmo jeito que aquela manhã, se deitaria na cama por mais dezessete minutos até o dia recomeçar. O salão estava iluminado como se estivesse sendo banhado por sol, as velas de cabeça para baixo flutuantes no teto pareciam estrelas raiando acima da realeza, como um portal para os olhos dos deuses. A mesa central de madeira de pinheiro preservada por resina era em formato de um hexágono. Espalhados ali haviam diversos dos pratos favoritos de Elinor. Ela os reconheceu antes de sequer entrar no salão, o aroma de mariscos temperados ao sal, arroz enrolado em nori e ensopado de salmão recém-feito era familiar demais para não se lembrar. O rei e rainha já estavam sentados em completo silêncio, os pratos vazios e taças meio-cheias com vinho importado. — Estão tão mortos quanto os nossos jardins — comentou Elinor assim que as portas foram fechadas e a família estava sozinha. — Não irão dizer bom dia à sua filha favorita? Eliope riu, ajeitando ansiosamente o guardanapo de pano em seu colo. — És nossa única filha. — Ainda bem — disse Elinor, puxando a cadeira para se sentar. Ela virou os olhos até seu pai e repousou as mãos na madeira. — O que houve? O rei rodeava a borda de sua taça de prata com o dedo, a coroa perfeitamente encaixada em sua cabeça, nenhum fio de cabelo verde-escuro fora do lugar. — Recebemos notícias sobre sua cura, minha filha. Elinor engoliu em seco. Não tinha certeza se queria mesmo ouvir. — Quando o navio irá chegar com o Lítio? — Perguntou ela mesmo assim, lentamente arrastando suas mãos para o seu colo. — Não irá chegar — disse Eliope, sem encarar sua filha. — Houve um náufrago. Ainda não sabemos o que causou. Elinor apertou os dedos no tecido, negando com a cabeça. — Como pode simplesmente ter naufragado? Não tinha mandado os nossos melhores soldados? — Elinor rosnou para seu pai. O olhar do rei era obscuro, carregado com luto, culpa e preocupação. Ele não soube o que responder a sua filha inicialmente, mas respondeu antes que ela pudesse continuar falando. — Mandei uma compania dos nossos melhores soldados. As outras quatro adoeceram com uma gripe qualquer. — O Lítio agora está afundado no fundo do mar. A única possível cura para o nosso reino inteiro está perdida por causa de uma gripe?! O rei endureceu sua presença diante de sua filha, fechando o punho em cima da mesa. — Claro que não é por causa disso. Nossos soldados foram massacrados. Duvido que se tivéssemos mandado as quatro companias, teriam conseguido salvar a pedra. — Não pode comprar outra? — Não. Não existe outra, e o preço que paguei por essa foi enorme — disse ele, os olhos caindo em sua esposa por breves segundos. — Todas as esperanças ainda não estão perdidas. Encontramos o local do náufrago, e já tenho gente indo para lá revistar tudo. Você vai ver, o Lítio será trazido de volta. Elinor abaixou o olhar para seu prato, tão perfeitamente polido que ela podia ver seu reflexo. — Me pergunto se a bruxa Alethea sabe de algo sobre isso — disse ela, olhando através de seu reflexo, como se pudesse vê-la ali, a encarando de volta. Eliope pegou sua taça impacientemente. — Por favor, ela passa dia e noite naquele santuário decadente perto da capital. O rei lançou um olhar à sua esposa. — Subestimar as capacidades de Alethea é um dos maiores erros que podemos cometer, minha esposa. Ela andou nessa terra antes do dragão Aeter a arruinar. És ingênua se pensas que ela não sabe de nada que se passa nesse castelo. A rainha não apreciou o comentário nem um pouco, mas se manteve calada para evitar uma discussão na frente da filha. Ela tocou o sino, permitindo que os criados entrassem mais uma vez. — Sirvam-nos — disse a rainha, se recostando na cadeira. Elinor não sabia o que estava sentindo, se era alívio ou desespero. Uma certa ansiedade lhe incomodava o peito, e sua mente rodeava em volta de pensamentos de dúvida quanto ao futuro. Não queria que as pessoas perdessem a esperança nela, muito menos que ela fosse jogada de lado depois de curar tudo e todos.                                                                                             ~ A princesa saiu do salão de refeições pouco tempo depois de terminar seu café da manhã. Ela retornou ao seu quarto, onde se preparou para sua aula com Alethea, trocando o vestido por calças pretas, removendo as luvas de seda e todos os seus anéis. Já na oficina de treinamento, Elinor estava sentada no banco de madeira pousado ao meio, a espera da bruxa. Haviam diversos materiais espalhados pela sala, desde carvão a ouro, carvalho a vidro, esculturas pequenas e grandes nas prateleiras. Elinor escondeu seu absoluto tédio dos guardas na porta por mentalmente contar as flores esculpidas em um dos blocos de quartzo. Então, aquele cheiro muito familiar se aproximava. Elinor não sabia descrever, mas havia algo em Alethea que cobria todo outro aroma ordinário. Ninguém que ela já conheceu transmitia o mesmo sentimento de familiriadade em um cheiro como ela. Atrasados demais comparados com o olfato apuradíssimo da princesa, os guardas introduziram a bruxa. Eles arrastaram as portas, e lá estava ela. Alethea, vestida de preto da cabeça aos pés, desmascarada, os dedos cobertos de anéis, mas somente um colar em seu pescoço. A bruxa tinha os cabelos meio-soltos dessa vez, a outra metade estava presa com um simples broche. — Elinor, já está aqui — disse ela, caminhando para dentro. Ela tinha as mãos repousadas na frente do corpo, os olhos de barro concentrados na princesa a sua frente. Elinor esperou que os guardas saíssem, sem mexer um dedo para cumprimentar a bruxa. — Um professor não deveria deixar um aluno esperando. Alethea removeu sua capa, deixando-a apoiada na outra cadeira. — Um aluno também não deveria tentar ensinar o professor como atuar em seu cargo, mas aqui estamos nós. Antes que Elinor pudesse responder, Alethea continuou. — Fez o seu dever de casa? A princesa finalmente se pôs de pé, caminhando até as prateleiras. Dentro de uma urna de vidro, havia uma rosa saudável flutuante. — Eu teria trazido um animal, mas a mamãe me proibiu — disse ela, cuidadosamente abrindo a urna, envolvendo seus dedos na rosa. Alethea observou a princesa a uma distância segura do meio da sala. Ela soltou a flor no ar, influenciada por magia, o que a fazia flutuar. Elinor desviou o olhar para a bruxa e circulou com os dedos a flor no ar, absorvendo-o em si mesma. Uma esfera se formou lentamente, rodeando a pobre rosa. O ar circulando e sendo manipulado pela princesa para deixar somente vácuo ali dentro. As pétalas murcharam e morreram na frente dos olhos de Alethea, o vermelho intenso se tornando preto de cima a baixo, o caule encolhendo e se desmanchando em pó. A bruxa levantou o queixo, inspirando profundamente. Diversos pensamentos corriam soltos pela sua cabeça, mas um predominava. Uma magia capaz de tantos horrores em uma jovem tão nova. A receita para o desastre.
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