A floresta parecia diferente enquanto Angelina e Miller caminhavam de volta pela trilha.
Não era apenas impressão.
O ar estava mais leve.
Durante a ida até o círculo de pedras, o silêncio da floresta tinha sido quase sufocante, como se cada árvore estivesse prendendo a respiração. Agora, lentamente, os sons naturais voltavam.
Primeiro o farfalhar das folhas.
Depois o canto distante de um pássaro.
E então o som suave de insetos escondidos entre a vegetação.
Miller foi a primeira a notar.
— Você percebeu?
Angelina olhou para ela.
— O quê?
— Os sons.
Ela gesticulou ao redor.
— Quando chegamos aqui… estava tudo morto.
Angelina assentiu.
— Eu também senti.
Ela olhou para trás por um instante, na direção onde o círculo de pedras havia ficado.
Mesmo distante, parecia que algo naquele lugar ainda pulsava.
Como uma cicatriz no coração da floresta.
— Você acha que realmente acabou? — perguntou Miller.
Angelina demorou alguns segundos para responder.
— Acho que… terminou por agora.
Miller suspirou.
— Essa não foi exatamente a resposta tranquilizadora que eu esperava.
Angelina deu um pequeno sorriso cansado.
— Eu também gostaria de uma resposta melhor.
Elas continuaram caminhando.
A trilha parecia mais longa na volta.
Talvez porque o peso do que havia acontecido finalmente começava a cair sobre elas.
Depois de alguns minutos em silêncio, Miller falou novamente.
— Então vamos revisar o que aconteceu hoje.
Angelina levantou uma sobrancelha.
— Você está fazendo um relatório mental?
— Exatamente.
Miller começou a contar nos dedos.
— Primeiro: descobrimos que existe um culto antigo na cidade.
— Segundo: esse culto tentou sacrificar uma criança há décadas para manter uma criatura presa.
— Terceiro: essa criatura tentou acordar hoje.
Ela levantou outro dedo.
— E quarto: você aparentemente tem sangue mágico que pode controlar selos sobrenaturais.
Angelina riu baixinho.
— Quando você coloca assim… parece absurdo.
Miller olhou diretamente para ela.
— Porque é absurdo.
As duas caminharam mais alguns metros.
A luz do sol atravessava as copas das árvores em feixes dourados.
Angelina pensou em Odette.
A menina finalmente parecia em paz.
Pelo menos isso.
— Você viu ela desaparecer? — perguntou Miller.
Angelina assentiu.
— Sim.
— Acho que finalmente encontrou descanso.
Miller ficou em silêncio por um momento.
— Ela merecia isso.
Angelina concordou.
Por alguns minutos caminharam sem falar.
Até que Miller parou de repente.
— Espera.
Angelina virou-se.
— O que foi?
Miller estava olhando para o chão.
— Essas pegadas.
Angelina aproximou-se.
Havia marcas na terra da trilha.
Pegadas profundas.
Mas não eram delas.
Pareciam mais pesadas.
Como se várias pessoas tivessem passado por ali recentemente.
Angelina franziu a testa.
— O culto?
Miller agachou-se para examinar melhor.
— Talvez.
Ela tocou uma das marcas.
— Mas tem algo estranho.
Angelina inclinou-se.
— Estranho como?
Miller apontou.
— Veja o tamanho.
A pegada era maior que um pé humano normal.
E mais profunda do que deveria.
Como se algo extremamente pesado tivesse caminhado ali.
Angelina sentiu um frio percorrer a espinha.
— Isso não parece humano.
Miller levantou-se lentamente.
— Não.
As duas trocaram um olhar.
Angelina falou primeiro.
— A criatura estava presa.
Miller respondeu:
— Sim.
— Mas aquela mão que vimos…
Angelina terminou a frase:
— Não era o corpo inteiro.
O vento passou pelas árvores novamente.
Dessa vez trazendo um som distante.
Um estalo.
Como um galho quebrando.
As duas viraram-se na mesma direção ao mesmo tempo.
— Você ouviu isso? — perguntou Miller.
Angelina assentiu.
O som veio novamente.
Mais próximo.
Passos.
Pesados.
Lentos.
Algo estava se movendo na floresta.
Miller sussurrou:
— Acho que não estamos sozinhas.
Angelina pegou a lanterna da mochila.
Mesmo sendo dia, a luz ajudava a atravessar a vegetação densa.
— Quem está aí?
Silêncio.
Então mais um passo.
O som de folhas sendo esmagadas.
Algo grande se movia entre as árvores.
Miller pegou um galho grosso do chão.
— Isso é ridículo.
Angelina perguntou:
— O quê?
— Eu estou prestes a lutar contra um monstro com um pedaço de madeira.
Angelina quase riu.
Mas naquele momento as árvores à frente se moveram.
E algo saiu da vegetação.
As duas congelaram.
Não era um monstro.
Era um homem.
Alto.
Com roupas simples de caminhada.
Cabelos escuros um pouco desalinhados.
Ele parecia tão surpreso quanto elas.
— Uau — disse ele levantando as mãos.
— Calma.
— Eu não sou uma criatura ancestral.
Miller piscou algumas vezes.
— Você apareceu na hora errada para fazer piadas.
O homem olhou para o galho que ela segurava.
— Eu percebi.
Angelina deu um passo à frente.
— Quem é você?
O homem hesitou por um momento.
Depois respondeu:
— Meu nome é Daniel.
Ele apontou para a floresta.
— Eu moro na cabana do outro lado da colina.
Miller cruzou os braços.
— Uma cabana?
— No meio dessa floresta?
Daniel deu de ombros.
— Algumas pessoas gostam de cidades grandes.
— Eu prefiro árvores.
Angelina observava ele com atenção.
Algo parecia… estranho.
Não ameaçador.
Mas incomum.
— Você viu algo estranho por aqui hoje? — perguntou ela.
Daniel pensou por um instante.
— Depende da definição de estranho.
Miller respondeu imediatamente:
— Cultistas.
— Rituais.
— Uma criatura gigante tentando sair da terra.
Daniel ficou em silêncio.
Depois deu um pequeno sorriso.
— Ah.
— Então vocês também viram.
Angelina e Miller se entreolharam.
— Você está falando sério? — perguntou Angelina.
Daniel assentiu.
— Eu ouvi o tremor.
Ele apontou para o chão.
— A terra aqui fala quando algo antigo se move.
Miller murmurou:
— Ok… isso está ficando cada vez mais estranho.
Daniel observou as duas com curiosidade.
— Vocês estavam no círculo de pedras, não estavam?
Angelina ficou alerta.
— Como você sabe disso?
Daniel respondeu calmamente:
— Porque aquele lugar é conhecido por quem vive na floresta.
Ele olhou para o caminho atrás delas.
— Mas quase ninguém vai lá.
— Especialmente depois do que aconteceu décadas atrás.
Angelina perguntou:
— O sacrifício?
Daniel assentiu.
— A história da menina.
Miller franziu a testa.
— Como você sabe disso?
Daniel respondeu:
— Algumas histórias não ficam apenas nos livros.
Ele observou Angelina com mais atenção.
— Você é a guardiã, não é?
Angelina sentiu o coração acelerar.
— Como você—
Daniel levantou a mão.
— Calma.
— Eu não sou do culto.
— Na verdade… eu passei anos tentando impedir que eles voltassem.
Miller soltou uma pequena risada incrédula.
— Claro.
— Agora temos um caçador de cultos na floresta.
Daniel deu de ombros.
— Algo assim.
Angelina ainda o observava atentamente.
— Se você sabia do culto… por que não fez algo antes?
Daniel respondeu com honestidade:
— Porque o selo estava forte.
Ele apontou para o chão.
— Até hoje.
Angelina sentiu um peso no peito.
— Então você sabia que algo poderia acontecer.
Daniel assentiu.
— E eu senti quando aconteceu.
O vento soprou novamente.
Mas desta vez trouxe algo diferente.
Um som distante.
Como um eco.
Um rugido profundo.
Muito fraco.
Mas inconfundível.
As três pessoas ficaram em silêncio.
Miller foi a primeira a falar.
— Por favor me diga que isso foi apenas imaginação.
Daniel olhou para a direção de onde o som veio.
Seu rosto ficou sério.
— Não.
Angelina sentiu o sangue gelar.
— O selo…
Daniel terminou a frase:
— Está enfraquecido.
Miller abriu os braços em frustração.
— Mas ela acabou de selar a coisa!
Daniel respondeu calmamente:
— Sim.
— Mas criaturas antigas não são presas facilmente.
Ele olhou para Angelina.
— Você atrasou o despertar.
— Mas não o impediu completamente.
O silêncio caiu novamente sobre a trilha.
Angelina apertou os punhos.
— Então ainda não acabou.
Daniel respondeu:
— Não.
Ele olhou para o céu, onde nuvens começavam a se formar lentamente.
— Na verdade…
— Acho que isso foi apenas o começo.
Miller respirou fundo.
— Eu realmente precisava de um semestre universitário normal.
Angelina olhou para a floresta à frente.
Sentindo aquela energia distante novamente.
A criatura ainda estava lá.
Mais profunda.
Mais silenciosa.
Mas viva.
Esperando.
E desta vez…
Ela sabia que seu destino estava ligado a aquela coisa de uma forma que ainda não compreendia completamente.
Ela virou-se para Daniel.
— Se você quer impedir o culto…
— Então vai ter que nos ajudar.
Daniel sorriu levemente.
— Eu estava esperando que você dissesse isso.
A floresta permaneceu silenciosa ao redor deles.
Mas muito abaixo da terra…
Algo antigo se movia novamente.
Muito lentamente.
Como uma sombra despertando dentro da própria terra.
E em algum lugar distante…
Arthur Valen ainda observava.
Planejando.
Esperando a próxima oportunidade.
Porque para ele…
A história ainda estava longe de terminar.