—Como ela entrou? —perguntou Bob, furioso.
—Não sei.
—Como ela sabia que você estava aqui a essa hora, Owen?
—Não sei.
—Bem, alguém deve ter deixado ela entrar. Por mais bruxa que ela seja, não poderia simplesmente aparecer do nada. Quem autorizou?
—Não sei.
Bob olhou para Owen com uma sobrancelha levantada. Sua voz soava distante e dissociada da realidade.
— Você sabe de alguma coisa? — perguntou ele, finalmente, cansado.
— Não consegui falar com Anna — respondeu ele, como perdido.
Bob observou-o um pouco mais. Ele não estava assim por causa de Elena?
— Fique hoje — sugeriu seu amigo.
— O quê?
— Fique hoje e você poderá vê-la. Vou ficar de guarda na porta a noite toda, se necessário, caso aquela v***a apareça de novo. — Você é louco.
— Pode ser... Você sabe que vou insistir com a mesma coisa até você tentar me matar ou fazer o que eu sugiro. Você não tem escolha — disse ele, cruzando os braços.
— Não posso ficar todas as noites. Ela vai achar...
— Ela vai achar que você quer vê-la. Owen, você se sente atraído por Anna e ela por você. Explique-me como isso não é a coisa mais normal do mundo — interrompeu Bob, falando sem parar para respirar.
Mas a “coisa mais normal do mundo” era algo impensável para ele. A garota o deixava nervoso, tirava-o do eixo e despertava sensações em sua pele que o consumiam. E Owen já havia esquecido como reagir a isso.
Ele podia dirigir uma empresa multimilionária, mergulhar em reuniões intermináveis, esmagar a concorrência e brincar com números; mas não podia ficar mais uma noite só para vê-la. O que ele deveria dizer a ela?
—Você sempre diz que sou insuportável, mas você, meu amigo, está se tornando um covarde —disse Bob, frustrado com as dúvidas de Owen.
—Não é isso e você sabe disso.
—Tudo bem! Faça o que quiser, estou cansado de falar com você.
Talvez Bob estivesse certo e ele estivesse se tornando um covarde. Desde quando ele tinha dúvidas quando se tratava de uma mulher? Ele não pensava muito quando propunha às suas secretárias o segundo “trabalho”, nem quando disponibilizava o apartamento no centro. Mas Anna era diferente de alguma forma.
Owen balançou a cabeça, levantou-se e observou todas as suas conquistas penduradas na parede; olhou para o rostinho sorridente de sua filha nas fotografias e ao seu redor, e tomou uma decisão. Ela havia entrado em sua vida de forma fortuita, agiu com coragem sempre que ele tentou se impor e lhe devolveu sorrisos doces: ele se aproximaria de Anna o máximo que pudesse.
Mas desta vez ele não se escondeu em seu escritório com as luzes apagadas, nem se agachou em um canto para observá-la escondido; desta vez, ele se sentou ao lado da máquina de café e contou os minutos que faltavam para Anna chegar antes de ligá-la.
Seu coração acelerou quando ouviu a porta se abrir.
—Olá, Anna.
E Anna sentiu novamente um formigamento no estômago quando o viu sentado, com duas xícaras fumegantes sobre a mesa.
—Olá, Owen —respondeu ela, um pouco nervosa.
—Se você tiver um minuto, preparei café —disse ele, apontando para as xícaras.
Que sensação estranha é essa que se sente quando se está na frente de uma pessoa de quem se gosta e se gosta demais? Aquela mistura de emoção quase infantil e nervosismo que Anna estava sentindo.
—Claro, obrigada —respondeu Anna, deixando seus materiais no chão ao lado da porta. Ela se sentou à sua frente e seus joelhos tremiam um pouco.
—Agradeço muito pelo que você fez ontem com Eva e sinto muito por envolvê-la nos meus problemas —desculpou-se Owen.
— Eva é tão doce e muito inteligente.
— Ela me disse que você cheira a biscoitos — disse ele, de repente, e se surpreendeu.
Anna olhou para ele intrigada e depois soltou uma risada suave. Era exatamente isso que ele queria ver: como o nariz dela se franzia levemente quando sorria. Ele teve um impulso efêmero de beijá-la. — Nunca me disseram isso.
—Sim, Eva tem essa maneira peculiar de descrever as pessoas. Ela ficou muito feliz com todas as figuras que vocês fizeram.
Anna levou a xícara aos lábios. A intensidade no olhar de Owen lhe trouxe lembranças daquela noite: o mesmo olhar cinza que a despojava de tudo.
—Você está bem? —perguntou Owen, diante do silêncio dela.
—Desculpe, você me deixa nervosa —confessou Anna.
Ele sabia que tinha esse efeito nas pessoas. Sua personalidade e, às vezes, sua arrogância costumavam afastar as pessoas. Isso acontecia com a maioria dos funcionários, com alguns colegas e até mesmo com outros empresários. Mas não era isso que ele queria causar em Anna.
Por um momento, ele se sentiu envergonhado. Ele tinha tanta vontade de vê-la, mas não sabia bem como expressar esse desejo. Ele desviou o olhar do rosto dela; aparentemente, os anos se afastando dos outros haviam erguido uma barreira ainda mais espessa do que ele imaginava.
— Não é minha intenção intimidá-la — disse ele, e sua voz soava triste, quase um sussurro.
— Você não está intimidando. Você me deixa nervosa porque... faz muito tempo que não me sinto assim. É como quando eu era adolescente e o garoto de quem eu gostava se aproximava para falar comigo... Você não sabe como agir quando isso acontece — confessou ela, baixando o olhar.
Owen tinha certeza de que seu rosto estava ficando vermelho, ele sentia um calor incrível. Ele tentou se acomodar na cadeira, passou a mão pelo cabelo e cruzou as pernas.
—Como você pode dizer uma coisa dessas como se não fosse nada? —perguntou, visivelmente nervoso.
Anna sorriu e soltou um suspiro quase inaudível. Pelo menos ela não era a única que se sentia assim. Seu coração bateu mais rápido. Ela não confessava abertamente tudo o que pensava ou sentia; havia se acostumado a guardar as coisas para si mesma durante aqueles anos de solidão acompanhada, porque as palavras não serviam para nada. Mas Owen havia afrouxado um pouco o nó em sua garganta.
— Você me ajudou a me sentir bem — respondeu ele, colocando a xícara sobre a mesa. — Na verdade, você me fez sentir como não me sentia há muito tempo. Sei que foi apenas uma noite, mas... eu me vi bonita novamente — a voz de Anna tremia e seus olhos se encheram de lágrimas. Quando palavras gentis e calorosas atingem as partes frias da alma, é impossível evitar aquela vibração que leva quase às lágrimas.
—Você é linda —disse Owen, convencido—. Você é muito linda e cheira a biscoitos.
Anna riu com vontade. Ambos estavam liberando pensamentos sem perceber.
—Você é —Owen voltou a garantir.
—Obrigada, com você eu me sinto assim.
—Você é sempre tão direta ao dizer as coisas? —ele perguntou com uma mistura de entusiasmo e nervosismo.
—Não... não sou. Isso te incomoda?
—Não é isso... é que eu não sei como falar com você.
—Como falar comigo? —Anna estava confusa.
Owen olhou nos olhos dela; havia algo neles que transmitia clareza, transparência. Parecia até que, se ela olhasse um pouco mais de perto, poderia ver a alma dele. Ele soltou um longo suspiro.
—Pelo que vejo, nenhum de nós dois está acostumado com algumas coisas... A verdade é que... eu perdi... a habilidade de conversar com mulheres —disse ele, um pouco envergonhado de si mesmo.
Ela o observou em silêncio por alguns segundos. Sério? Um homem como ele não sabia o que dizer? Ela não acreditava. Ele era bonito, muito bonito. Sempre exalava aquele ar de confiança que o tornava um pouco intimidador. E era mais velho; certamente teria experiência de sobra. Mas Anna lembrou-se de suas feridas, ela também tinha as suas. E sorriu para ele.
— Sabe? Às vezes sinto que deveria ser mais fácil — murmurou Anna, brincando com a xícara entre as mãos —, mas, na verdade, nunca é. Para mim, pelo menos.
— Fácil? — perguntou Owen, sem ter certeza do que ela queria dizer.
— Conversar, estar com alguém... deveria ser simples, não? — Anna ergueu os olhos e olhou para ele. — Mas há momentos em que sinto que não sei como me comportar, como se tivesse esquecido como tudo funciona.
— É bom saber que não sou o único — disse ele, apoiando os cotovelos na mesa enquanto a olhava.
— Bem, talvez estejamos um pouco desconectados do resto — disse Anna, encolhendo os ombros com um sorriso triste. — Mas isso não significa que não possamos tentar novamente.
Owen assentiu. Ele teve uma sensação estranha, mais uma das muitas que ela lhe causava: com Anna à sua frente, ele não queria fugir. Pela primeira vez em muito tempo, ele queria ficar.