6- PURGA

1043 Palavras
CAPÍTULO 6 PURGA NARRANDO Meu nome é Lucas, mas ninguém me chama mais pelo nome faz tempo. Aqui todo mundo me conhece como Purga. Tenho 24 anos. Sou magrinho, moreno claro, cara fechada por costume, não por maldade. Quem olha de fora acha que eu sou frio, mas é só sobrevivência mesmo. No morro, sentimento demais vira fraqueza. E fraqueza não dura. Nasci e cresci aqui no Morro da Penha. Barraco simples, chão frio, teto baixo. Minha mãe me criou sozinha. Guerreira pra caralhø. Daquelas que seguram o mundo nas costas e ainda pedem desculpa quando cansam. Ela fazia de tudo. Faxina, cozinha, bico, o que aparecesse. Eu ia junto quando dava. Cresci aprendendo cedo que dinheiro não cai do céu e que chorar não enche barriga. Meu pai? Nunca conheci. Nunca soube o nome direito. Nunca procurou saber de mim. Então aprendi a não sentir falta do que nunca tive. Minha mãe morreu quando eu tinha 16. Doença. Daquelas que vão levando aos poucos, igual a vida gosta de fazer com quem é pobre. Enterrei ela com a ajuda dos parceiros do morro. Nesse dia eu virei homem de vez, sem pedir. Depois disso, só tinha dois caminhos. Ou eu virava estatística… ou eu virava parte do sistema. Entrei pro corre cedo. Vapor primeiro. Olheiro. Sempre atento. Sempre na linha. Nunca gostei de aparecer demais. Quem aparece vira alvo rápido. Foi assim que o Torresmo me notou. Caio. O Rei da Penha. Ele viu que eu não falhava. Que eu não falava demais. Que eu pensava antes de agir. Me chamou pra perto. Me testou. Me botou em situação difícil. E eu passei em todas. Hoje eu sou sub dele. Braço direito. O cara que ele chama quando o bagulho aperta de verdade. Aqui no morro, confiança é coisa rara. E o Torresmo confia em mim. Por isso que quando o assunto é o filho dele, a parada pesa diferente. O moleque deu trabalho desde que a mãe morreu. Rebelde, agressivo, perdido. Criança criada no meio do barulho, da ausência, da dor. E criança assim… ou endurece demais, ou se quebra por dentro. O Torresmo tenta, do jeito dele. Mas pai não é só botar comida na mesa e arma na segurança. Criança precisa de outra parada. Por isso eu fiquei responsável de arrumar alguém pra cuidar do garoto. E não é qualquer um que entra na casa do Rei da Penha. Não é qualquer um que aguenta o clima. E muito menos qualquer um que o moleque aceita. Já passaram outras. Nenhuma ficou, até que ele desistiu de ter um babá pro pivete. Quando a Simone falou da Duda, eu fiquei com isso na cabeça. Nova. Estudada. Vida difícil. Essas costumam ser as mais fortes… ou as que mais se machucam. Passei o contato do meu celular. Esperei. Esperei mais do que eu costumo esperar qualquer coisa nessa vida. Celular do lado, tela virada pra cima, vibrando só com mensagem inútil de grupo. Nada dela. Nenhuma ligação. Nenhum “oi”. Nenhum sinal. Duda não ligou. E eu sou do tipo que não força. Quem quer, vem. Quem não quer, a vida segue. Mas ali não era só sobre mim. Era sobre o cria do Torresmo. E quando envolve o moleque, eu não deixo pra depois. Peguei a moto no fim da tarde. Capacete na cabeça, acelerei e desci o morro cortando as ruas já conhecidas, desviando de buraco, de gente, de vida acontecendo. Fui direto pra pensão da mãe da Simone. Eu conhecia o lugar. Pensão simples. Portão de ferro meio enferrujado, parede descascada, cheiro de café velho misturado com produto de limpeza. Lugar de quem luta todo dia. Quando eu encostei a moto, vi ela. Simone. Tava na frente da pensão, varrendo a calçada. Cabelo preso, roupa simples, corpo bonito do jeito que não chama atenção de propósito. Mina gata pra caralhø, mas daquelas que não dão confiança pra qualquer um. Olhar firme. Postura reta. Eu bato o olho e já sei: não é pro meu bico. Nunca foi. Desci da moto e ela levantou o rosto na hora. — E aí, Purga. — Fala, Simone. — encostei a moto e tirei o capacete. — Falei contigo mais cedo. A tua amiga ligou? Ela apoiou o cabo da vassoura no chão e suspirou. — Falei com ela sim. — respondeu. — Ela ficou de ligar. — Até agora nada. — falei, direto. Ela deu de ombros. — Duda é assim mesmo. Pensa demais. Olhei em volta, a pensão quieta, porta aberta, uma televisão ligada lá dentro passando jornal baixo. — E tu? — perguntei. — Já pensou em ir cuidar do cria? Ela riu sem humor. — Tu sabe que não dá. — respondeu na hora. — Minha mãe tá doente. Não posso largar ela sozinha. E outra… esse trampo aí não é pra mim, não. Assenti. Eu já sabia. — Mas a Duda… — ela continuou, varrendo de novo. — Ela precisa. Precisa mesmo. Tá difícil pra ela lá na casa dela. Remédio da mãe, aluguel atrasado… essas paradas. Meu maxilar travou um pouco. — Então ela vai ligar. — falei. — Vai. — Simone afirmou, com certeza. — Ela tá com medo, mas vai ligar. Quando aperta, ela encara. Fiquei em silêncio por alguns segundos. A experiência me ensinou a ler gente. E eu senti que aquela ligação não ia ser simples. Gente boa sofre mais pra decidir coisa difícil. — Quando ela ligar… — falei, colocando o capacete de volta. — eu vou atender. Simone me olhou sério. — Só… pega leve, Purga. — pediu. — Ela não é desse mundo. Olhei pra ela antes de subir na moto. — Nenhum de nós escolheu esse mundo. — respondi. — A gente só aprende a sobreviver nele. Liguei a moto e saí dali devagar, subindo o morro de volta. O céu já tava escurecendo, aquele laranja misturado com cinza que sempre antecede noite pesada. No bolso, o celular vibrou. Encostei a moto no canto, tirei o aparelho. Número desconhecido. Atendi. — Alô? Do outro lado, uma voz baixa, trêmula, mas firme tentando parecer forte. — É… é o Purga? Fechei o olho por um segundo. Era ela. — É sim. — respondi. — Pode falar. Continua.....
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