O Pesadelo
Angelina estava cansada, mas não conseguia dormir. A noite se arrastava e seu corpo se movia involuntariamente na cama, tentando achar uma posição confortável. Os caracóis dourados de seu cabelo estavam espalhados pelo travesseiro, brilhando fracos sob a luz da lâmpada ao lado da cama. Ela olhou para o teto, contando as imperfeições da pintura branca, tentando se distrair. Mas o sono não vinha. Algo a inquietava, algo que não conseguia explicar.
A cada minuto que passava, a sensação de que estava sendo observada crescia. Os pequenos sons do quarto — o farfalhar da cortina movida pela brisa, o crepitar da madeira da cama — tomavam proporções estranhas em sua mente. Ela tentava afastar o pensamento, dizendo a si mesma que era só a ansiedade, mas sabia que algo estava errado. As sombras do quarto pareciam mais densas, mais próximas. Seus olhos se fixaram nas brechas da cortina, onde a luz da lua se projetava.
Foi então que ela adormeceu.
No início, o sonho parecia tranquilo. Angelina caminhava sozinha por uma floresta densa e escura, mas as árvores eram tão altas e o céu tão claro, com a lua cheia iluminando o caminho, que ela não se sentia amedrontada. O som do vento fazia as folhas se moverem suavemente, criando uma melodia quase hipnótica. Tudo parecia normal, como uma paisagem de sonhos.
Mas algo começou a mudar. O vento parou, e a floresta ficou completamente em silêncio. Um silêncio tão profundo que Angelina podia ouvir o som de seu próprio coração batendo forte no peito. Ela parou de caminhar e olhou em volta, tentando compreender o que estava acontecendo. As árvores que antes pareciam seguras agora pareciam se fechar, seus troncos se inclinando para dentro, como se a floresta estivesse se preparando para engoli-la.
Ela deu um passo à frente, mas o chão parecia mudar sob seus pés, e o ar ao redor dela começou a esquentar. A luz da lua desapareceu de repente, tornando tudo ao seu redor em uma escuridão espessa e sufocante. Angelina olhou para trás, mas não havia mais o caminho que ela havia percorrido. Ela estava perdida.
Foi quando ela ouviu o grito.
Um grito que cortou o silêncio da noite como uma lâmina, tão agudo e desesperado que a fez estremecer. O som vinha de algum lugar à sua esquerda, e algo em seu peito a empurrou na direção do grito. Ela sabia que não devia ir, que devia voltar, mas algo a guiava, como uma força invisível que a obrigava a se aproximar.
Quando chegou a um pequeno clearing no meio da floresta, ela viu a menina. A figura era frágil, com o corpo quase translúcido sob a luz da lua. Seus cabelos estavam soltos, balançando suavemente ao vento, e sua pele era pálida, quase espectral. A menina estava de costas, mas algo no ar fez Angelina perceber que ela sabia que estava sendo observada. Lentamente, a menina virou o rosto.
Os olhos da menina estavam vazios. Não havia pupilas, apenas órbitas profundas, e a expressão em seu rosto era uma mistura de dor e desespero. A boca da menina se abriu lentamente, mas o som não vinha de seus lábios. Era como se a voz saísse diretamente da cabeça de Angelina, ecoando em seus ouvidos e preenchendo todo o seu ser.
— Me ajude…
As palavras reverberaram, não apenas como um pedido, mas como um comando. O ar ficou pesado, e o medo tomou conta de Angelina de forma tão intensa que ela m*l conseguia respirar. Mas não era apenas o medo. Havia algo mais, algo que ela não podia identificar. Era como se a menina estivesse pedindo não apenas ajuda, mas algo muito mais profundo e angustiante.
Angelina tentou se mover, mas suas pernas estavam pesadas, quase impossíveis de controlar. Ela olhou para a menina, e a expressão de desespero se intensificou. A criança estendeu a mão em sua direção, mas a cada passo que Angelina tentava dar para se aproximar, o chão parecia se abrir, engolindo a terra ao redor dela.
A menina então começou a andar em direção a ela, seus olhos ainda fixos, seu rosto agora desprovido de emoção. Mas quando ela chegou mais perto, o sangue começou a escorrer de seus olhos, como se as lágrimas estivessem tingidas de vermelho. A menina não chorava, mas o sangue escorria de forma espessa e viscosa, cobrindo seu rosto e pescoço, manchando seus cabelos. A cor vermelha contrastava com a palidez do seu rosto, formando uma cena ainda mais grotesca.
O cheiro metálico de sangue preencheu o ar, e a imagem se distorceu. Angelina tentou gritar, mas sua boca estava selada, como se algo estivesse prendendo suas palavras dentro de si. O sangue começou a se espalhar pelo chão, se estendendo de forma quase predatória, como se tivesse vida própria. Era como se a menina fosse feita da própria essência do medo e da morte, e o sangue fosse uma extensão dela.
Angelina caiu de joelhos, tentando desesperadamente escapar, mas o sangue agora estava em toda parte. Ele se arrastava para ela, envolvendo suas mãos, suas pernas, subindo pelo seu corpo, formando figuras e padrões que não faziam sentido. Ela queria se levantar, correr, mas as forças a estavam prendendo, imobilizando-a no lugar.
O pesadelo estava prestes a engolí-la, quando o som da menina falou novamente, desta vez mais alto e mais forte.
— Me ajude… você é a única que pode…
Foi quando, subitamente, o pesadelo se quebrou.
Angelina acordou com um sobressalto, o corpo coberto de suor frio. Seus olhos estavam arregalados, e o coração batia tão rápido que parecia que ia explodir. Ela olhou em volta, desesperada, tentando entender onde estava. O quarto ainda estava escuro, a luz da lua brilhando pelas frestas da cortina, mas tudo estava em silêncio. No entanto, a sensação de que ainda estava presa naquele pesadelo não a deixava.
Ela sentou-se na cama, respirando pesadamente, tentando acalmar seu corpo, mas o medo continuava a apertar seu peito. O pesadelo tinha sido tão vívido, tão real, que ela não sabia se estava acordada ou ainda sonhando. A presença da menina estava em todo o seu corpo, na sensação de frieza que sentia na pele. Ela não podia entender o que a menina queria, mas algo em seu interior dizia que a resposta estava dentro dela.
Angelina levantou-se da cama, sentindo um frio estranho. Olhou para o espelho ao lado da porta, tentando encontrar algo que a fizesse se sentir mais real, mais conectada com a sua realidade. Mas, quando olhou no vidro, algo a fez parar.
No reflexo, a menina estava lá. Ela estava parada atrás dela, seu rosto pálido e agora coberto de sangue. Os olhos, ainda vazios, fixaram-se em Angelina com uma intensidade perturbadora. O sangue escorria pelos cabelos e pela testa da menina, como se ela estivesse ali, dentro do próprio reflexo, observando, esperando.
A visão era nítida, vívida, como se a menina estivesse de verdade no quarto, a poucos metros de distância, encarando-a sem piscar. O sangue, que antes parecia ser parte de um pesadelo distante, agora parecia real, tangible. A menina não falava, mas seu olhar transmitia um pedido desesperado.
Angelina deu um passo para trás, seu corpo agora tomado por um medo visceral. Ela tentou gritar, mas sua garganta estava seca. O espelho tremia levemente, como se a presença da menina o estivesse afetando, fazendo-o vibrar com a força do medo.
Com os olhos fixos no espelho, Angelina sentiu algo quebrar dentro de si. Ela sabia, sem entender totalmente, que a menina não estava ali apenas para aterrorizá-la. Havia algo mais, algo que ela precisava fazer. Mas a cada segundo que passava, o medo se aprofundava, e ela não conseguia mover-se.
A menina desapareceu no reflexo, mas a sensação de sua presença ficou. Angelina ficou ali, parada, os olhos fixos no espelho, o terror ainda dominando suas emoções. A menina havia deixado uma marca, uma sensação de urgência que agora a envolvia completamente. A pergunta que ela ainda não sabia responder permanecia suspensa no ar: “Me ajude”.
Angelina sabia que não poderia ignorar mais. Algo estava acontecendo, algo que ela não podia entender, mas que estava prestes a tomar conta de sua vida.
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