A festa já não fazia sentido.
As luzes, as risadas, a música alta… tudo parecia um borrão depois do que aconteceu no canto escuro da sala.
Meu corpo ainda queimava com o toque dele.
Mas eu saí com a cabeça erguida.
Noah ficou para trás. Perdido entre o desejo que não saciou e o orgulho ferido.
E eu venci.
Pelo menos por alguns minutos.
Peguei minha bolsa, ajeitei o vestido e caminhei com calma até a porta.
Eduarda veio do bar, com um drink na mão e o sorriso malicioso que ela usava quando se sentia desejada.
— Vamos? — perguntei, tentando disfarçar o tumulto no meu peito.
Ela assentiu e veio ao meu lado.
Foi quando eu o vi.
Noah.
Encostado na parede perto da saída, como se já soubesse que eu passaria por ali.
Mas ele não estava sozinho.
Estava com ela.
Camila.
A mesma que nos trancou no closet.
Ela sorria, e ele… ele me olhava.
Direto. Sem piscar.
Como se cada passo meu fosse uma sentença.
Como se quisesse me punir.
E então ele a beijou.
Não um selinho. Não um beijo inocente de festa.
Foi um beijo de língua.
Lento. Molhado. Intencional.
Mas não era por ela.
Era por mim.
Cada movimento da língua dele dentro da boca dela era um recado.
Um castigo.
Uma provocação.
Eu parei. Meu peito travou.
O mundo girava, mas eu estava imóvel.
Congelada.
E o pior veio depois.
Ao passar por eles, fingindo indiferença, segurando minha alma no salto alto, ouvi a voz manhosa da Eduarda, do meu lado:
— Nossa… ele tá tão aceso por mim…
Ri.
Mentira.
Sorriso falso, coração estilhaçado.
Ele não estava aceso por ela.
Estava em chamas… por mim.
E se era guerra que ele queria…
Eu já tinha incendiado o primeiro campo.
Eu estava furiosa.
Furiosa comigo mesma. Furiosa com ele.
Furiosa com o jogo que ele estava jogando.
E, principalmente, furiosa com a cena que acabara de presenciar.
Era 3h da manhã quando meu celular vibrou.
A tela iluminada, sem nome, mas com uma mensagem.
Eu hesitei, mas abri.
A dor já estava me corroendo de dentro para fora, e não sabia se conseguia ignorar.
"Quando alguém rejeita, sempre haverá alguém que queira."
O texto seco, de um ego ferido, de um homem tentando se defender da humilhação, se misturava com a imagem que veio em seguida.
A foto de Noah, sem camisa, suado, em uma cama, com o olhar desafiador. Como se ele tivesse acabado de sair de uma luta e, ainda assim, quisesse me convencer de que estava bem.
A raiva subiu como uma onda gigante, engolindo qualquer vestígio de racionalidade.
Eu não conseguia processar tudo o que ele estava tentando dizer com aquelas palavras e aquela foto. Como se ele fosse o que me fazia sentir falta, e não o oposto.
A dor, a humilhação, tudo voltou com força total. Mas também uma satisfação amarga.
Ele estava me querendo, mesmo que com o orgulho ferido.
Ele estava querendo a mim. Não a ela. Não a qualquer outra.
Senti um calor imenso tomando conta do meu corpo.
Mas não era desejo. Era raiva.
A raiva me alimentava.
Respondi. Sem pensar, sem hesitar.
Cada palavra foi uma facada. Uma vingança deliciosa.
"Quando alguém é rejeitado, aprende a se esconder atrás de outros corpos. Mas no final, é só você e a solidão, Noah."
Dei um suspiro pesado, joguei o celular na cama e me virei para a janela.
Eu não queria mais saber dele. Não queria mais vê-lo.
Mas eu sabia que ele voltaria.
Porque ele sempre volta.
O som do meu celular vibrando cortou o silêncio da noite.
Mais uma vez.
E dessa vez, a tela mostrava o nome dele.
Eu olhei para a tela.
Ligação perdida.
E a maldita sensação de que ele estava, de alguma forma, me invadindo mais uma vez, cresceu dentro de mim.
Noah.
Eu não atendi.
Não. Eu não iria dar a ele a satisfação de ouvir minha voz agora. Não depois de tudo.
O celular vibrou de novo.
Ligação. Ligação. Ligação.
Eu olhei para o número novamente, mas não o toquei.
Ele estava me procurando. Tentando se conectar, porque sabia que algo havia mudado. Que a distância entre nós estava prestes a quebrar.
Ele precisava de mim. Precisava mais do que eu dele, eu sabia disso.
Eu virei de costas, para que ele não tivesse a chance de me ver perder o controle.
Mas a raiva me tomava, e eu sentia meu corpo quente, mais uma vez, mais do que gostaria.
Até que a mensagem chegou.
A tela brilhou novamente, mais uma vez, essa maldita sensação de estar sendo dominada pelo celular.
Abri. E o que vi não me surpreendeu. Eu estava esperando por isso.
A mensagem de Noah, cheia de raiva e uma provocação dolorida:
"Sua filha da p**a. Me provoca e me deixa."
Eu li aquelas palavras duas, três vezes. O ódio e a frustração transbordando de cada letra.
Mas não pude evitar. Eu sorri. Porque, no fundo, eu sabia que ele estava se derretendo por dentro.
E ao mesmo tempo, a raiva cresceu. O orgulho dele, o ego, tudo isso estava se desintegrando diante de mim.
Ele queria algo mais. Algo que ele não podia ter, e me odiava por me fazer desejar tudo o que ele também desejava.
Eu não ia ceder.
Não agora. Não tão cedo.
Eu não ia ceder.
Não agora. Não tão cedo.
O celular ainda brilhava ao meu lado, como uma tentação.
Como um fantasma sussurrando que ele ainda estava lá. Que ele ainda me queria.
Mas eu não era mais a garota que corria atrás de migalhas.
Eu tinha provado do fogo — e agora, ou ele vinha inteiro, ou não vinha.
Me enrolei no lençol, tentando conter o turbilhão que girava dentro de mim.
Noah mexia comigo de um jeito que ninguém jamais conseguiu.
Ele sabia me tocar com as palavras, me despir com os olhos e me incendiar com o silêncio.
E agora estava fora de controle.
Como um homem prestes a perder a única coisa que queria de verdade.
Eu sabia que aquele beijo em Camila não tinha gosto nenhum.
Sabia que a boca dele ainda ardia da lembrança da minha.
Mas isso não aliviava a dor.
Não apagava o sentimento de ter sido usada como um jogo.
E eu não era peça de tabuleiro.
Deitei de lado, encarei o teto, e deixei um suspiro escapar.
O que a gente tem é errado.
É confuso.
É quente demais para ser ignorado, mas perigoso demais para ser vivido sem consequências.
Eu sabia que ele voltaria.
Noah sempre volta.
E quando voltar… eu estarei pronta.
Talvez pra acabar com ele.
Talvez pra me entregar de vez.
Mas até lá, que ele sofra com o próprio veneno.
Que se afogue no desejo que tentou usar como arma.
Porque eu?
Eu já tinha aprendido a me proteger.
E amanhã, quando ele me encarar nos corredores, com aquele olhar de promessas não cumpridas,
eu não vou desviar.
Vou sorrir.
E deixá-lo queimar um pouco mais.