Dulce
O almoço foi mais que agradável. Eu me diverti ouvindo as histórias de Annie sobre os perrengues que já passou com a bebida, ria das muitas piadas de Christian e mesmo Maitê, que começou um pouco relutante, aos poucos também foi conversando comigo de forma educada.
Sempre me perguntei o que fazia Christopher gostar tanto daquelas pessoas e agora eu entendo. Eles são incríveis! Capazes de transmitir uma leveza única no ambiente.
— Sabe, eu tô me achando muito importante tendo essa liberdade de chamar a Dulce de Dulce. Então, obrigado por esse mimo, Dulce.
— disse Christian, fazendo todos nós rirmos.
— Imagina. Já estava na hora de baixar a guarda. — falei.
— Ainda bem, porque a gente não te suportava. — falou Maitê, mas logo se retraiu e me olhou temerosa, assim como os outros.
— Nem eu me aguentava. — dei risada e eles riram junto.
— E então, Christopher, conseguiu comprar o apartamento? — perguntou Annie. Christopher a olhou em silêncio por longos segundos e depois olhou para mim.
— Eu não vou me mudar. — sorriu de leve.
— Como assim, cara? Parecia louco pra achar um lugar logo. — Christian relatou.
— Eu já achei o meu lugar. — ele colocou sua mão sobre a minha e eu não pude evitar de sorrir.
— Isso quer dizer que você vai ficar aqui? — perguntei.
— Sim. — ele assentiu.
O abracei de forma instantânea e ele me abraçou de volta. Não conseguia me segurar de tão feliz que estava!
Por sorte, minha mãe preferia sair pra almoçar com suas amigas ricas do que ficar em casa.
Pelo menos eu não teria que me envergonhar por seu constante preconceito com os meus funcionários, que agora são meus amigos.
Depois do almoço, voltamos para a empresa e assim que cheguei, o diretor do setor de economia convocou uma reunião de urgência.
Nem tive tempo de passar em minha sala para deixar minha bolsa.
— Espero que seja importante. — falei entrando na sala de reuniões e me sentando na cadeira principal, de frente aos diretores.
— Senhorita Saviñon, achei melhor informar a todos sobre um problema que eu creio que vai afetar a empresa inteira e principalmente, a preocupação da senhorita. — ele começou.
— Seja direto. — ordenei.
— Ok. Como já é de conhecimento de todos, nós repassamos a verba do nosso vice-presidente, Alfonso, para o banco e eles a repassam diretamente para a conta dele. — respirou fundo. — Esse mês, o senhor Alfonso diretamente, apresentou um documento oficial pedindo uma quantidade mais alta ao banco. E como ele é herdeiro legítimo da empresa junto com a senhorita, tem acesso livre às contas.
— Quanto dinheiro ele tirou? — perguntei despreocupada, acreditando que aquilo era bobagem.
— O triplo, senhorita. — falou rápido.
— O que!? — fiquei de pé. — Por que diabos ele faria isso?? — eu estava chocada. — Ele não acha suficiente a fortuna que recebe sem trabalhar?? Por que ele precisaria de tanto dinheiro?? Isso pode nos prejudicar??
— Isso certamente desestabilizou as nossas finanças e bagunçou um pouco as coisas.
Vamos ter que cortar uma coisa ou outra esse mês, mas podemos ficar relaxados. O problema é se o senhor Alfonso tornar a fazer isso mês que vem.
— Nós precisamos achar ele antes que faça isso!
— Infelizmente, o banco não pode informar a localização dele. É questão de ética.
— Então, vamos descobrir por conta própria. Quero que vocês mobilizem todos os setores da empresa, seus melhores nerds da computação precisam trabalhar dia e noite até rastrearem o i****a do meu irmão!
— Sim, senhorita. — responderam em uníssono.
Saí de lá com tanto ódio que andei pelos corredores sem olhar para ninguém, bem rápido para chegar logo até a minha sala.
Passei pela Annie como um foguete, mas ela veio logo atrás e entrou na sala junto comigo.
— Você está bem? — perguntou depois de eu me jogar na minha cadeira.
— Sim. — suspirei.
— Olha, quando você disse que a gente ia ser amigas era pra valer, não? Então vamos lá. Me conte como uma amiga, não como secretária. — ela sentou na cadeira do outro lado da mesa e me olhou atenta. Não contive o sorriso pequeno que surgiu no canto da minha boca.
— Pelo menos essa é uma coisa boa de se ouvir depois da reunião tensa de agora.
— Foi algo muito sério?
— No momento, não. Mas temos que fazer alguma coisa antes que o meu irmão resolva nos falir de um jeito i*****l.
— O que ele fez?
— Tirou dinheiro da conta da empresa. O triplo do que ele geralmente recebe por mês! Foi uma verdadeira fortuna! — minha indignação era aparente.
— Não faz mesmo ideia de onde ele está?
— Não... ele só foi embora e disse que não era pra ninguém esperar por ele.
— Sinceramente, não parece que ele gosta de você. Que tipo de irmão faz uma coisa dessas?
— franziu a testa.
— Eu me faço essa pergunta todos os dias. E a resposta é sempre a mesma: todo mundo da minha família faria isso.
— Olha, eu tenho mais contato com os meus amigos do que com a minha família e posso dizer com toda a certeza que a melhor família é aquela que a gente escolhe, não a que tem o nosso sangue. — ela segurou minha mão que estava sobre a mesa, me pegando de surpresa.
— Você não está mais sozinha.
— Eu sempre gostei de você. — sorri.
— E eu de você. — sorriu de volta.
— Acho que você foi a única a conseguir ver algo de bom em mim antes de todo mundo.
— Eu conheço bem as pessoas. Sei quais são as intenções delas só de olhar o comportamento.
Tudo o que eu via em você era alguém que precisava de amor. E agora você tem isso.
— Sim. — mordi o lábio inferior me lembrando o quão sortuda era por tudo ter mudado para melhor. — Annie, você pode desmarcar os meus compromissos? Eu quero visitar um amigo agora à tarde. Só ele pra me acalmar.
— E esse amigo se chama Bernardo?
— Isso mesmo.
— Pode deixar que eu desmarco tudo.
Depois de se despedir, ela saiu da sala e eu liguei no orfanato pra saber se Bernardo estaria lá. Por sorte, havia chegado mais cedo de suas aulas e eu poderia ir visitá-lo.
Dirigi até o orfanato e assim que entrei pela porta da frente, Bernardo pulou em meus braços, me apertando forte.
— Como está, meu amor? — perguntei depois de nos afastarmos.
— Estou bem, ainda mais agora que você está aqui, tia Dul! — deu dois pulinhos de alegria.
— Eu precisava te ver. Não estava muito bem. — sorri de lado.
— Vem cá, vou te dar um presente pra que você fique feliz. — ele segurou minha mão e me puxou até o sofá. De sua mochila, ele tirou uma folha de papel que tinha um desenho. — Olha, esse no meio sou eu. E estou segurando a sua mão e a mão do tio Christopher. Nós estamos muito felizes. — segurei o desenho em minhas mãos e abri um sorriso sincero.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas e silenciosas, elas rolaram por minhas bochechas. Aquela era coisa mais pura que alguém já havia feito pra mim. Nenhum sentimento parecia tão sincero quanto o daquela criança comigo.
— O que foi, tia Dul? — ele estendeu sua mão e acariciou o meu rosto. — Você ficou triste?
— Não, meu bem. Ao contrário. Nunca fui tão feliz. — Bernardo sorriu e me abraçou. E ali nós nos mantivemos, abraçados enquanto eu acariciava sua cabecinha que estava encostada sobre o meu peito.
— Sabe de uma coisa, tia Dul? Eu te amo.
— Oh... — meu coração disparou e eu o abracei mais forte e mais lágrimas saltaram dos meus olhos. — Eu também te amo.
— Eu sei que a sua vida é difícil e que você merecia muito mais amor do que tem e que talvez, as pessoas que devessem estar com você não estejam, mas não se preocupe. Os verdadeiros estão perto e eles merecem ver o sorriso lindo que você tem todos os dias. — eu assenti concordando.
— Você é o meu ponto de paz, sabia?
— E você é o meu raio de sol! — sorriu. — Sabia que semana que vem é o meu aniversário? — se animou.
— É mesmo?
— Sim! Pena que nós não comemoramos.
— Por que não?
— A tia Miranda diz que não podemos pagar por essas coisas. — deu de ombros.
— Eu tenho uma ideia! E se eu te der a melhor festa de aniversário da sua vida?
— Faria isso por mim?
— Qualquer coisa pra te ver feliz. — acariciei seu rosto.
Fiquei no orfanato até amanhecer e antes de sair, conversei com Miranda sobre o aniversário do Bernardo e lhe prometi que pensaria em algo para fazer aquele dia ser especial.
Quando cheguei em casa e abri a porta da frente, logo ouvi uma discursão alta vindo do meu escritório e corri até lá.
Christopher e minha mãe brigavam como se fossem se estapear a qualquer momento.
— Gente, querem se calar, por favor?? — gritei e eles ficaram em silêncio. — O que aconteceu dessa vez?
— A sua mãe como sempre dificultando a minha vida!
— O que foi agora, Mary? — olhei pra ela com repreensão.
— Como pode acreditar nele dessa forma? Eu estava te defendendo! Sei que detesta que usem o seu local de trabalho, ele não pode entrar aqui dessa forma.
— Mary, eu dei a cópia da chave do escritório pra ele. — coloquei a mão sobre a testa.
— Tentei explicar isso pra Mary, mas você conhece a sua mãe! — Christopher disse.
— Onde eu errei com essa família? — ela saiu do escritório batendo o pé.
— Sinto muito por isso. — segurei a mão dele.
— Olha, a sua mãe tá começando a exagerar. — bufou.
— Uma hora ela vai se cansar, eu prometo.
— Tudo bem... Annie me disse que você foi ver o Bernardo à tarde e que você não estava muito bem, mas ela não me disse porquê.
— Pois é... — sentei em uma das cadeiras e relaxei. — Meu irmão parece estar querendo aprontar comigo.
— Ele entrou em contato?
— Não. Ele pegou muito dinheiro da conta da empresa e eu não consigo criar teorias que expliquem o porquê disso. O pior é que essa ação bagunçou as nossas finanças e se ele fizer isso mês que vem, vai nos prejudicar pra valer.
Agora nós temos que descobrir rápido onde ele anda e impedi-lo de fazer de novo.
— Eu entendo que esteja estressada. Mas a gente pode resolver isso. — sorriu de lado.
— Como? — sorri maliciosa, já imaginando o que ele queria dizer.
— Você sabe, mas aqui não. Sabe como é a sua mãe. — revirou os olhos.
— Então, onde?
— Confia em mim?
— Sim. — ele me estendeu a mão e eu segurei firme.
Nós fomos até a garagem e depois de entrarmos em seu carro, ele começou a dirigir.
No meio do caminho, ele ligou para alguém chamado Peter, a quem perguntou se o "lugar especial" estava disponível. E depois do que parecia uma resposta positiva, ele desligou o celular e me olhou com um brilho nos olhos.
Não questionei e esperei que ele me surpreendesse, apesar da ansiedade fazer o meu coração saltar.