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1438 Palavras
A Casa que Observa A manhã chegou cinzenta. Uma neblina fina cobria o campus da universidade, envolvendo os prédios antigos em uma atmosfera silenciosa e pesada. As árvores balançavam lentamente com o vento frio, e o céu parecia ter perdido completamente a cor. Angelina acordou antes do despertador. Seu coração ainda batia rápido por causa do sonho. Ela permaneceu alguns segundos olhando para o teto do quarto, tentando recuperar o controle da respiração. O sonho parecia mais real do que qualquer outro que já tivera. Odette. A menina estava chorando. E havia dito algo que não saía da mente de Angelina. Eles voltaram. Angelina sentou-se na cama e passou a mão pelo rosto. Do outro lado do quarto, Miller ainda dormia profundamente, enrolada no cobertor. Angelina levantou-se devagar e foi até a janela. A neblina tornava o campus estranho, quase irreal. Por um instante, ela teve a sensação de que alguém estava observando. Mas não havia ninguém. Ela respirou fundo e voltou para a cama. Minutos depois, Miller despertou. — Você já está acordada? — murmurou com a voz sonolenta. Angelina assentiu. — Não consegui dormir direito. Miller esfregou os olhos. — Pesadelos? Angelina hesitou. — Mais ou menos. Miller sentou-se. — Foi com Odette? Angelina confirmou. — Sim. — O que aconteceu? Angelina contou o sonho. Falou sobre a casa antiga, sobre o choro da menina e sobre as palavras que ela dissera. Miller ouviu tudo em silêncio. Quando Angelina terminou, Miller parecia mais séria. — “Eles voltaram”, você disse? Angelina assentiu. — Foi isso. Miller cruzou os braços. — Isso pode significar muitas coisas. — Eu sei. — Pode significar que alguém fez algo com ela… e que essa pessoa voltou. Angelina sentiu um arrepio. — Ou pode significar outra coisa. — O quê? Miller respondeu lentamente: — Que algo que estava adormecido voltou. O silêncio tomou conta do quarto. Angelina desviou o olhar. — Eu também pensei nisso. Miller levantou-se da cama. — Ok. Então precisamos continuar investigando. — Os registros da cidade. — Exato. Duas horas depois, elas estavam na biblioteca central da universidade. O prédio era antigo. Altos vitrais coloridos deixavam a luz entrar em tons suaves, e o cheiro de livros antigos dominava o ambiente. Miller conduziu Angelina até a seção de arquivos históricos. — Aqui. Angelina observou as estantes altas cheias de caixas e documentos antigos. — Isso vai demorar. — Provavelmente. Elas começaram a procurar. Durante quase duas horas, examinaram jornais antigos, registros da cidade e documentos digitalizados. E então Miller encontrou algo. — Angie. Angelina aproximou-se. — O que foi? Miller apontou para um documento antigo. Era um registro de propriedade da cidade. — Veja isto. Angelina leu o endereço. E sentiu o sangue gelar. Era o endereço da casa onde seus pais moravam. — Isso… isso é impossível. Miller apontou para a data. — 1945. Angelina franziu a testa. — Então? — Isso significa que a casa já existia na época em que Odette desapareceu. Angelina continuou lendo o documento. — Quem era o dono? Miller deslizou o dedo pela página. — Aqui. Angelina leu o nome. E sentiu o coração apertar. O sobrenome era o mesmo da sua família. Mas não era o nome de seu pai. Era um nome que ela nunca tinha ouvido antes. — Victor Alencar. Miller inclinou a cabeça. — Parente seu? Angelina balançou a cabeça lentamente. — Eu nunca ouvi esse nome. Miller pensou por alguns segundos. — Talvez um antepassado. Angelina continuou olhando para o documento. Algo naquele nome a incomodava profundamente. — O que diz mais aí? Miller leu. — Diz que a propriedade foi vendida em 1952. — Para quem? — Para outro m****o da família Alencar. Angelina sentiu um nó no estômago. — Então minha família mora naquela casa há décadas. — Sim. Angelina respirou fundo. — E Odette desapareceu enquanto a casa pertencia a alguém da minha família. Miller fechou o arquivo devagar. — Isso não significa que sua família fez algo. Angelina assentiu. — Eu sei. — Mas significa que talvez sua casa tenha visto algo. Angelina ficou em silêncio. Porque naquele instante ela teve uma sensação estranha. Uma memória distante. Uma lembrança da infância. Ela lembrou de um lugar na casa. Um porão. Um porão que seus pais sempre mantiveram fechado. Ela nunca soubera exatamente por quê. Até agora. — Miller… — Sim? — Acho que sei por onde devemos continuar. — Onde? Angelina respondeu em voz baixa. — Na minha casa. --- Três dias depois. Angelina e Miller estavam dentro de um ônibus viajando pela estrada que levava à cidade natal de Angelina. O céu estava escuro e carregado de nuvens. Miller olhava pela janela. — Então sua casa tem um porão que ninguém usa? — Sim. — E seus pais nunca deixaram você entrar? — Nunca. Miller levantou uma sobrancelha. — Isso parece exatamente o tipo de lugar que aparece em histórias de terror. Angelina tentou sorrir. — Eu também pensei nisso. Algumas horas depois, chegaram à pequena cidade. A casa de Angelina ficava em uma rua tranquila cercada por árvores antigas. Era uma casa grande. De madeira escura. Bonita… mas também estranhamente silenciosa. Miller observou o lugar. — Uau. Angelina abriu o portão. — Bem-vinda à minha casa. Os pais de Angelina estavam viajando naquele fim de semana. E seus irmãos moravam em outras cidades. A casa estava completamente vazia. Angelina abriu a porta. O interior cheirava a madeira e lembranças. Miller caminhou pelo corredor observando os quadros nas paredes. — Sua casa é linda. Angelina sorriu levemente. — Sempre gostei daqui. Mas algo parecia diferente. O silêncio. Era pesado. Como se a casa estivesse esperando por algo. — Onde fica o porão? — perguntou Miller. Angelina apontou para uma porta no fim do corredor. As duas caminharam lentamente até lá. Angelina colocou a mão na maçaneta. — Pronta? Miller assentiu. Angelina abriu a porta. Uma escada de madeira descia para a escuridão. Miller pegou o celular e ligou a lanterna. — Vamos. Elas começaram a descer. Cada passo fazia a escada ranger. O ar lá embaixo era frio e úmido. Quando chegaram ao fundo, viram um espaço grande cheio de caixas antigas. Angelina começou a examinar os objetos. Velhos móveis. Livros antigos. Baús. Então Miller encontrou algo. — Angie. Angelina aproximou-se. Miller estava segurando uma caixa de madeira. — Veja isto. Dentro havia fotografias antigas. Angelina começou a folhear. Retratos de família. Pessoas que ela nunca tinha visto. E então encontrou uma fotografia que a fez parar. Era uma foto antiga. Uma casa. A mesma casa em que estavam. E diante dela… Um homem. Atrás dele… Uma menina. Angelina sentiu o coração parar. A menina da foto era Odette. — Miller… — Eu estou vendo. Angelina virou a fotografia. No verso havia uma frase escrita à mão. “Odette veio novamente hoje.” O silêncio ficou pesado. Então algo aconteceu. A luz do celular de Miller começou a piscar. — Isso não é bom — murmurou Miller. O ar ficou mais frio. Muito mais frio. Angelina sentiu um arrepio percorrer todo o corpo. E então ouviu algo. Passos. Lentos. No andar de cima. As duas congelaram. — Angie… seus pais voltaram? — sussurrou Miller. Angelina balançou a cabeça. — Não. Os passos continuaram. Caminhando pela casa. Devagar. Como se alguém estivesse procurando algo. Miller engoliu em seco. — Talvez seja um ladrão. Angelina sabia que não era. Porque naquele momento… Uma voz infantil ecoou no porão. Um sussurro fraco. — Angelina… Miller arregalou os olhos. — Você ouviu isso? Angelina assentiu. A temperatura caiu ainda mais. E então… Algo apareceu na escada. Uma pequena silhueta. A figura de uma menina. Odette. Ela estava parada no topo da escada. Mas não estava sozinha. Atrás dela… Havia sombras. Sombras que não pareciam humanas. Angelina sentiu o coração disparar. — Odette… A menina levantou lentamente o braço. E apontou para o fundo do porão. Miller virou a lanterna. A luz iluminou o chão. Revelando uma porta de madeira escondida atrás de caixas. Uma porta que nenhuma delas tinha visto antes. O sussurro da menina ecoou novamente. — Aqui… E então… A figura desapareceu. Mas as sombras não. Elas permaneceram na escada. Se movendo lentamente. Como se tentassem descer. Miller agarrou o braço de Angelina. — Angie… — Sim? — Acho que encontramos algo. Angelina olhou novamente para a porta secreta no fundo do porão. E sentiu uma certeza terrível. O segredo de Odette. O segredo daquela casa. Estava escondido atrás daquela porta. Mas algo ali dentro… Não queria que fosse descoberto. E naquele instante… As sombras começaram a descer a escada.
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