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1526 Palavras
O sol m*l despontava no horizonte, tingindo o céu com tons de laranja e púrpura, quando Angelina e Miller finalmente retornaram ao dormitório. O parque Riverside estava em silêncio absoluto, como se toda a noite tivesse sido apenas um pesadelo coletivo — mas ambas sabiam que não era. Algo mais profundo, mais antigo, estava se movendo nas sombras, e o que elas haviam enfrentado era apenas o começo. — Precisamos descansar — disse Miller, apoiando-se na parede do corredor, exausta. — Não sei se consigo lidar com mais noites como essa. Angelina balançou a cabeça. O corpo estava cansado, mas a mente não parava de girar. A força que sentira na noite passada, o poder herdado de suas antepassadas, ainda pulsava em suas veias. Ela podia sentir cada fio da energia ancestral, conectando-a a gerações que haviam protegido a vila antes dela. — Não podemos descansar ainda — respondeu, a voz firme. — O que aconteceu ontem não foi um caso isolado. O culto… eles sabem quem eu sou. Sabem que eu posso interromper seus planos. E não vão parar enquanto não conseguirem. Miller suspirou e olhou para o chão, tentando encontrar forças. — Então o que faremos agora? Não podemos simplesmente esperar eles atacarem de novo. Angelina respirou fundo, sentando-se na cama e fechando os olhos. As lembranças da criatura do lago, da energia pulsante que havia saído de suas mãos, e do rugido do monstro ressoando pela floresta ainda ecoavam em sua mente. Ela sentiu a presença das antepassadas, invisíveis, mas reais, como uma corrente de proteção que a rodeava. — Vamos começar pelo início — disse Angelina, finalmente abrindo os olhos. — Precisamos entender toda a história da nossa família, do culto e dos rituais que foram realizados. Se quero proteger as pessoas… se quero proteger a mim mesma… preciso conhecer cada detalhe. Miller assentiu. — Então voltamos à biblioteca. Precisamos de todos os registros possíveis. Livros antigos, diários, mapas… qualquer coisa que nos mostre o que aconteceu antes. Angelina olhou para a mochila, abrindo-a e retirando o mapa antigo que encontraram no último livro. — E talvez seja hora de rastrear os lugares onde os rituais começaram. Precisamos ver os círculos, os símbolos… entender o que foi feito e como podemos impedir que aconteça de novo. Com o primeiro raio de sol atravessando a janela do dormitório, as duas se prepararam para sair. O campus parecia diferente sob a luz matinal — menos ameaçador, mas ainda carregado de uma sensação estranha, como se tudo estivesse assistindo, esperando o momento certo para atacar novamente. — Miller, — disse Angelina enquanto colocava a mochila nas costas — você confia em mim? — Sempre — respondeu Miller, com firmeza, mesmo que a voz traísse o medo que ainda sentia. — Mas me diga… você acha que está pronta para isso? Para descobrir tudo sobre sua linhagem? Angelina respirou fundo, sentindo o peso das gerações que a antecederam. — Não importa se estou pronta ou não. Não posso recuar agora. O que começou com Odette… o que aconteceu ontem… tudo aponta para nós. Se não fizermos alguma coisa, outros vão sofrer. E talvez seja tarde demais para evitar mais tragédias. --- A biblioteca antiga da universidade parecia ainda mais silenciosa e opressiva sob a luz do sol. O cheiro de papel velho e madeira queimada pelo tempo preenchia o ambiente, e as prateleiras altas lançavam sombras profundas, mesmo durante o dia. Angelina e Miller caminharam rapidamente entre os corredores estreitos, em busca da seção de arquivos históricos. — Precisamos de registros que ninguém costuma ler — disse Angelina. — Diários, correspondências, livros que falem de rituais, desaparecimentos, ou de qualquer evento estranho que tenha acontecido na nossa vila ou nas cidades vizinhas. Miller começou a puxar livros grossos e empoeirados, empilhando-os na mesa de leitura. — Olhe só isso — disse, abrindo um tomo enorme. — "Crônicas Ocultas da Vila e Seus Guardiões". Parece promissor. Angelina sentou-se e começou a ler, enquanto Miller folheava outro livro. Cada página era mais intensa do que a anterior: relatos de crianças desaparecidas, de cultos que surgiam e desapareciam, de eventos sobrenaturais que ninguém ousava explicar. Mas o que mais chamou sua atenção foi um capítulo sobre a linhagem da família Morais. — Miller… — murmurou, apontando para uma ilustração na página. Era um símbolo muito familiar, o mesmo que haviam visto no porão e nos locais dos assassinatos. — Este símbolo… é o nosso. É de minha família. — Então tudo isso não é coincidência — respondeu Miller, olhando com os olhos arregalados. — Eles sempre souberam que você existia. Sempre souberam que uma descendente poderia interferir. Angelina continuou lendo, o coração acelerado. A história de suas antepassadas começava no século XVII, mulheres conhecidas por seus dons, por protegerem a vila de forças malignas. Cada geração deixava registros, rituais e ensinamentos, alguns escondidos, outros queimados, e a última geração que chegou até ela havia consolidado a força da guardiã. — Isso explica a energia que senti ontem à noite — disse Angelina, ainda folheando o livro. — Não era apenas proteção. Era força ancestral, mas… também havia limites. O que quer que eu enfrente… ontem, eu só consegui sobreviver porque minha linhagem reagiu. Mas amanhã… pode não ser suficiente. Miller respirou fundo, tentando absorver a magnitude da situação. — Então não estamos apenas lidando com um culto. Estamos lidando com algo muito maior, algo que eles tentaram controlar por séculos. Angelina assentiu. — E não apenas controlar. Eles queriam usar Odette, usá-la para quebrar a barreira ancestral. Para isso, sacrificaram crianças. E eu… eu quase os deixei vencer por não perceber antes. — Não se culpe — disse Miller. — Você salvou Odette. E depois… tudo o que você fez ontem impediu algo ainda pior. Mas precisamos agir rápido. Eles vão tentar de novo. E eu não quero imaginar o que fariam se conseguissem te capturar. Angelina fechou o livro e respirou fundo. — Então vamos começar. Precisamos localizar todos os lugares que têm ligação com os rituais do passado, descobrir onde eles planejam agir, e reunir tudo que minha linhagem deixou. Cada objeto, cada símbolo, cada palavra pode ser crucial. Miller assentiu e começou a organizar os livros. — Então começamos pelo mapa que encontramos no último livro. Floresta ao norte, círculos antigos, símbolos… talvez possamos reconstruir os passos do culto. Angelina estudou o mapa com atenção. — Sim. Cada círculo, cada local… é um fragmento do ritual. Se conseguirmos entender a sequência, podemos prever o próximo movimento deles. E talvez possamos interromper tudo antes que alguém mais morra. --- No fim da tarde, as duas começaram a jornada até a floresta, carregando os livros, mapas e instrumentos antigos de medição que Miller havia improvisado. O caminho era estreito, coberto por galhos e folhas secas, e cada passo fazia o chão ranger. A sensação de vigilância nunca as abandonava — sombras se moviam entre as árvores, e a brisa carregava sussurros quase inaudíveis. — Você sente isso? — murmurou Miller, parando abruptamente. — Como se estivéssemos sendo observadas. — Sempre — respondeu Angelina, concentrada. — Mas agora sei como canalizar isso. Minha linhagem… minha energia ancestral reage a presenças sobrenaturais. Precisamos manter a concentração. Elas avançaram, finalmente chegando a um círculo de pedras antigas, um dos pontos indicados pelo mapa. A atmosfera ali era diferente: o ar parecia mais denso, carregado de eletricidade e energia. Pequenos símbolos esculpidos na pedra refletiam a luz do entardecer, brilhando de maneira estranha, quase sobrenatural. Angelina sentiu um arrepio subir pela espinha. — É aqui… o ritual começou aqui. — E eles podem tentar terminar aqui — disse Miller, observando os arredores. — Precisamos nos preparar. Angelina respirou fundo e começou a entoar as palavras que aprendera com os livros antigos, invocando a presença das antepassadas. O chão começou a vibrar levemente, e uma luz azul-dourada envolveu o círculo de pedras. As sombras entre as árvores recuaram momentaneamente, como se soubessem que estavam sendo confrontadas. — Miller, segure o círculo comigo — disse Angelina, apontando para um símbolo desenhado no chão. — Precisamos manter a barreira ativa. Se qualquer um deles tentar se aproximar, não podemos permitir. Miller se ajoelhou, colocando as mãos sobre o símbolo, e uma corrente de energia começou a fluir entre as duas. Cada respiração, cada pensamento, cada memória de Odette ou das antepassadas fortalecia o campo. E então, de repente, as sombras se moveram. Formas encapuzadas emergiram da floresta, avançando em direção ao círculo. O culto estava lá, mais numerosos do que esperavam, e cada um carregava símbolos semelhantes aos que Angelina já havia visto. — Prepare-se — murmurou Angelina, sentindo a energia da linhagem reagir ao perigo. — Isso vai ser maior do que ontem. O chão tremeu, e a floresta pareceu ganhar vida própria. Galhos se contorciam, raízes se erguiam, pedras voavam. A batalha que estava prestes a acontecer não seria apenas física; seria espiritual, ancestral, e mortal. E enquanto a primeira sombra avançava, Angelina olhou para Miller e sussurrou: — Juntas, até o fim. O silêncio da floresta se quebrou em gritos, rugidos e energia sobrenatural. O verdadeiro teste da guardiã havia finalmente começado.
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