Capítulo I — O Ladrão

1931 Palavras
            Donovan se esgueirava pelos prédios, as botas afundando na lama, o rosto coberto por uma bandana preta. A névoa cinza assolava a cidade inteira, deixando impossível de enxergar qualquer coisa no horizonte a mais de quinze metros.             A rua estava cheia dessa vez, como esperado. Os navios da Realeza com os suprimentos importados haviam chegado pela primeira vez no mês, e todo responsável de família estava de fora para estocar mantimentos. Alguns levavam as toxinas mágicas mais a sério do que outros, chegando a cobrirem seus rostos inteiros com uma máscara de couro, com espaço para os olhos.             Uma máscara assim seria ótima para os olhos de Donovan, que já ardiam e avermelhavam com o tempo passado na rua. Não importava, ele ainda não tinha cumprido seu trabalho e ele não teria outra chance como essa em pelo menos duas semanas.             Ele parou atrás de uma barraca coberta por um toldo transparente azulado, percorrendo os olhos esverdeados pela multidão. Pareciam diversos fantasmas vestidos de preto, vagando de uma barraca para a outra, trocando moedas de prata por comida e frutas de reinos distantes que já estragavam conforme o tempo em exposição à magia do reino de Nyamie. No entanto, aquelas pessoas não eram quem Donovan iria roubar. Ele seguia sua regra de não roubar de pobres. Seus olhos se dirigiram até o fundo das docas, a carruagem creme e dourada, as cores preferidas da realeza.             A carruagem estava estacionada logo na saída da doca de um dos navios, as janelas de vidro seladas, os cavalos negros robustos e altos com suas próprias máscaras protetoras. A cavaleira desceu, as calças de couro polido tremeluziram na luz escassa das lanternas, a camisa preta de mangas compridas se estendia em luvas. Toda sua pele estava protegida, incluindo seu cabelo envolvido num lenço, exceto pelos seus olhos marrons mais intensos que o couro em suas pernas.             Donovan acompanhou cada movimento enquanto ela explicava algo para os transportadores, enfiando a mão na mala, tirando um pequeno saco de pano pesado.             Ele só precisaria esperar o momento perfeito. Não para tirar das mãos dela, não. A cavaleira tinha um porte físico com quem estranhos não deveriam se meter. Os ombros largos, o tronco maior do que a cintura, pernas e braços torneados. Aliás, Donovan não sabia exatamente lutar. Seu pai ensinou ele a dar uns socos aqui e ali, mas nada perto do que aquela cavaleira provavelmente sabia fazer.             O momento perfeito seria quando o marinheiro saísse para entregar o ouro para o chefe. Com a névoa, é difícil ver para onde vai e quem vem, e a multidão e movimento das docas era uma distração ainda melhor.             Don se preparou, o coração acelerado no peito com a ansiedade do próximo furto. Sempre sentia aquilo, aquela adrenalina que ele nunca se acostumou ou "passou a gostar com o tempo", como um de seus colegas havia dito.             O saco de pano foi colocado na mão do marinheiro, que gritou para que trouxessem mais caixas de mantimentos para a carruagem. A cavaleira virou, encaixando o pé no estribo.             Donovan se impulsionou, deslizando pela lama como uma sombra na noite, os olhos fixos no homem que já caminhava de volta para o navio, ocupado demais dando ordens para prestar atenção o suficiente no ouro em suas mãos. O ladrão pulou por cima das caixas de madeira, arrancando o saco da mão do homem por trás.             — Ei, moleque!             Donovan se lançou para frente, desviando das pessoas na multidão, e em alguns tropeços seu capuz deslizou, sua cabeça ardendo com o ar tóxico da cidade.             — Peguem ele! Ladrão!             Diversos dos homens do navio saltaram pra fora, correndo atrás do jovem, empurrando qualquer pessoa no caminho. A cavaleira de preto se sentou no cavalo, sorrindo contra sua máscara, achando certa graça na situação.             — Corre, camponês. Corre — ela sussurrou, observando-o de seu cavalo.             Donovan enfiou o saco nos bolsos, sua cabeça pulsando e o estômago frio, atravessando as casas de pedra m*l iluminadas de uma rua estreita para a outra. Tinha o caminho todo traçado em sua cabeça: iria descer a rua principal, entrar no bairro da alta e se esconder entre os trabalhadores.             Só precisava garantir que corresse mais rápido do que os marinheiros tão altos quanto as montanhas da Ilha Astra.             As luzes fracas das casas voavam por Donovan como flashes, e seus pés m*l formavam pegadas nos pedregulhos lamacentos.             Ele escorregou na curva, se segurando no chão e se impulsionando para frente mais uma vez. Sua cabeça coçava e ardia tanto que ele precisou puxar o capuz para cima de novo, como se aliviasse de qualquer forma.             A contagem dos cruzamentos que faltava para chegar na alta da cidade estavam diminuindo.             Sete, seis...             Um transportador caminhava pelo cruzamento a poucos metros de distância, empurrando um carrinho de madeira cheio de caixas com mercadorias.             Donovan quase escorregou ao parar de correr subitamente. O carrinho com a carga era grande o suficiente para tapar toda a passagem na rua sinuosa.             Os poucos segundos que ali ficou parado deram a******a para os marinheiros alcançarem ele, gritando consigo e uns com os outros. Donovan se enfiou pela calçada, raspando no carrinho de madeira, descendo para o quinto cruzamento.             No entanto, quanto mais ele se aproximava da alta da cidade, mais soldados da Realeza se encontravam nas ruas. Alguns guardas aqui e ali sempre foi normal, mas naquele dia havia mais frotas do que o normal.             Tanto que haviam dois soldados no próximo cruzamento, armaduras reluzentes e intactas, as lanças ao lado do corpo, uma espada presa na cintura. Os marinhos que se aproximavam mais a cada segundo gritaram para os soldados:             — Ladrão! Peguem ele!             Os dois homens levantaram as lanças do chão e Donovan se lançou para a rua ao seu lado, jogando o plano para os ares. O que importava agora era não ser pego pelos soldados. Preferia ser pego pelos marinheiros do que pela força da Realeza.             Aquela rua, no entanto, era uma das mais compridas da cidade, e famosa por sua entrada e saída única.             As casas eram altas o suficiente para somente uma faixa do céu ficar aparente, moradores transportando os mantimentos que todos queriam tanto estocar para o inverno próximo. Donovan saiu aos pulos, trombando com gente o suficiente para causar mais caos do que o necessário, chamando mais atenção do que queria. Ele se enfiou entre duas casas, custando atravessar pelos barris de metal e madeira sem derrubar todos.             O pior cenário possível aconteceu, Donovan deu de cara com um muro alto de pedras com musgos grossos.             — Volta aqui! — ele ouviu uma voz grossa cuspindo, ecoando pelas ruas sinuosas e sentiu seus ossos tremerem.             Agarrou a primeira pedra, numa tentativa miserável de tentar escalar por cima do muro.             — Eu tô fazendo um lindo trabalho — Donovan murmurou para si mesmo.             Não havia nada ali onde ele poderia se apoiar para alcançar uma das janelas, e mesmo se conseguisse fazê-lo, não conseguiria abri-la. Todas as janelas foram seladas para impedir penetração de toxinas.             Os olhos dele voltaram para o caixote de lixo novamente, a respiração abafada na bandana.             — Merda, merda, merda... — ele sussurrou para si mesmo, levantando a tampa. — É bom ter muito ouro dentro desse saco.             Os passos se aproximavam e as vozes ficavam cada vez mais altas. Ele pulou com os pés primeiro, se espremendo para se esconder entre o lixo espalhado naquele caixote. Tentou se manter o mais imóvel possível após se cobrir com mais uma boa quantia de restos de comida e… Outros resíduos que ele não gostaria de identificar o que eram.             — Cadê ele? Ele não correu pra cá?!             Donovan prendeu a respiração, coração acelerado no peito. Se sua máscara não fosse grossa o suficiente para filtrar o cheiro, ele talvez teria vomitado logo ao entrar. Podia ter certeza que tinha sentado em algo molhado.             — Porcaria! — um dos homens gritou, chutando o caixote de lixo ao lado de Donovan.             Ele estremeceu, apertando os olhos como uma criança amedrontada.             — O chefe vai ficar puto — rosnou o outro, esforçando o pescoço para tentar ver se o ladrão havia escapado por cima.             — Com licença — disse uma voz feminina no fundo do beco. — Vocês precisam de mais um momento emocionante sozinhos perto do lixo ou eu posso entrar aí e despejar o meu? Eles resmungaram entre si, atentos às janelas ainda seladas das casas em volta.             — Ele deve ter dado a volta. Vamos.             Passos se aproximaram da lata de lixo do Donovan. A tampa se levantou, e ele encolheu como se pudesse afundar ali ainda mais.             — Mas que- — a garota continuou.             Don subiu o rosto, tapando a boca dela quase em um tapa desesperado por cima da máscara.             — Tira sua mão suja de mim!             Os dois se encararam por alguns segundos e ela piscou, segurando o saco de pano no alto como se fosse bater nele com aquilo.             — Você é tão estranho...             Donovan sorriu.             — Você não tem ideia de como me salvou, pimentinha.             Ele se esforçou para sair, quase tombando o caixote de metal no chão. Mesmo assim, ainda escorregou ao pular de volta no chão, afundando os sapatos sujos na lama.             — Você andou quatro quarteirões pra jogar o lixo fora? — ele continuou placidamente, ajeitando a máscara no rosto.             — Eu tenho meus segredos, você tem os seus.             — Quer dizer que não vai me perguntar o que eu estava fazendo dentro da lixeira?             Ela larga o saco dentro do caixote, cruzando os braços em total silêncio. Os cabelos negros estavam trançados para trás, seus olhos já avermelhados.             — Pergunta, vai — Donovan disse com um sorriso sapeca.             — Por que você queria encontrar sua verdadeira vocação? — disse ela, passando por ele em direção a saída do beco.             Donovan seguiu sua irmã mais velha, revirando os olhos.             — Muito hilário.             — Coloca seu capuz de volta e fica quieto, ainda podem te ver por aqui — ela sussurrou, virando a cabeça para Don. Sua pele marrom clara brilhava na luz amarelada dos postes. — E você tá fedendo pra caramba.             — É de se esperar.             O irmão mais velho perdeu o sorriso em seu rosto, os olhos subindo para a casa logo em frente de si. Através da janela mais alta da casa, Donovan pôde ver as luzes acendendo, duas pessoas passando de um lado para o outro bruscamente, numa discussão. Uma mulher, e logo depois um homem.             — Você estava com ela de novo? — ele perguntou, sua voz ecoou grave no beco vazio, os sons da multidão no porto foram abafados pela névoa densa.             — Isso não é da sua conta.             — Sorcha-             — Eu já não quero discutir isso mais, Don. Meus olhos estão ardendo aqui fora e eu quero voltar pra casa.             Sorcha se afastou de seu irmão, os cabelos trançados balançando em suas costas conforme seu andar. Don enfiou as mãos nos bolsos, envolvendo o saco de ouro em seus dedos, se apressando para ficar ao lado dela.             — Eu entendo que você queira ficar perto dela, mas ela já tem um marido.             Ela se manteve calada.             — E um marido terrível. Sabe-se lá o que ele faria com você se descobrisse. Não posso permitir que isso aconteça.             Uma carroça se aproximava ao longe, um jovem musculoso cavalgando na frente, as mercadorias cobertas por uma lona de tecido. Sorcha levantou o olhar para seu irmão, os olhos afiados com rancor.             — Felizmente, meu irmão, você não tem poder o suficiente pra me impedir de nada.
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