IV
O raio de Sol
O metrô de Nova york está lotado.
Mas quando não está?
Após entrar no metrô na Upper West side, perto da minha rua, faço o caminho de 13 minutos até a West 13th street, onde salto do metrô. O vagão é somente para mulheres, o que nos dá um conforto maior. Começo a caminhar até Washington street por mais ou menos 15 minutos. Eu ando rápido. Olho para os lados incessantemente, com medo. Não é um bairro muito bom. Logo ao virar a esquina avisto o Empire State. Procuro pela Editora e não há qualquer placa. O número é este. Olho novamente a folha arrancada do livro e subo os degraus do prédio. A porta indica que se trata de uma rádio agora. Bato duas vezes. Ouço barulhos lá dentro. Quando a porta se abre, um homem me olha de cima a baixo. Ele é gordinho, sem cabelos e muito branco.
— Você deveria estar aqui? — Pergunta ele com uma voz arrastada.
— Eu vim procurar uma Editora que funcionava aqui.
— Bem, agora sabe que não funciona. — Ele já ia fechar a porta quando meto a mão nela.
— Por favor, só preciso saber o endereço de uma escritora que era daqui.
Ele me olha de cima a baixo com olhar lascivo. Sei o que significa.
— O que está disposta a fazer por essa informação?
— Eu tenho dinheiro.
— Eu também tenho dinheiro.
—Senhor, é muito importante. Tem algum arquivo com endereços dos escritores?
Já me encontro desesperada.
— Acho que há uma caixa, mas você vai ter que entrar para procurar.
Novamente ele me olha de cima a baixo.
— Sabe que não posso entrar e nem sou p********a, só estou pedindo um favor.
Ele coça a cabeça com mau humor, como se tivesse sido acordado de um longo sono.
— Você é do freedom matters?*
— Não!
— Deveria ser, olha, eu vou te entregar uma pasta com uns arquivos e você se vira, okay?
— Obrigada.
Conheço a rudeza dos homens. Fazem de tudo por s**o, já que ninguém faz mais. Todos têm medo de todos. Eu devia estar insana ao entrar ali, poderia ser estuprada. Meti a mão na minha bolsa, em um spray de pimenta e tateei um taser de mão que nós também temos em casa, mas ele não está na minha bolsa. O homem demora alguns minutos e retorna a porta com uma pasta branca, onde se lê arquivo.
—Isso é tudo da antiga Editora. Agora vá embora e não me aborreça a menos que queira ficar e se divertir. — Ele sorriu com seus dentes amarelos e um hálito h******l.
— Obrigada!
Saio correndo e desço as escadas, sentindo o coração pulsar na jugular. O peito dói. Às vezes meu peito dói. Eu já tinha feito exames cardíacos no hospital e foi constatado um sopro no coração. Quando fico extremamente nervosa e ele bate muito rápido, eu sinto dor. Porém ela passa. Ouço o celular tocar insistentemente na bolsa e sei que Bridget me procura. Não posso sacar o celular naquele bairro. Olho mais uma vez para o icônico arranha-céu e lembro de tantos filmes antigos... A televisão dá preferência aos filmes de ação. Algumas vezes vejo alguns filmes românticos na internet, mas não gosto muito de terminar chorando. É lindo e eu choro demais, evito chorar.
É hora de olhar na pasta, então entro em um café, pois ainda está no horário das mulheres. A porta faz barulho com um sino preso a ela. A atendente me olha dos pés a cabeça e vira os olhos. Eu me sento em qualquer lugar, só há mais duas mulheres ali dentro e parecem esperar alguém. Abro a pasta e retiro alguns papéis de dentro dela para ler. Existem realmente endereços ali. Estou com sorte. Corro os olhos pelo papel até achar alguma coisa que indique M.G. Morrison. Está em ordem alfabética e quando percebo isso, corro meus olhos até quase ao final da lista. Lá está ela! A escritora tem um endereço em nova york! Solto um sorriso animado, porém logo percebo uma silhueta fazer sombra em meu papel. Ergo o olhar e vejo que a atendente me olha com uma cara desafiadora e segura um bule de café.
— Café?
— Não, obrigada.
—Não perguntei se quer, mas se vai pagar. Se não vai pagar, não pode sentar.
Ela é enfática. Assinto com a cabeça e começo a recolher minhas coisas. Ela se afasta percebendo que não vou ficar e volta ao balcão reclamando baixo. Eu consegui. Consegui o endereço da escritora. É hora de ir embora. O endereço não é tão perto, é Upper East side, o lado mais caro da cidade, do outro lado do Central Park, por isso irei outro dia. Já é quase meio-dia, vejo nos relógios das ruas. O metrô também é lotado para voltar, aliás é lotado a qualquer hora do dia. Como eu queria concordar com minhas irmãs de ir para o Texas. É bem menos populoso.
Assim que chego em Upper West side, consigo pegar o meu celular na bolsa e atender aos insistentes chamados de Bridget e Claire.
— Alô.
— Onde você está?! — Grita Bridget.
— Estou chegando, só fui conhecer minha amiga.
— É mentira, Kim! Onde você está?
— Eu estou chegan... — Estanco a fala ao passar pela lavanderia e ver Brian lavando suas roupas lá dentro.
Ele está fumando, sensualmente fumando, sentado sobre uma das máquinas. Lá está a luva amarela outra vez. Já fazem longos 5 dias que nos vemos pela primeira vez.
— Eu já estou chegando, Bridget.
Guardo o telefone na bolsa e meu movimento do lado de fora, faz com que Brian perceba que há alguém e vira seu rosto para mim. Congelo. Não sei o que fazer. Vou embora? Fico ali igual uma planta? Ele sorri. É o sorriso mais lindo do mundo. De repente, ele salta da máquina e se encaminha para a porta da lavanderia, em minha direção. Meu coração começa a doer novamente. Se eu morrer, morrerei feliz de ver aquele sorriso. Ele parece andar em câmera lenta novamente, mas sou eu que assisto ele dessa forma enquanto caminha. Brian chega muito perto, mas a uma distância considerável.
— Oi, Kimberly.
Ele olha para os lados. Está vestido com uma jaqueta jeans, pois o frio diminuiu um pouco. Olho igualmente para os lados para ver se alguém nos vigia. Retorno meu olhar ao dele.
— Oi.
— Tem roupas para lavar?
Ele parece não saber como puxar assunto tanto quanto eu. Abro um sorriso largo e logo olho para os lados para em seguida me conter.
— Não tenho... digo, hoje.
Ele coça a cabeça um pouco preocupado. Em seguida enfia a mão no bolso e não sei o que pega, mas estende a mão para mim.
— Bem, preciso ir. Foi bom te ver.
Brian olha para sua mão, reforçando o fato que devo apertá-la em cumprimento. Finalmente, a minha estupidez se dissipa e aperto sua mão, porém sentindo que há algo nela. Quando ele solta minha mão, se certifica de que eu senti que havia um pequeno pedaço de papel nela. Eu o encaro novamente e ele pisca um dos olhos. Quase derreto em frente a ele e nem sei bem o porquê. Sinto meu estômago revirar.
— Tchau, Kim.
Ele sai andando sem olhar para trás, confiando de que sou inteligente o bastante para entender que havia um recado naquele papel. Olho para os lados e desdobro o papel cuidadosamente. Sinto aquela dorzinha chata no coração de novo. Seria melhor ouvir a voz da razão e ir ao médico mais uma vez. Finalmente leio o recado, escrito a mão.
Esse papel está no meu bolso há dias. Esperava encontrar você. Neste site não podem rastrear nosso I.P. Entre, quero falar com você, Kim. Meu username é @sunreed25 e o app é conectus.
Ergo o olhar e vejo que ele se vira para mim de longe. Acho que quer se certificar mais uma vez que entendi a mensagem. Será que gostou tanto de mim assim? Estou feliz. Meu teimoso coração insiste em doer. Começo a andar para casa novamente. Enfio o papel no bolso o mais fundo que posso da minha calça jeans. Não faço ideia de como começar aquela conversa e nem como continuar. Ando mais rapidamente para chegar em casa.
Ao entrar, Claire e Bridget estão me esperando na sala. As expressões das duas são as piores que já vi. Bridget, sentada no sofá, ergue o olhar para mim com ar de fúria. Claire me olha preocupada, porém é mais relaxada. O que guardam aqueles olhos azuis tão claros?
— Pode começar a se explicar, Kim. — Bridget ordena.
Paro no meio da sala e examino seu rosto. Cruzo os braços com enfado, expulsando o ar dos meus pulmões.
— Bridget, na verdade, eu não preciso mas, na verdade, eu já disse, fui ver uma amiga do trabalho.
— Como assim não precisa? Sabe que sou a mais velha e que me preocupo com vocês duas. Você não tem o direito de nos deixar apavoradas não, Kim! — Ela alterou a voz — Ou não somos uma pela outra aqui?! Por acaso você é sozinha, Kim e eu estou sabendo disso agora?
As palavras dela me doem fundo. Eu sei que somos uma pela outra. Não esperava que ela jogasse aquilo nas minhas costas. Baixei os olhos, arrependida, pois minha irmã parecia preocupada de fato e não somente para me controlar.
— Desculpa, Bridget. Eu aviso da próxima vez.
— Até porque você sente dor no peito... Espero que esteja boa da cabeça para se lembrar disso também!
Ela se levanta e passa por mim tão rapidamente, com raiva, que meus cabelos até levantam com o vento do seu movimento. Olho Claire. Ela me observa com tristeza. Ultimamente, Claire só tem duas expressões: de apatia ou tristeza. Eu estava ficando realmente preocupada por minha irmã.
— O que você tem?
— Nada.
Ela se levanta e passa por mim, já completamente aliviada.
Tomo o caminho do meu quarto e tranco a porta. Sei que devo tomar um banho, afinal, tive contato com muitas pessoas, mas opto por somente trocar de roupa e deixar a usada a um canto no chão para lavar. Visto uma camisola e esfrego álcool em gel nas mãos antes de mexer no meu celular. Busco o papel no bolso e quase faço desaparecer o endereço a caneta com o álcool gel para desinfetar. Penso, imagino se tivesse que beijar um homem, será que eu teria que desinfetá-lo antes? Começo a rir sozinha, porém sem produzir som, a respeito do que pensei e também com a lembrança do sorriso de Brian. Deito na cama e procuro o aplicativo para baixar. Eu estou me arriscando. Muito. Mas a vida não me deixa escolhas. Ou eu a vivo ou a vejo passar diante de meus olhos. Minha mãe não passou pela dor do parto para que eu seja uma pessoa que apenas vive uma vida insípida e incolor, trancada em casa. Não quero que somente os números sejam meus amigos, mas também pessoas e também homens... Ou no caso, somente um. Eu preciso, tenho a necessidade de saber o que ele pensa a meu respeito, o que ele pensa a respeito do mundo e quais são seus sonhos. Eu sei que ele os tem porque seu olhar é alerta e vivaz. Somente uma pessoa que ainda tem sonhos de sair daquele cárcere e que vê uma luz no fim do túnel, tem aquele olhar. Eu não sei qual é o fim do túnel. Talvez seja o fim daquela separação? Daqueles impostos? Do dia em que chegaremos a ser menos de 9 bilhões de pessoas na Terra novamente e poderemos respirar aliviados? Eu sei que não será na minha diminuta existência que isso vai acontecer...Mas só de saber que vai acontecer, me enche de esperança.
Assim que o aplicativo baixa, procuro o username de Brian, que está escrito no papel. Acho alguém com uma foto do por do Sol. Não completo meu perfil com uma foto, prefiro encontrar algo na internet como uma flor. Um girassol. Acho que se encaixa perfeitamente com a foto dele, afinal se ele é o Sol, posso ser um girassol, pois os girassóis estão sempre se virando para buscar a luz do Sol. Kim, isso é extremamente romântico! Você foi contaminada pelo livro de M.G. Morrison, com certeza!
Olá!
Envio a primeira mensagem. Demora um pouco para que ele responda. Mas, a demora se alonga por mais de uma hora. Decido trocar meu username para @sunflower25, meu ano de nascimento e nesse momento percebo que o 25 no seu username também pode ser sua data de nascimento. Se assim é, temos ambos 26 anos. Decido não esperar, afinal vou receber notificação no celular de qualquer forma. Enfio a mão sob o colchão onde guardo os dois livros que peguei do baú e continuo a ler. Não vou trabalhar hoje, foi um dia cansativo, mas isso significa que amanhã redobrarei a meta de trabalho do dia de hoje.
O cowboy aparece no livro, colocando a sela no cavalo enquanto a dona da fazenda o admira de longe. Me sinto representada. Ela caminha até ele para demití-lo afinal, ele faltou com o respeito a ela quando achou que ela seria fácil. Eu concordo que aquilo não deve ficar assim. Mas como vão namorar se ela vai demití-lo? Então, o inesperado acontece e ele a abraça com força, enlaçando sua cintura e a puxando para junto de seu corpo.
— Eu acho que você me quer, aliás eu tenho certeza, Melissa. E vou provar!
Ele a beija ardentemente enquanto ela soca seu peito tentando se livrar, em vão. Ela também o quer. Muito. Quando finalmente para de resistir, cede aquele delicioso beijo sensual e molhado, deslizando as mãos pelo peito desnudo de j**k.
Ouvi uma notificação. Vamos ficar calmas, Melissa! Ufa! Esse beijo foi...foi... Uau, eu preciso parar de ler esse livro. Seria melhor ter pego meu e-reader e tentado achar algum livro de História da Grécia antiga para ler. Estou pegando fogo! O meio das minhas pernas está em brasas por j**k ou por Brian... Por ambos! Olho o celular.
Olá, loira bonita! Não achei mesmo que ia me contactar. É verdade ou estou sonhando?
Mordi a unha, sorrindo e olhando para a tela.
Eu estava curiosa, tive que baixar o app.
E quando terá roupas para lavar? Acho que precisamos conversar sobre os novos aromas de amaciantes, já percebeu o quanto estão cheirosos agora?
Soltei uma gargalhada alta. Ele era divertido!
Eu não reparei, sempre uso o mesmo, por causa da alergia da minha irmã Claire. Mas posso cheirar seu amaciante, me indica o nome?
Não posso, infelizmente. Você precisa cheirar pessoalmente. E estou me arriscando muito em dizer isso, eu sou tímido demais.
Duvido. Você não me parece nada tímido.
Kim, você me viu duas vezes de mais perto. Eu sou um nerd tímido. Mas sou espirituoso.
Ele pausou.
Estou muito interessado em saber o que você pensa, porque é muito linda...Desculpe o atrevimento, não me processe! (Sério!)
Eu sabia que ele falava sério. As mulheres podem processar os homens por assédio a qualquer momento e por qualquer motivo. É rentável, já que todos estão sempre precisando de dinheiro. Tento me pôr no lugar dele. Está se arriscando muito ao falar comigo, deve ter ficado realmente interessado em mim. Ainda que não possamos fazer nada. O coração está a mil, mas não dói porque estou segura em casa. Eu sei que se estivesse frente a frente com ele, certamente, eu desmaiaria de dor.
Muito obrigada. Pode fazer perguntas e eu respondo.
Demorou um tempo para que ele voltasse a fazer perguntas. Talvez porque eu sou um desastre em conversas, imagine com um homem! Aquilo jamais aconteceu comigo, eu estava muito nervosa.
Eu tenho vontade de te conhecer, girassol. Não parei de pensar em você desde que te vi na lavanderia.
Sinto o coração pulsar na jugular e em toda a cabeça. Porém não só ali. Brian conseguiu produzir em mim uma série de sensações gostosas em todo o meu corpo. Minha mente estava tendo dificuldades em processar aquilo tudo que ele disse. Ele não disse muito, mas o significado... Aquilo era um flerte. Um abusado e descarado flerte e eu não sei o que responder! Talvez Melissa, a protagonista do livro, me ajude a responder. Talvez M. G. Morrison me ensine a responder! Pensei em qualquer coisa, mas respirei fundo e pensei principalmente em colocar as ideias em ordem para responder algo que eu, de fato, queria dizer.
Também não parei de lembrar de você, Sol.
Demora...angustiante...agonizante... Talvez seja a internet.
Estou derretendo. Você é muito doce. Porque sou Sol?
Sua foto é um por do sol.
Ah sim, então colocou a sua como um girassol. E você me permite te paquerar? Por favor, não me processe, eu sou pobre, eu trabalho em uma lanchonete!
Permito. Não vou te processar, Sol.
Acho melhor colocar a Lua enquanto eu coloco o Sol, soa mais apropriado, eles nunca podem se encontrar.
Ele não percebe o quanto aquilo é verdadeiro ou será que sim? Se percebe, é a coisa mais bonita que já ouvi. Borboletas voam no meu estômago, é uma festa de sensações e sentimentos.