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1028 Palavras
Ecos que Nunca Morrem O campus da universidade parecia uma pequena cidade construída para sonhos. Espalhados entre árvores antigas e jardins bem cuidados, os edifícios de pedra clara se erguiam com uma elegância tranquila. Durante o dia, os corredores eram tomados por estudantes carregando livros, risadas ecoando pelas escadas, vozes discutindo ideias, arte, política e vida. À noite, porém, tudo mudava. As luzes amareladas dos postes iluminavam caminhos silenciosos, e o vento passava entre os edifícios antigos produzindo sons suaves que, às vezes, pareciam quase sussurros. Angelina caminhava por um desses caminhos naquela noite. Seus caracóis dourados estavam presos de maneira descuidada no alto da cabeça, com alguns fios escapando e caindo sobre o rosto. Ela carregava um caderno grande contra o peito, manchado de tinta e carvão. Era quase meia-noite. As aulas de artes visuais costumavam se estender até tarde, principalmente quando havia projetos importantes. Angelina adorava esses momentos. O silêncio da madrugada parecia amplificar sua criatividade. Desenhar era a única coisa que realmente a fazia sentir algo profundo. E ela precisava disso. Muito. Aos vinte e um anos, Angelina tinha aprendido a viver com uma parte de sua história que preferia não lembrar. A internação psiquiátrica aos quatorze anos era uma memória que ela guardava numa caixa fechada dentro da mente. Ela nunca falava sobre isso. Nem mesmo com seus pais. Os médicos haviam dito que ela havia sofrido um episódio psicótico juvenil. Algo raro, mas possível. Com tratamento e acompanhamento, ela havia melhorado. Os anos seguintes foram tranquilos. Sem visões. Sem vozes. Sem fantasmas. A medicação foi reduzida lentamente até desaparecer completamente aos dezoito anos. Desde então, sua vida havia seguido um caminho aparentemente normal. Ou pelo menos… quase normal. Angelina sempre teve uma imaginação muito intensa. Talvez por isso tivesse escolhido estudar artes. Na universidade, os professores a consideravam uma estudante talentosa. Seus desenhos tinham algo diferente — uma profundidade emocional difícil de explicar. Muitos deles retratavam sombras, rostos indistintos, figuras humanas envoltas em escuridão. Mas ninguém achava estranho. Afinal, artistas eram assim. Ela chegou ao prédio das residências universitárias pouco depois da meia-noite. O corredor estava silencioso, exceto pelo som distante de alguém assistindo televisão em algum quarto. Angelina abriu a porta do quarto 312. A luz estava acesa. Miller estava sentada na cama, cercada por livros e um laptop aberto. — Finalmente! — disse ela, levantando os olhos. — Eu estava começando a achar que você tinha decidido morar no ateliê. Angelina sorriu levemente. — Quase isso. Miller era o oposto completo de Angelina. Enquanto Angelina era reservada, observadora e silenciosa, Miller parecia ter energia suficiente para preencher três pessoas. Ela falava rápido, ria alto e tinha uma capacidade impressionante de fazer amizade com qualquer ser humano em menos de cinco minutos. Seus cabelos castanhos eram curtos e bagunçados, e seus olhos estavam sempre brilhando com curiosidade. As duas dividiam o quarto havia quase um ano. E, de alguma forma, funcionava. Miller fechou o laptop. — Então… terminou aquele projeto de pintura? Angelina deixou o caderno sobre a mesa. — Quase. — Posso ver? Angelina hesitou. — Não está pronto. — Justamente por isso quero ver. Ela abriu o caderno antes que Angelina pudesse impedir. Durante alguns segundos, ficou em silêncio. Angelina observava atentamente. — Uau… — murmurou Miller. A página mostrava um desenho feito a carvão. Uma floresta escura. E, no centro dela, a silhueta de uma menina pequena. O rosto estava parcialmente oculto por sombras. Mas havia algo perturbador naquela figura. Miller inclinou a cabeça. — Isso é… meio assustador. Angelina tentou rir. — É só um estudo de atmosfera. Miller continuou olhando. — Você desenha muitas crianças estranhas. — Crianças estranhas? — Sim. Já reparou? Metade dos seus desenhos tem crianças olhando para algo fora da página. Angelina sentiu um leve desconforto. — Acho que é coincidência. Miller fechou o caderno e devolveu. — Coincidência artística, então. Elas conversaram por mais alguns minutos antes de se prepararem para dormir. O quarto das residências universitárias era simples: duas camas, duas mesas de estudo, um armário compartilhado e uma janela que dava para o jardim central do campus. Angelina escovou os dentes no pequeno banheiro do corredor e voltou para o quarto. Miller já estava deitada, mexendo no celular. — Amanhã temos aula às oito — lembrou ela. Angelina apagou a luz. O quarto mergulhou numa penumbra suave. Durante alguns minutos, tudo ficou quieto. A respiração tranquila de Miller logo indicou que ela havia adormecido. Angelina, porém, continuava acordada. Havia algo inquietante naquela noite. Não era medo. Era mais… uma sensação de expectativa. Como se algo estivesse prestes a acontecer. Ela tentou ignorar. Fechou os olhos. Respirou fundo. Mas então ouviu um som. Muito leve. Quase imperceptível. Um arranhão. Como unha raspando em vidro. Angelina abriu os olhos lentamente. O som vinha da direção da janela. Ela se levantou devagar para não acordar Miller. O jardim lá fora estava iluminado por algumas luzes do campus. Nada parecia fora do lugar. Nenhum movimento. Nenhuma pessoa. Angelina franziu a testa. Talvez fosse apenas o vento. Ela estava prestes a voltar para a cama quando percebeu algo estranho. No vidro da janela. Uma marca. Como se alguém tivesse desenhado com o dedo na superfície embaçada. Três linhas verticais. Angelina aproximou-se lentamente. O coração começou a bater um pouco mais rápido. Ela não se lembrava de ter feito aquilo. Estendeu a mão e tocou o vidro. A superfície estava fria. Muito fria. Apagou as linhas com a palma da mão. Por um momento, ficou ali parada. Observando seu reflexo. Apenas ela. E então aconteceu. Por menos de um segundo. Muito rápido. Algo apareceu atrás de seu reflexo. Uma forma pequena. Pálida. Imóvel. Angelina piscou. O reflexo voltou ao normal. O quarto estava vazio. Ela sentiu o coração acelerar. — Não… — murmurou baixinho. Deu um passo para trás. Respirou fundo. — Foi imaginação. Precisava ter sido. Sete anos. Sete anos sem qualquer visão. Sete anos de normalidade. Aquilo não podia estar voltando. Angelina voltou lentamente para a cama. Mas naquela noite, o sono demorou muito a chegar. E quando finalmente chegou… Ela sonhou com uma floresta. E uma menina parada entre as árvores. Observando. Esperando.
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