d***a. d***a. d***a. É isso que eu ganho quando resolvo dar um up na minha vida? Serio? Um pneu furado, uma roupa toda encharcada de espuma e bem no meio de um bloco de carnaval?
Valeu a todos ai de cima.
Vamos resumir os últimos acontecimentos: eu terminei com o Bruno. Bruno Santoni, o cara mais fofo e lindo que já conheci. O típico cara que toda mulher sonha em ter, desses que a gente só vê em filmes clichês.
Eu briguei com a Priscila, nada mais nada menos que a minha melhor amiga de anos, a mesma que brincava de cabaninha comigo e assistia filmes de terror quando eu estava triste- e olha que ela morre de medo dessas coisas- só pra eu esquecer dos meus problemas. Tudo por causa de um embuste no qual ela insiste em dizer que é o amor da vida dela ( qual é? Ela tem 18 anos, não conheceu nem metade da vida dela ainda) e fui "expulsa" de casa pela minha tia.
A tia Cíntia me cria desde... desde a vida toda praticamente, pelo menos desde que meus pais sofreram um acidente de carro quando eu ainda tinha 8 anos. Não gosto de sequer pensar nessa tragédia que mudou completamente o meu destino e virou minha vida de cabeça pra baixo. Tudo que guardo deles hoje é uma fotografia nossa, em frente ao cinema quando tinhamos acabado de assistir Procurando Nemo em uma sessão especial. Inclusive, é graças a essa foto antiga que ainda tenho os rostos deles gravado na minha memória, caso contrário, nem isso eu teria mais o direito de ter.
O fato é: ela quer que eu faça faculdade de algo seguro e eu quero fazer teatro. Então, já que não quero algo que ela queira, meio que fui obrigada a sair de casa e vim parar em BH para....
Ai.
Caio com tudo no chão, sentindo minhas costas pesadas. Minha mão está apoiada no asfalto áspero e pelo desconforto na região, pelo visto ganhei alguns ralados.
- Desculpa, desculpa, desculpa... deixa eu te ajudar por favor... é que -assim que consigo sentar e olhar para cima, me deparo com uma garota de 1,65cm arrumando os cabelos todos desajeitados, suada, consertando a saia que no momento esta no umbigo, uma ruiva de cabelos longos.- ai eu sou muito desastr...
- Calma, calma minha filha. Eu estou bem. - consigo finalmente abrir a boca e me levantar. - Na verdade você poderia olhar para onde anda, mas levando em consideração que ninguém aqui olha por onde anda, eu ... Relevo dessa vez - digo com um ar de humor em minha voz e só então me dou conta que estamos no meio do bloco sendo quase massacradas.
Parece que ela também se dá conta disso, pois passa a mão no meu braço e me puxa desesperada para a porta de uma loja, que está fechada.
- Na verdade eu estava meio que correndo, eu quero muito sair daqui, sabe... - ela se aproxima mais para que eu possa ouvir, como se fosse me contar um segredo - problemas... hã... pessoais - fazendo uma careta.
Um banheiro. É disso que ela precisa.
Estava perto de pedir a ela alguma informação de onde posso encontrar um lugar para passar a noite, quando uma mulher, alta, morena, com cabelos Black power surge no meio da multidão, segurando um copo de cerveja e meio cambaleando.
Ela se aproxima da menina ruiva, e agarra seu braço.
- achei um banheiro para você d*****r amada, vem aqui - ela puxa a garota toda desajeitada, sumindo no meio de tanta gente, nem se dando conta da minha presença ali, bem do lado da sua amiga. A ruivinha apenas conseguiu acenar para mim, e eu devolvi o cumprimento.
Fiquei um pouco atônita, tentando entender o que foi isso que acabou de acontecer. Será que o povo daqui é assim mesmo? Todos despojados, falando com facilidade dos seus problemas...Tão diferente dos paulistas. Enfim, está a noite e é melhor eu procurar algum lugar para dormir, afinal, dirigi o dia inteiro, e é bem capaz que eu fique aqui e acabe dormindo no meio fio, depois arrumo um jeito de tirar meu carro dessa movuca. Pois, definitivamente, não tem jeito de tira-lo daqui mais, muito menos arrumar pneu.
...
Claro ,ne Diana!!! Óbvio que em pleno Carnaval, Belo Horizonte estaria lotada, ou seja, zero lugar para você passar a noite. Belo começo de nova vida. E antes que você ai do outro lado me julgue por não ter arrumado um lugar antes para ficar, tenho uma ótima justificativa: eu apenas pensei que tudo seria fácil...
Pensando por esse lado, não é uma justificativa tão boa assim. Quer saber, pode me julgar, eu mereço. Mereço todos os xingamentos do mundo, porque no fim das contas titia tinha razão: eu vivo no mundo do faz de conta que acha que no final vai dar tudo certo.
Merda!! Já são quase 22hr e nada. Já posso sentir o cheiro de esgoto de baixo da ponte. Consigo até ver a sujeira dos meus braços e o odor pelos inúmeros dias que vou ficar sem tomar banho. Adeus faculdade de teatro, adeus televisão...
Para já ai Diana. Chega de delírios. Você precisa se concentrar, afinal já chegou até aqui. Imagine como seria deprimente voltar para a casa de titia com o rabinho entre as pernas. Você só precisa de pensar.
Pensa
Pensa.
Argh, nada.
Eu deveria pelo menos conhecer alguém nessa cidade, não é possível que fui tão irresponsável assim.
Pera. Pera ai.
Tem a Julia!! Como não pensei nisso antes??? Ah, claro, eu estava ocupada demais me imaginando morar de baixo do viaduto.
Julia e eu fomos amigas... colegas... ,na verdade, conhecidas do colegial, ela era um ano a mais adiantada que eu na escola. Então, Julia passou no vestibular e veio fazer administração aqui na UFMG e nunca mais nos falamos. Sorte a minha tenho ela no insta, ela curte minhas fotos, então é claro que vai me ajudar, puff. Penso nisso quando estou mandando uma mensagem para a jovem garota de cabelos dourados.
Enquanto aguardo a resposta dela, caminho pela rua, ainda movimentada, com jovens bebendo e pulando.
Confiro o celular: Nada ainda.
Então, meu instinto humano sente o cheiro delicioso de coxinha da lanchonete ao lado e só agora me dou conta de que a ultima vez que comi foi quando parei na estrada para almoçar, o que dá mais de 9 horas sem comer.
Realmente, eu preciso colocar algo na minha barriga ou eu vou morrer antes de ir morar de baixo do viaduto.
Meia hora se passou e continuo sem respostas de Júlia... Com certeza deve estar em um dos bloquinhos de carnaval ou então super ocupada, porque com certeza não está me ignorando de proposito.
Só preciso de arrumar um jeito de ir até ela.
Poxa, é claro, uma vez ela me disse que morava perto da faculdade. É só eu ir atrás dela. Simples.
...
3 horas.
Esse é o tempo que estou procurando por Julia. Rodei a região da faculdade inteira, para simplesmente, depois. abrir uma foto na qual ela marcava a localização de onde ela morava, que por sinal, é um verdadeira casa UAU. As janelas grandes e brilhosas, evidencia que passou por uma faxina a pouco tempo. Sua tintura é palha com um enorme jardim ao redor.
E tendo essa visão eu só me pergunto em quais condições normais uma estudante teria como manter uma casa dessas, porque, até onde eu saiba, estudante nunca tem dinheiro para nada e quando tem gasta em corote ou xerox para a faculdade.
Mas é claro que Julia não é uma estudante comum. Ela é filha de um dos maiores donos de uma rede de lanchonetes em São Paulo, as quais são frequentadas apenas pelos altos escalões da elite paulistana. Com certeza sua família não a deixaria morar em uma república qualquer.
Aproximo-me do portão de grade, o qual me surpreende estar aberto justo a essas horas da noite ainda mais em pleno carnaval na capital mineira.
Passo por entre o jardim, perfeitamente bem cuidado, com gramas aparadas ajeito em frente a porta enorme de madeira e toco a campainha.
Toco uma vez.
Duas vezes.
Três vezes.
Depois da vigésima vez, finalmente ouço passos vindo do lado de dentro da casa. A porta demora a ser aberta e... MINHA NOSSA SENHORA DA GOSTOSURA. Deparo-me com um homem- homem não, porque isso aqui é um deus grego- de mais ou menos 1,85, bem definido e com a pele bronzeada. O peito está completamente a mostra e...usando apenas uma cueca.
Meu Deus! Abana.
- Pois não? - ele me olha meio impaciente, soltando uma bufada, encostando no batente da porta. Sua sobrancelha se ergue, me motivando afalar alguma coisa. Só então me dou conta que estou parada igual uma boba encarando... sua cueca, observado o tecido é claro!
- Hein?... hã...- tento me concentrar, desviando meus olhos do paraíso - A J-Julia está? Eu preciso muito de falar com ela, é-é urgente.
Ai, minha nossa, será que ele acha normal se apresentar nesse estado para uma desconhecida? Assim fica difícil me concentrar, quer dizer, só pouca desse calor que derepende aumentou em uns 20°C no mínimo
- Dianinha, meu amor, vejo que já conhece o Heitor!!- Julia aparece eufórica nos fundo, na verdade, eufórica até demais
Tanto tempo sem vê-la pessoalmente, havia me esquecido como ela consegue ser linda com seus cabelos claros e mesmo com o pouco tamanho.
Julia passa pelo tal do Heitor, o colocando atrás dela, que por sinal, parece ter se sentido aliviado por ela ter tomado as rédeas daquela situação.
Adeus visão do céu.
- Eu não queria atrapalhar, juro Julia.- de repente sinto meu rosto queimar por finalmente dar conta do que eles estavam fazendo ali a sós. Espero que ela diga algo, mas apenas me encara meio sem paciente, incentivando para que eu continue -mas é que estou sem lugar para ir e não conheço ninguém aqui, bem... eu pensei que talvez eu pudesse ficar- Resolvo dizer logo, sem rodeios.
Analisando as suas sobrancelhas erguidas, a forma com que ela passava as mãos pelos cabelos loiros desorganizados e para a expressão de decepção do deus grego atrás dela, me apresso falar - é só até amanhã, para que eu possa procurar um lugar para ficar. Hoje já está tarde, não vou conseguir nenhum lugar para passar a noite.
Julia se aproxima mais e encosta a porta atrás dela , me impedindo de curtir um pouco mais aquela miragem.
- Flor, eu gosto de você, mesmo, porém, estamos meio ocupados agora - ela ergue a sobrancelha e aponta os olhos para a porta e depois para ela. Eu entendi ao que ela se referia- queria te ajudar, mas não dá para você ficar aqui.- Julia curva os lábios, dando de ombros, como se aquele pedido fosse impossível de ser atendida.
.Ai que saco. Otimo, colocando as amigas em segundo lugar por causa de homem! Maravilha! E aquele papo de sororidade?
Nem pensar que eu sigo essa menina mais, nunca mais quero ve-la na vida.
Depois de me despedir dela com um sorriso choco, com vontade de cuspir na cara lavada daquela menina. Volto para a rua sem rumo, a pé, ainda suja da espuma de mais cedo e agora sem nenhuma esperança de conseguir um lugar para ficar.
E foi atravessando a rua, que tudo parou. Dizem que sabemos o exato momento em que nossa vida muda de sentido e ganha um novo passo. Já ouvi falar que a vida é feita de etapas que marcam no momento exato onde você está e o que vai vir acontecer. Por exemplo, a primeira etapa que marcou minha vida foi quando meus pais morreram.
O segundo veio a agora, quando num piscar de olhos, meu mundo gira, tudo fica mais lento, a visão escurece... Só consigo ouvir gritos, uma dor enorme no quadril e ver uma silhueta se aproximando... Até tudo desaparecer por completo.