Dez

1592 Palavras
Quando a minha cabeça estava cheia e eu não podia conversar com jungkook e nem com minha terapeuta, só tinha uma pessoa a quem eu podia recorrer, Kim Taehyung. Por isso eu tinha aproveitado meu tempo livre para ir até o seu encontro. Além de tudo, queria lhe contar a novidade sobre meu novo namorado. — Hm, mais uma visita inesperada. — Taehyung sorriu malicioso ao me ver entrar no seu ateliê. E como de costume, o artista — totalmente alheio às boas novas — me agarrou com suas mãos grandes pela cintura e me puxou de encontro ao seu corpo, me deixando completamente rente a ele. Foi tudo tão rápido, que eu quase não tive tempo de evitar. Seus lábios já estavam vindo me recepcionar — era natural entre nós dois — mas por pouco eu consegui. Virei o meu rosto e com as mãos abertas sobre seu peito largo e másculo, o afastei. — Tae, eu não vim aqui pra isso. Ele me olhou confuso, claro, porque eu sempre ia ali pra isso. Bem, podíamos ter outros motivos para nos vermos, como jogar conversa fora ou pintar, mas sempre tinha espaço para um beijo e uns amassos. Ainda assim, o homem não insistiu, aquilo não era do seu feitio. Se eu mostrava não estar a fim — o que nunca acontecia — ele não cruzava a linha. Sendo assim, ele ficou parado de frente a sua tela quase pronta e esperou que eu falasse algo, o motivo para estar ali, afinal. Mordi meu lábio, um tanto nervoso, mas logo desabafei: — Aconteceu algo e eu queria falar com você. — Algo bom? — me encarou curioso. — eu acho que sim, tem um brilho diferente no seu olhar hoje. — sugeriu. — Bem, o Jungkook foi na minha casa ontem a noite. — falei um pouco sem jeito e ele me olhou interessado, com um ar de sabichão. — Ele estava meio pra baixo e nós bebemos um pouco. Depois de uns goles ele me disse que o namorado terminou com ele. — Hm, porque será que eu sinto que você já entrou em ação? — riu orgulhoso e o rubor no meu rosto me entregou. — É disso que eu gosto! — incentivou. — Me conte tudo. — Olha, não fui bem eu que o ataquei, se quer saber. — e dessa vez um sorriso presunçoso se estendeu por todo o seu rosto. Como se ele quisesse passar na minha cara de que sempre disse que meu amigo tinha segundas intenções comigo. — O Jungkook começou a dizer o motivo da separação e no fim ele estava confessando que me amava… — suspirei e Taehyung percebeu que contar aquilo não me dava a reação esperada. Eu me encontrava desesperado, assombrado por meus medos. — Ah, Taehyung. Ele se aproximou de mim de novo e dessa vez apenas segurou minha mão e acariciou meu rosto, me mostrando um sorriso super motivador, mas isso não bastaria. Eu precisava de paz mental para me ajustar à nova realidade em que me encontrava. — Calma, Yoon, vai dar tudo certo. — sua voz grave ganhou um tom realmente terno que passava tranquilidade. — Vocês se conhecem há tantos anos e o Jungkook sempre foi um ótimo amigo, não é? Não foi a gentileza dele que pegou seu coração tão forte assim? As palavras do meu ex amante me pegaram em cheio, como um golpe crítico. Foi assustador perceber que meu medo já estava tão estampado em meu rosto que — para aquele homem que sempre soube me ler tão bem — foi fácil ler nas entrelinhas. E embora eu tivesse medo de admitir até para mim mesmo todas as coisas que estavam me mantendo tão assustado, para ele eu contei. No fim das contas, era o motivo para tê-lo procurado. Ele sempre me deixava com a língua solta facilmente. — É, eu sei disso, mas todos eles eram. — lamentei em um tom baixo e vergonhoso. — Taehyung, todos eles eram perfeitos no começo e depois… Bem, nós sabemos como sempre acabava. — senti uma dor no peito. Eu só me dei conta do quão preocupada eu estava com aquela situação, quando Taehyung me puxou contra seu peito e ficou tocando meu cabelos, acalentando minha dor e as lágrimas que escorriam de meus olhos sem que eu notasse. E bastou esse gesto gentil da sua parte para que meu choro se intensificasse. Dentro do seu abraço aconchegante e protetor, eu coloquei parte do meu medo para fora. Ele era tão maduro e confiável que eu sempre sentia que podia me abrir para ele sem ser julgado. Se tinha algo que eu não precisava agora era receber olhares severos, porque realmente me assustava que aquele tipo de coisa estivesse mesmo passando pela minha cabeça. Até eu, que estava preso dentro do meu terror, sabia que era absurdo que meu medo fosse esse: — Eu tenho medo de descobrir que o Jungkook também pode mudar, Tae. Eu não quero descobrir que ele tem um lado que também deseja me machucar... E se a culpa for minha? Se for eu quem desperta isso nas pessoas? Foram tantos... — Yoongi, para, por favor. — me interrompeu. — Nem continua essa frase, isso é um absurdo completo! — agarrou meus ombros e me encarou. — c*****o, como pode pensar isso ainda? Olha pra mim, eu mesmo só sinto vontade de te mimar. — sorriu doce. — Desde que nos conhecemos, eu já te machuquei em algum momento? Bem, o sexo não conta, você gosta daquele jeito, não é? — riu e eu notava que ele só estava tentando aliviar o clima. — N-não, mas... — falei entre lágrimas, de forma insistente. — Não tem mais. Quando foi que o Jungkook não te tratou como se você fosse a coisa mais preciosa do mundo? Porque quando eu o conheci, foi a sensação que aquele garoto me passou. Eu me senti até meio desconfortável, porque ele ficava encarando cada movimento meu, me analisando, só pra ver como eu cuidava de você. Isso poderia ter me irritado um pouco, mas eu só consegui achar lindo, porque eu sabia o motivo dele agir assim. — fiz um beicinho e funguei o nariz, encarando seus olhos, tão dóceis quanto o timbre que me acalmava. — Yoongi, você já deu tantos passos, já percebeu tantas coisas em seu passado que não tinha entendido, já se deu um tempo e aprendeu a valorizar isso. Também não tem carência de buscar qualquer tipo de companhia e se sujeitar a tudo para mantê-las. Agora você tem algo diferente em mãos e eu não tô falando apenas do amor, mas do Jungkook, ele é alguém que te valoriza de verdade. Aquelas palavras me atingiram em cheio, bem em meu peito que se tornava pequeno de medo, mas completamente aquecido para novas possibilidades. — Eu odeio como você é tão maduro, Kim Taehyung, isso é tão fodidamente atraente. — revirei os olhos, amenizando a aura pesada entre nós, e ele continuou a enxugar minhas lágrimas. — Não foi por isso que veio aqui? — riu presunçoso. — Agora me escuta e vai ser feliz, Yoongi, não sinta medo disso. Você merece viver esse amor. A culpa nunca foi sua, você já disse isso tantas vezes e agora vai regredir? — me acusou. — Eu sei, eu sei. Eu sempre repito esse tipo de coisa e eu tenho consciência das coisas, mas, na realidade, Tat, antes mesmo do que aconteceu ontem com o Jungkook, às vezes eu ainda tenho esses pensamentos negativos. Não é inacreditável que todas aquelas pessoas... — Nem termina, você é um cara maravilhoso, mas tem certos idiotas que não sabem dar valor às pessoas boas que entram na vida deles. Em outra situação eu realmente ia querer namorar sério com você, mas a minha pequena vai ser sempre a minha prioridade e o Jungkook vai continuar te fazendo muito feliz. — abriu um sorriso largo, ele era um pai extremamente bajulador. — Isso só te deixa mais atraente, sabia? — zombei. Queria entrar na sua onda e mascarar essa angústia que atormentava o meu coração — por cogitar que Jungkook podia se tornar como os outros — usando piadinhas particulares que faziam parecer que eu não estava realmente ruindo por dentro. Eu aceitava todos os conselhos de Taehyung, mas eu pensei como meu melhor amigo reagiria ao saber que eu estava com medo dele. Decepcionado? Talvez furioso? Eu sabia desde o começo que Jungkook ia abrir um caos no meu interior. Porque quando eu estava em em seus braços, recebendo seus carinhos e palavras doces, tudo era perfeito, no entanto, longe dele eu reavaliava nossa decisão e deixava que os meus velhos traumas afetassem sua índole. — Ah, eu vou sentir falta do que tínhamos, Yoon, — tocou meu rosto e lambeu seus lábios de um jeito sexy, chamando minha atenção de volta para si. — mas eu sempre torci por vocês dois. Dá pra sentir a química de longe e eu duvido que o Jungkook seja um babaca a essa altura. — mais uma vez Taehyung me tranquilizou, quase como se pudesse ler minha mente. — Isso, ele não é. — falei firme, confirmando o que nós sempre soubemos, mas por dentro eu não tinha essa confiança toda e isso estava começando a me incomodar muito, como se eu estivesse traindo Jungkook. Afinal de contas, ele nunca tinha me dado motivos para desconfiar de nada, então, porque eu estava com tanto medo dele?
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