Sacrifício

972 Palavras
O silêncio tenso pairava no ar quando Lucas parou e pensou por um momento, seu olhar buscando uma solução desesperada para a situação cada vez mais perigosa em que se encontravam. Então, com uma expressão determinada, ele disse a Eduardo: "Tira essas roupas de riquinho." Eduardo ficou momentaneamente perplexo, sem entender onde Lucas queria chegar com aquilo. Mas diante da urgência da situação, ele não questionou. Lentamente, ele começou a despir-se, sentindo-se estranhamente vulnerável enquanto o fazia. Foi então que Lucas pegou as roupas de Eduardo e começou a vesti-las, como se estivesse se preparando para algo. Percebendo o que Lucas estava tramando, Eduardo engoliu em seco. Ele começou a compreender a ideia de Lucas: ele fugiria se passando por Eduardo, enquanto Eduardo ficava para trás, como um sacrifício. A tensão atingiu o ápice quando Lucas tirou o brinco de sua própria orelha e se dirigiu a Eduardo: "Minha orelha não é furada", murmurou Eduardo, sua voz vacilante. Mas Lucas não hesitou, pressionando o brinco no lóbulo da orelha de Eduardo, que sentiu a dor aguda da perfuração. "Pronto", disse Lucas com firmeza. "Agora é." Então, encarando Eduardo com olhos sérios, Lucas lembrou-lhe de sua promessa: "Não se esqueça da sua promessa. Quando sair daqui, você vai ter que fazer as tatuagens que eu já tenho, e você vai encontrar o safado que traiu meu pai e esfolá-lo vivo." Lucas então abriu a porta do guarda-roupa, revelando um fundo falso. Ele instruiu Eduardo e Perigo a entrarem, e foi nesse momento que Eduardo insistiu para que Lucas também se juntasse a eles. "Entra aqui também, cara", implorou Eduardo, sentindo o medo crescer dentro de si. Mas Lucas apenas olhou para ele, seus olhos transmitindo uma mistura de medo e determinação: "Não posso. Tenho que tentar ajudar meu pai", disse ele com voz firme. "Se tudo der certo, eu volto para tirar vocês daqui. Se não, esperem os tiros pararem e só saiam duas horas depois que não tiver mais nenhum tiro. Entenderam?" Eduardo insistiu mais uma vez, mas Lucas simplesmente fechou a porta, deixando-os na mais completa escuridão, com apenas o som dos tiros ecoando ao redor deles como um lembrete constante do perigo iminente que enfrentavam. No confinamento escuro do esconderijo, Eduardo começou a compreender a verdadeira intenção por trás das ações de Lucas. Ele não pretendia fugir e deixá-lo ali, abandonado à própria sorte. Lucas estava planejando lutar até o fim, e Eduardo era seu plano B caso ele não sobrevivesse. Ele morreria como o amigo riquinho do dono do morro, enquanto Eduardo assumiria o papel de Lucas e a responsabilidade de vingar sua morte. No entanto, antes que Lucas pudesse sequer sair da casa, o tiroteio alcançou o andar de baixo, indicando que os invasores estavam cada vez mais próximos. Armado até os dentes, Lucas disparou sua arma, tentando proteger sua casa e sua comunidade. Mas os membros da comunidade do Dendê pareciam surgir como pragas, sempre em maior número. Por mais que Lucas tentasse, acertando um, pareciam aparecer dois em seu lugar. Quando finalmente suas munições se esgotaram, Lucas foi capturado. Os invasores, no calor da batalha e diante da confusão, pensaram que ele era Eduardo, o filho do dono do morro que estavam procurando. Eduardo e Perigo ouviram impotentes os gritos de dor de Lucas enquanto era brutalmente torturado. Os homens queriam que ele revelasse o paradeiro do filho do dono do morro, mas Lucas não falou. Cada grito do amigo era como uma faca no coração de Eduardo, que por vezes tentou sair em desespero. No entanto, Perigo o segurou firme, mantendo-o ali, até que finalmente os gritos de Lucas cessaram. Ele tinha finalmente morrido. Para Eduardo, aquela foi uma das noites mais longas e agonizantes de sua vida. Ele havia perdido não apenas um amigo, mas também havia morrido, e perdido a si mesmo. Agora, a responsabilidade de vingar a morte de Lucas e assumir a comunidade recaía sobre seus ombros, uma carga que ele sabia que teria que suportar sozinho. Com o coração pesado e a mente turva, Eduardo emergiu do esconderijo ao lado de Perigo. O amigo havia conseguido uma máscara que cobria metade do rosto, uma precaução necessária para ocultar sua identidade naquele momento de incerteza. Pois Eduardo,tinha uma marca em formato de coração na bochecha esquerda, assim como sua mãe, mas agora era uma característica que poderia denunciá-lo como um impostor. À medida que Eduardo surgia ao lado de Perigo, os olhares da comunidade recaíam sobre ele. Alguns o encaravam com pena, reconhecendo a perda recente de sua família, enquanto outros o observavam com raiva, interpretando sua ausência como covardia. Nesse momento, um homem gordo e careca se aproximou para abraçar Eduardo, e Perigo sussurrou que era o tio Bino. Eduardo sentiu um desconforto imediato ao abraçar o homem. Bino parecia falso, suas palavras carregadas de uma simpatia superficial. No entanto, Eduardo retribuiu o gesto, agindo como acreditava que Lucas faria em sua posição. Bino expressou seu pesar por chegar tarde, mas afirmou que estava ali para cuidar do morro até que Lucas estivesse pronto para assumir. Eduardo apenas assentiu, seus pensamentos distantes, enquanto Perigo o arrastava para longe dali. O amigo alertou-o de que ele precisava sair da comunidade, pois com certeza quem planejou aquilo ia tentar matá-lo devido à lealdade da comunidade ao seu pai. Eduardo encarou Perigo com incredulidade, negando qualquer conexão entre seu pai e aquela situação caótica. “Meu pai odeia isso aqui” No entanto, Perigo o sacudiu com firmeza, lembrando-o de sua nova identidade como "Coringa", o codinome que Lucas havia escolhido para ele. “Tu é o Lucas agora p***a, o Coringa como ele disse que seria o codinome dele”, disse Perigo Eduardo assentiu resignado, compreendendo que agora ele era Lucas, e que precisava seguir o plano deixado por seu amigo.
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