Capitulo 16

5003 Palavras
A princesa fora arrastada para dentro da montanha, derrotada e inconsciente. O lorde de Béllenian era ignorante, não sabia que seus subordinados levavam o inimigo para o interior do castelo, as pobres almas não estavam cientes que forneciam os meios para forças maiores se unirem, forças bem maiores que tudo que o seu arcaico raciocínio compreendia. Uma criatura que se alimenta de morte, sofrimento e escuridão, o mundo não sabia que uma ascendência tão antiga e profana estava prestes a ser despertada, os tolos Béllenianos ingenuamente estavam prestes a aflorar a sua sede de sangue e poder, o mundo estava a um fio de sangrar e queimar por conta desse erro. Keira O mundo ainda girava quando abri os olhos, minhas costas doíam, tive de me esforçar para erguer a cabeça sobre o ombro, estava amarrada, uma corda dourada estava presa nos tornozelos, ela subia pelas minhas costas até os meus punhos onde estava enrolada, depois até o pescoço, forcei as amarras e elas apertaram-se dolorosamente beliscando a pele, estavam encantadas. A pressão que elas exerciam sobre o meu corpo, deixou-me com respirações curtas, firmemente imobilizada, dependurada no ombro áspero de um Orcan fedorento, tinha certeza de que m*l conseguiria ficar de pé com aquele tipo de amarra, fui carregada por corredores escuros até que chegamos a um enorme salão, senti-me como se vivesse no auge da era medieval, muito ferro, mas nenhuma tapeçaria, paredes tão sólidas que pareciam espessas demais, era como se o local tivesse sido esculpido em uma montanha. Como cheguei aqui? Fragmentos de uma luta na escuridão da floresta deixaram-me tonta, fui golpeada e desmaiei. Havia um burburinho constante, mas o olho inchado limitava o alcance da minha visão, a única iluminação existente vinha de tochas presas as paredes, de repente, um silêncio sepulcral tomou conta do ambiente e com um solavanco o troglodita colocou-me no chão, os meus pés latejaram com o impacto, ele me aprumou de pé quando cambaleei e uma onda de náusea embrulhou o meu estômago. — Quem é nossa adorável convidada? — Uma voz suave perguntou, a multidão apática abriu-se à minha frente e me deparei com um trono de pedra imponente. — Encontramos na floresta, havia um lobo com ela, mestre.  Um dos guardas respondeu, fora o que havia me golpeado pelas costas, covarde. Pelo menos era burro o suficiente para não distinguir entre um lobo e um Shapeshifter, na verdade nem eu sabia direito a diferença. — Não há lobos no norte, não mais. Silêncio, todos estavam à espera de alguma outra reação do tal mestre, ninguém ousava mexer um músculo sequer, a sala estava repleta de desconhecidos, pessoas de expressão carrancuda e fria, mas podia jurar que ouvia uma respiração curta e rápida da maioria, ergui o rosto devagar para ver quem eles temiam, um macho de cabelos ruivos e olhos verdes como lodo me observava. Ele tinha um olhar penetrante que parecia ver tudo que eu era, estremeci ao sentir meu poder se esvaindo, como se estivesse sendo sugado por um parasita, era isso que estava me deixando enjoada? Lembro de sentir tontura e em seguida ser nocauteada. Merda, assim não conseguiria manter a transfiguração por muito tempo. Ele estava sentado, a mão no queixo e me avaliando como se eu fosse uma oferenda, não esbocei reação alguma, ele empertigou-se no assento, o seu semblante fechou-se, os lábios finos crisparam-se ao observar-me.  — É rude não se apresentar ao anfitrião, apesar de jovem não parece simplória a ponto de não saber o mínimo de etiqueta. Qual o seu nome? — Perguntou gentilmente, sentia-me como se estivesse em frente a uma cobra. Não ousei responder, meses atrás teria dito sem nenhuma hesitação, mas dizer meu nome não era seguro. Não poderia dizer quem era, não quando não tinha nenhuma noção de onde estava, cerrei os dentes, não diria nada. — Brandy. — Chamou sem se dirigir a ninguém em específico. A multidão abriu-se mais uma vez concedendo passagem a alguém, com o último resquício de força, virei-me para olhar e m*l consegui disfarçar a surpresa. Era um rosto conhecido, parecia um pouco diferente, se o meu nariz não estivesse quebrado conseguiria comparar o cheiro, mas ainda era o macho com quem treinara durante meses, o mesmo que virou meu amigo em meio a todo o receio ao meu redor, ele hesitou por um momento quando o seu olhar encontrou-se com o meu, xinguei-me por não reconhecer um inimigo, pela minha tolice em ser amigável com um desconhecido, ele sabia que não era uma camponesa qualquer, no instante em que o nosso olhar se conectou ele descobriu meu disfarce, conseguia ver isso tudo no seu olhar. — Meu senhor, em que posso servi-lo? — Liam perguntou entediado e de uma forma muito petulante, dessa vez tive a certeza que era ele, mas como o chamou, Brandy? Traidor. Canalha maldito. Ele posicionou-se todo arrogante à frente da multidão, ao meu lado, perguntei-me por que o macho permitiria um comportamento daqueles naquela corte claramente intimidada, fiquei curiosa para determinar a natureza da ligação deles, esforcei-me para ficar ereta mesmo enquanto me preparava mentalmente para o que estava por vir. — Nossa convidada se recusa a me dizer seu nome, deixe-a… maleável. Sabe que aprecio seus talentos com lâminas, alguém precisa ensinar modos a essa criança. Lâminas... Um arrepio subiu pela minha espinha e deixou os pelos da minha nuca eriçados, o meu estômago se revirou quando aquele par de olhos acastanhados estreitaram-se e focaram em mim, acesos como uma fornalha, era uma cor fascinante e por um instante pensei ter visto medo neles, mas tudo foi esquecido quando uma comoção surgiu e guardas entraram arrastando algo e jogaram à minha frente, cerrei a mandíbula ao ver Amon completamente ensanguentado, minha coragem vacilou, no fim, ele não conseguiu escapar. — Parecem se conhecer, são amigos? Liam perguntou, ele era muito mais alto que os demais, ficando abaixo apenas dos Orcans, perguntei-me se ele era algum tipo de mestiço, mas fora o tamanho, ele não se parecia em nada com aquelas criaturas repulsivas, estreitei os olhos e olhei envolta, como ele se encaixava ali? Percebi que nunca perguntei de onde era, quem eram seus pais... merda, não sabia nada sobre ele. A maioria das pessoas eram morenas, alguns de cabelos castanhos, outros de cabelos pretos, tez pálida, grandes e corpulentos, só havia um lugar com habitantes com essas características, Béllenian, estávamos mesmo no reino do norte? Por um instante pensei que o macho ruivo havia dito isso para me despistar, mas era verdade, tudo indicava isso, Liam me avaliou com os olhos semicerrados, ele devia ser um estrangeiro, mas os modos não eram de plebeu e se assemelhavam ao dos nobres que conhecia. A princípio, julguei que ele fosse inferior a Ibrahim, mas agora vendo-o vestido apropriadamente com uma túnica e calcas de couro preta, a elegância e superioridade dele eram sobressalentes e apesar dos traços delicados que não me atraíam, reconhecia sua beleza, etérea e ainda assim letal, como uma lâmina afiada. Ele curvou-se e estalou os dedos à frente do meu rosto. — Concentre-se, bonitinha. Grunhi, fiquei furiosa ao ver o esgar daquele sorriso atrevido, tentei endireitar as costas, vesti uma máscara de indiferença, e o olhei nos olhos, um sorriso felino ornamentou o seu rosto enquanto se inclinava sobre mim, como se estivesse me desafiando a acertá-lo, mesmo que estivesse contida. Ele farejou o ar, parou por um instante e olhou-me espantado, um sorriso c***l formou-se nos seus lábios, o meu coração disparou, e se ele ouviu, acabara de confirmar as suas suspeitas.  — Parece que perdeu o medo dos machos. — Sussurrou zombeteiramente, crispei os lábios e franzi o nariz enojada.  — Cretino. — Minhas amarras foram puxadas com força, me fazendo cair com os joelhos no chão, arfei com o choque repentino. — Bem melhor. Não acha, senhor? O macho sorriu satisfeito, juntei saliva o suficiente na boca e cuspi em Liam, o sangue acertou precisamente o seu rosto, ele se limpou com um lenço e olhou-me irritado. — Realmente terei de lhe ensinar alguns modos. — Sibilei ao ser acertada no rosto, cuspi sangue no chão e quando me preparei para o segundo golpe, Liam impediu o guarda com apenas uma mão antes dele acertar-me novamente. — Não use a força, meu método é melhor. — Ele se virou novamente para mim quando o guarda se afastou. — Me diria o seu nome se esfolasse o seu lobo? A pele dele daria um belo casaco e faz muito frio no norte — Declarou tirando alguns fios de cabelo escuro do meu rosto, seu olhar parecia querer penetrar o meu crânio, ele queria dizer-me algo, mas... o quê? Me esforcei para não me encolher diante do seu toque e da ameaça sútil, Amon ergueu o rosto, o olhei de soslaio, ele lançou-me um olhar de repreensão que passei a conhecer muito bem. Não diga nada. Me afastei da mão dele, não podia dizer o meu nome, sabia disso, Liam e Amon sabia também e estão entendi Lobo, ele se referiu a ele como lobo, não como caelendus, ele estava protegendo minha identidade? Deveria me calar? Sozinha aguentaria quaisquer torturas, por meus amigos, mas com Amondiel aqui... Liam pareceu entender isso apenas com um único olhar que troquei com Amon, o meu peito se apertou, sentia-me sufocada, talvez estivesse captando pensamentos num ato de pânico, mas a voz de Amondiel berrou na minha mente. — Não lhe diga, não irão me matar. Sabem que não irei dizer, então farão de tudo para que a senhorita fale. Irá doer, mas não diga, não irão me matar, precisam de nós vivos. — Ande logo, não tenho o dia todo. — O macho no trono murmurou entediado, Liam o olhou com escárnio. — Paciência é uma virtude, meu senhor.  Cantarolou ao se aproximar despreocupadamente de Amon, ele levantou a sua cabeça puxando o seu pelo ainda escuro devido o disfarce, um grunhido de raiva escapou e ele olhou-me receoso, em dúvida, durou apenas alguns segundos antes que o divertimento brilhasse nos seus olhos. — Diga o nome da sua mestra. Porra. Empalideci. Ele não ia nos proteger? Amon rosnou e quase pude ver aquele sorriso arrogante que tanto admirava nele, ele latiu e saltou em cima de Liam, mas foi contido por uma corda no seu pescoço quando um Orcan o puxou para trás, fios dourados rodearam o seu focinho e ele foi jogado ao chão com força, estremeci. — São igualmente insolentes.  Amon se debateu e olhou-me como se buscasse se agarrar a única coisa que se importasse para conseguir suportar tudo, ele estava se preparando para a tortura, era isso. Será que o meu olhar também era esse? E naquele instante, tudo ficou em câmera lenta, conseguia ouvir os murmúrios excitados da corte não mais silenciosa, uma gota pingando em algum lugar distante, o ruído abafado do dedo do macho ruivo batendo impacientemente contra o braço do trono... pude me ver refletida nos olhos de Amondiel, e eu tinha o mesmo olhar dele, por baixo do olho inchado, desejei mais-que-tudo atar o nó entre nós, queria protegê-lo até o fim dos meus dias, Amon relaxou, como se tivesse sentido também, ele fechou os olhos e endireitou o corpo. O macho olhou para Liam, exigindo uma ação, ele semicerrou os olhos indeciso, o seu olhar alternando de Amon para mim.  — Irá desejar ter dito o seu nome no momento que colocou os pés aqui. — Congelei, ele com certeza tinha um talento natural para fazer ameaças. Ele sacou uma lâmina e agachou-se agarrando um punhado de pelo na nuca, Amon começou a ganir e se debater, olhei para ele confusa, Liam ainda não havia tocado nele, o que estava acontecendo...? Um grito ensurdecedor fez as minhas pernas fraquejarem, desabei no chão desnorteada, os meus ouvidos estavam sensíveis e doíam, e então, eu dei-me conta, não era outra pessoa gritando senão eu. Os guardas seguraram-me firme puxando o meu cabelo, aprumaram-me de joelhos e obrigaram-me a olhar para a cena à minha frente, o meu couro cabeludo formigava e ardia, Liam permaneceu agachado com uma expressão entediada, olhando para o corpo de Amon se contorcendo no chão daquele lugar decrépito quando ele puxou um pedaço de pele ensanguentada, os demais riram e gargalhavam, as suas expressões maliciosas se contorciam em divertimento, ele não precisaria de muito para matá-lo, um corte na garganta e tudo estaria acabado, mas ele queria dor e sofrimento, ele iria torturá-lo. O meu coração estava se partindo e o macho m*l havia começado, minha cabeça começou a arder com uma pontada lancinante de dor, me fazendo agonizar, não pude reprimir um gemido, ao longe escutei a voz sedutora dele. — Fascinante. O elo deles é absurdamente profundo e nem ataram o nó. Seu nome, bonitinha? — Perguntou segurando outro punhado de pelo, dessa vez na parte de dento da pata dianteira direita. Lágrimas ardiam nos meus olhos, Amon olhou-me, o seu rosto contorcido que denunciava a agonia na qual estava. Desmoronei Me perdoe, me perdoe, você foi dado a mim e não consigo protegê-lo… — Diga-me, seu nome. Exigiu, mas não conseguia vê-lo, só enxergava Amon, o sofrimento de Amon, aquele que me protegeu, o primeiro que fez algo por mim, que me enxergou como alguém importante, alguém que merecia respeito, lealdade... a lealdade dele, e deixei que o machucassem. — Seu nome.   Olhei em volta, olhei até onde conseguia esticar o pescoço para ver, gravei o rosto de cada um que estava se divertindo com o sofrimento de Amondiel, os faria sofrer quando os matasse, mataria cada um deles, poderia deixar que vivessem e apenas os mutilaria se fosse comigo, mas não permitiria que zombassem do sofrimento do meu guardião, do meu irmão... Uma movimentação no centro do salão resgatou a minha atenção, Liam estava de pé, ergueu o pé e pisou na cabeça de Amon, o manteve ali, debaixo da sua bota, o seu olhar afiado cortou qualquer reação da minha parte, e naquele momento, desejei mais que tudo poder matá-lo, o rasgaria em pedacinhos, lentamente arrancaria os seus olhos com as minhas unhas e o faria engasgar com a própria língua, mostrei os dentes para ele, o canalha riu. — Que garotinha monstruosa, gosto da promessa de violência nos seus olhos. —Acabe com isso. Ordenou, os meus olhos saltaram para o macho e algum saber profano me disse seu nome... Simon. Olhei para Liam, a voz sussurrou novamente. Kenneth. Esse era seu verdadeiro nome? Ele assentiu silenciosamente, percebi que havia transmitido minha pergunta a ele, seu olhar pousou em Amon, os orcans aproximaram-se com massas, a primeira desceu com violência, um barulho horroroso quando acertou Amon, depois outra e mais outra, um a um os seus ossos começaram a estalar, Amondiel gania e uivava, as patas se dobrando em ângulos errados, cada osso partido era sentido em minha alma, até que tudo ficou em silêncio, eu não piscava, minha razão havia fugido para algum lugar desconhecido e outra coisa havia permanecido, uma coisa profana, c***l e fria, tão fria e eu sabia os seus nomes, sabia os seus nomes... Amon se mexeu no chão e me olhou com ternura, mas enrijeceu o corpo como se estivesse se preparando para o golpe final, sabia que ele viria. Ele estava errado, eles iriam matá-lo, pois não sabiam quem nós éramos. — Solte-o. — disse com uma voz que não era minha, ninguém parecia respirar. — Serei a ruína desse reino e levarei todos à morte. Liam recuou como se tivesse sido atingido, mas não antes de rosnar cruelmente e mostrar os dentes, a morte dele seria doce e dolorosa, estreitei os olhos e as sombras sussurraram, abraçando aquele saber profano como se ele fosse um pedaço há muito perdido e esquecido, agora reencontrado. Ele morrerá por amor. Por amor? A quem? Sorri com escárnio, ele desejará ter me matado quando teve a oportunidade. — Uma coisa pequenina como você irá nos matar? Simon desdenhou, um sorriso malicioso surgiu em seus lábios quando olhou para seu capanga. — O reino do norte é famoso por conseguir informações das formas mais deliciosas, admiro sua determinação, garota. Rasguem sua blusa, há outros meios de descobrir a sua identidade. Não me importei quando rasgaram a minha roupa exibindo a minha nudez para a corte novamente silenciosa, estava tomada por ódio e m*l senti quando a brisa fria beliscou os meus s***s nus, a única coisa que via, era aquele macho na minha frente, rígido e c***l, os seus olhos não desgrudaram do meu rosto nem mesmo quando gargalhou, apenas quando os Orcans viraram-me de costas é que nosso contato visual foi cortado. — Ora, não é que estamos diante da realeza! Devo pedir que a minha corte se curve, vossa alteza? Ignorei o seu tom escarnecido, eles me viraram de frente novamente e foquei os meus olhos em Amon, ele estava ofegante e tombou no chão desacordado.  Matarei todos, matarei todos eles. Sim. Sim. Sim. As sombras entoavam como um mantra, tentei acalmar minha respiração. — Olhe para mim quando estiver falando, garota. Ordenou rispidamente, olhei para ele, algo queimava dentro de mim quando encarei aqueles olhos lodosos, ele era como uma serpente do pântano, mas eu era uma loba e seria especialmente c***l com esse, iria estripá-lo devagar, muito demoradamente, depois o queimaria e assistiria ele se enrugar como uma lesma quando alvejada com sal e sorriria de verdade enquanto ele agoniza e grita de dor.   — Seu pai me olhou assim quando matei o caelendus dele, sua tia também, é nostálgico ver os mesmos olhos azul-safira, me encarando com tanto ódio, é como se pudessem me congelar e me queimar simultaneamente. Foram mortes horrendas, se quer saber, o uivo de horror do rei quando parti o pescoço do Shapeshifter não foi nada majestoso, se é que me entende... Sabia que apenas a linhagem O´Brien possuem essa cor de olhos? Ele ajeitou-se no trono, como se estivesse prestes a dar uma palestra — Ninguém sabia o motivo, pois seria necessário um estudo anatômico, era raro encontrar cadáveres dessa linhagem, então, quando o seu pai e a sua tia morreram pude finalmente realizar o meu desejo, descobri que essa linhagem em particular tem alguns genes lupinos, por isso os olhos são puramente azuis, sem nenhum dourado ou castanho corrompendo-os, é por isso também que os Shapeshifter são designados apenas a linhagem O’Brien, mas esse aro preto ao redor da íris é... —Cale-se. — Grunhi. — Enfim, poucos sabem disso, é por isso que eles são tão raros, foi agonizante para os demais ouvir o estalo dos ossos se partindo, Brandy disse que ele não gritou daquela forma quando a rainha morreu ou nas horas seguintes em que o torturou, ele é seu primo sabia? Não se parecem muito, mas isso se deve aos genes do meu mestre que se mostrou dominante ao dos O'Brien. Pisquei atordoada, primo? Ele é meu parente? Isso quer dizer que ele é filho de Tyrone. Meu primo... aquele que matou a minha mãe. Lentamente virei a cabeça na direção dele, ninguém notou, mas o vi se encolher levemente diante de mim ficando cada vez menor enquanto sustentava o meu olhar. — Brandy fazia parte dos Dragões Negros... — Simon continuou, ignorante ao que acontecia ali. — Era o esquadrão de brutamontes montado a dedo pelo irmão dele, o Príncipe Herdeiro, eles eram os guerreiros mais cruéis e selvagens de Everness e vomitaram no chão desse mesmo salão, mas eu me deliciei com aquilo, o sofrimento da sua tia era suculento e doce assim como o do seu pai. Eu saltei. Ou tentei, pois as minhas amarras foram puxadas e fui jogada ao chão com o solavanco, ele sorriu como uma víbora, tudo ficou distorcido quando ele balançou a mão, uma ordem silenciosa. Um golpe forte atingiu a minha cabeça e fiquei atordoada ao sentir a umidade morna do sangue escorrer de trás da minha orelha para o meu pescoço, minha cabeça bateu no chão com um golpe surdo, m*l me mexi quando os golpes me atingiram, quatro Orcans grandes espancando uma garota imobilizada. A cada golpe a minha raiva aumentava, matarei a todos, arrancarei a cabeça deles, as gargalhadas continuaram, os risos eclodiram… perdi a noção do tempo, tudo que conseguia fazer era tentar me esquivar na tentativa de minimizar os danos enquanto contava as possíveis fraturas, quando tudo acabou me sentia pesada e nauseada, indícios de uma concussão, conhecia a sensação. Me esforcei para me levantar, meu cabelo estava úmido e grudado no meu rosto, suspeitava que era devido o sangue, Amon jazia inconsciente no chão os pelos brancos confirmando a sua identidade, ele recebera tratamento pior, fogo incendiou o meu peito, mas minha magia foi contida, franzi o cenho. Olhei uma última vez para Simon, dessa vez ele não sorriu e pude ver um pouco de receio nos seus olhos, medo, aquilo era uma pontinha de medo? Ele sabia, sabia que se não me matasse, eu o mataria, mesmo sem magia encontraria uma forma de matá-lo. Eu sabia o seu nome. Apenas não sabia o que fazer com isso. — Levem-na para as masmorras do último nível com o lixo lupino dela, deixem que sofram juntos na imundice. Não protestei quando os guardas me levaram, o meu corpo queimava em dor, não soube por quanto tempo descemos escadas, minha consciência oscilava e estávamos sempre descendo, jogaram-me numa cela escura e na tentativa de apaziguar os danos ao corpo de Amondiel, com um último lampejo de consciência joguei-me na frente dele quando os guardas o arremessaram no chão, e quase apaguei com a dor, sangue jorrou do meu nariz e sujou o pelo branco de Amon, foi a última coisa que vi, era como sangrar na neve, mas Amon ainda estava quente. Ele estava vivo. Machucado, mas vivo. (...) Acordei com dificuldade, o corpo de Amon estava me sufocando, mas não tive coragem de me mover, tudo doía, o gosto de sangue inundou a minha boca e quis chorar, chorar de raiva. Raiva por machucarem Amon, raiva pelo que fizeram com o meu pai e com a minha tia, foi agonizante ver Amon sofrendo e nem atamos o nó, não quero imaginar o que o meu pai sentiu quando mataram o seu caelendus. Chorei baixinho à medida que quase me afogava com as lágrimas, elas se empossavam nos vales das minhas orelhas, havia me esquecido do quanto era desagradável chorar deitada, parecia estar me afogando num mar de lágrimas e sangue, fiquei assim até que me senti cansada novamente.  — Pare de chorar, é irritante. Uma voz suave brotou da escuridão, não conseguia ver, mas sabia quem era e apesar do medo sufocante, foi minha raiva quem falou mais alto. — Fora. — Rosnei. — Fora daqui seu canalha traidor! Fiquei ofegante com o esforço, ter Amon em cima de mim não estava ajudando.  — É uma boca muito suja para uma princesa. Mesmo na escuridão, aquele olhar aguçado brilhou, ele também me lembrava uma cobra, talvez ele tivesse herdado a quietude de um maldito crocodilo, sempre à espreita, e agora me dei conta de que não havia visto nenhum caelendus com ele, nem na escola, seus olhos brilhavam perigosamente diante da luz fraca que entrava pela única a******a na cela. —Vá se f***r! — Tentei gritar. As palavras não passaram de um sussurro débil, rouco e medíocre, minha cabeça estava pesada e sentia que o mínimo movimento me faria vomitar. Liam se aproximou devagar, silencioso como uma cobra emboscando um rato, preparei-me para golpeá-lo, queria chutá-lo, queria pisoteá-lo até sentir o crânio dele se fragmentar sob os meus pés como se fosse uma casca de ovo, mas não consegui fazer nada, estava fraca demais, o meu corpo parecia pesar toneladas e o mínimo esforço me fazia ver fogos de artifício e quase desmaiar. — Onde está seu cavaleiro dourado agora? — Ele se agachou e segurou meu rosto com firmeza e quis morrer, o meu maxilar estava fraturado com certeza. — O que diria o nobre príncipe Ibrahim ao saber que a sua amada mofa alquebrada e sangrando nessa masmorra suja e fedorenta? — Cale a boca. — Gemi em agonia quando ele se abaixou e aproximou o seu rosto de mim, fúria brilhou nos seus olhos quando ele falou. — Onde ele estava, enquanto perambulava sozinha pela floresta?! Ele grunhia feito um animal, o rosto contorcido em raiva, desconfiava que ele não gostava de Ibrahim, sabia que Liam não gostava da maioria das pessoas do mundo, do universo, mas até onde ia esse ódio? Ele era nortenho, mas o ódio que via agora parecia diferente daquele que habitantes de reinos inimigos sentiriam. Olhando-o de perto ele parecia diferente de quando estávamos na sala do trono, sua boca não estava levemente curvada, como se ele estivesse prestes a sorrir, na verdade, nunca o vira tão sério, o que Ibrahim fez para ele? — Que tipo de cavaleiro negligência tão descaradamente a segurança da sua amada? Não se engane, ele é um cretino miserável, e ainda pior que eu.   Minha determinação vacilou quando me soltou, não iria cair nas suas provocações, virei a cabeça para que ele não visse a agonia no meu rosto, não conseguia nem manter a cabeça erguida para observá-lo e o senti observando a figura de Amon prostrada em cima de mim, sua mão ergueu-se para tocá-lo, antes que pudesse impedir, minha mão moveu-se e agarrou o seu pulso.  — Não. Toque. Nele. — Ele arregalou os olhos, espantado, mas recompôs-se em seguida.   — Solte. — Exigiu. — Precisa se curar, e não vai conseguir com um lobo de 70 quilos em cima do seu peito. Apertei a mão envolta do seu pulso, a dor que senti anestesiou-me, não sabia como ainda conseguia fazer aquilo, tinha certeza de que os ossos do meu braço estavam estilhaçados também, mas não me importava, se ele machucasse Amon eu o mataria a cabeçadas, e quando não conseguisse mais, iria mordê-lo, o espancaria com o meu corpo destruído e mesmo que isso não fosse o bastante, o afogaria com o meu próprio sangue se necessário.  — Irei matá-lo, arrancarei os seus olhos e os esmagarei como se fossem tomates maduros. — Ele sorriu. — Com certeza faria isso, bonitinha. Mas quem a ajudaria então? Acha que alguém virá? Ninguém sabe onde está, seu caelendus não pode ajudá-la, até mesmo ele precisa de algum tempo para se curar, e você? — Ele olhou rapidamente para meu corpo ao se afastar um pouco. — Está em um estado lastimável, se continuar a apertar o meu pulso com esse braço quebrado, terá o vislumbre dos seus ossos rasgando a sua linda pele de alabastro.  — Vá para o inferno! Gritei, minha garganta sangrou em protesto, uma onda lancinante de dor espalhou-se pelo meu braço quando ele se livrou do meu aperto, sem hesitação ele tirou Amon de cima de mim e senti o meu corpo arder em dor e agonia, mas quando ele fez menção de tocar-me, afastei a sua mão com um tapa. — Não me toque. Prefiro morrer à míngua e na imundice a aceitar sua ajuda, desgraçado de merda! Ofeguei, estava prestes a morrer, por um instante ele pareceu realmente ofendido, e com uma graça surpreendente ele levantou-se e fez uma reverência.   — Se é esse o seu desejo, irei me retirar, alteza. O cumprimento de uma víbora não seria tão venenoso quanto aquelas palavras. Violet foi superada no quesito peçonhento e ardiloso, as minhas pálpebras pesaram, a escuridão abriu os braços e a abracei satisfeita, a última coisa que vi foi Liam ao lado de meu caelendus, Amon ergueu a cabeça num esforço débil e rosnou para ele, farejou o ar e hesitou, em seguida ele perdeu-se na escuridão e rezei para que Amondiel rasgasse sua garganta.   (...) Não sei por quanto tempo cochilei, mas acordei ao ouvir um farfalhar estranho perto de mim, abri os olhos e passei a língua em cima do corte dos meus lábios, eles formigavam, o meu rosto inteiro formigava, trinquei os dentes e quase chorei diante da dor, o meu rosto devia estar deplorável, e agora não tinha mais a raiva para nublar os meus sentidos, e senti o meu infortúnio por completo.  — Tola, tola e desmiolada. Por que o ameaçou?! – Sorri ao ouvir os insultos, aquela voz fria e calma, agora era quente e irada, feito um vulcão prestes a entrar em erupção.  — É bom ouvir a sua voz Amon, com insultos e tudo. — Virei a cabeça para observá-lo, ele andava de um lado para o outro na cela, o pelo branco estava manchado de sangue perto da barriga, mas ele parecia bem, surpreendentemente bem. — Desculpe, sujei seu pelo.  — i****a, viver com os homines a deixou estúpida?! — Ele rosnou, depois se aproximou, farejou o meu corpo, fez uma careta e deitou-se ao meu lado. — Pouco me importa o pelo, por que fez aquilo? Por que disse aquelas coisas, não parecia você mesma... Ele me olhou, tão desolado que por um momento quis esbofetear a mim mesma, não entendia direito a relação dos caelendus com os seus mestres até esse momento, um não suportava ver o outro sofrendo, a simples ideia de machucá-lo me deixava em agonia. — Eu não sei, Amon... fiquei com tanta raiva, foi como se me perdesse dentro de mim mesma. Eu não podia deixar que o matassem.— Respirei fundo, meus olhos ardiam. — Mas, não queria ceder a eles, fui humilhada a vida inteira, não daria esse gostinho a ninguém, sinto muito, arrisquei a sua vida. — De qualquer forma, iria morrer com o tempo caso te matassem. — disse numa tentativa de consolo. — Eles iriam te matar primeiro. — Sussurrei.  O olhei, ele virou o rosto observando o único buraco naquela cela escura, depois se virou para mim e pude jurar que ele suspirou e xingou.
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