Christopher
— Você fez o que? — Maitê me olhou perplexa após eu ter contado sobre minha última conversa com Dulce.
— Essa mulher precisa ouvir de alguém que ela não é tudo isso. — falei.
— Admiro a forma como você arrisca a própria vida. — Christian disse se esparramando ainda mais no sofá. — Vai se estranhar logo com a Dulce, cara? Ela é a poderosa chefona. — dramatizou.
— Também não é pra tanto. — Maitê revirou os olhos. — Eu achei que você a admirasse, Christopher.
— Admirava, até conhecê-la pessoalmente. Agora é só uma mulher rica e mimada que se acha melhor que os outros. — meu desprezo por ela surgiu tão rápido quanto um rastro de raio no céu.
— Sim? — Annie passou pela sala falando no celular. — Ok, eu compreendo. — pelo seu semblante, a conversa era séria. — Farei isso amanhã mesmo, tenha uma boa noite. — desligou o celular e olhou para nós três parecendo desapontada.
— O que foi, Barbie? — Christian perguntou.
— Dulce me ligou... ela quer que eu prepare a demissão da estagiária que derrubou café nela.
— O que? — fiquei de pé. — Ela não pode fazer isso!
— Bom, ela já fez. Vai doer na minha alma ter que preparar a carta de demissão... — suspirou.
— E tem mais uma coisa, Christopher. Ela mandou eu te dizer que se você for inconveniente outra vez, será o próximo a ser demitido.
— Que previsível! — ri.
— Me diz, o que você fez? — ela cruzou os braços e me encarou como se fosse me dar um sermão.
— Só defendi a garota da humilhação desnecessária que a Dulce fez ela passar.
— Christopher! — colocou a mão sobre a testa.
— Você sabe como funciona a lei da sobrevivência no mercado de trabalho. Não importa o quão injustas algumas coisas lhe pareçam, você não deve confrontar a pessoa responsável pelo seu ganha-pão.
— Foi exatamente isso que eu e May dissemos pra ele, mas você sabe como é o nosso amigo.
— disse Christian.
— Desse jeito não vai durar um mês, então controla o seu senso de justiça! — Annie me repreendeu.
— Eu posso tentar. — dei de ombros.
— E que tal se agora nós continuarmos o seu projeto? — May ficou de pé e falou com animação. — A semana acaba logo logo.
Mais uma noite pesada se passou. Já estava até começando a esquecer como era dormir o suficiente.
Fizemos metade do trabalho e Maitê, por ser mulher e entender melhor a mente feminina da nossa chefe, deu a maior parte das ideias.
No dia seguinte, pegamos o ônibus bem cedo para chegar até a empresa. Não via a hora de comprar logo o meu carro e poder acordar um pouco mais tarde.
Quando chegamos ao nosso andar, vi a estagiária do dia anterior carregando uma caixa de papelão com alguns pertences dentro. Seus olhos estavam cheios de lágrimas e ela com certeza segurava o choro.
— Meu Deus... — murmurei.
— Tudo bem, Christopher. Vou fazer uma carta de recomendação e ela achará um emprego logo. — disse Anahi, colocando a mão sobre o meu ombro.
— Isso é muito c***l, eu tenho que fazer alguma coisa. — saí andando em direção à sala de Dulce.
— Christopher, o que diabos você vai fazer? — Annie andava apressada atrás de mim. — Não faça isso! — segurou o meu braço assim que toquei a maçaneta da porta da sala. — Pelo amor de Deus, não se mete nisso! Ela não vai mudar de ideia e você pode se complicar!
— Ela tem que mudar de ideia!
As tentativas de Annie em tentar me manter longe da sala falharam. Assim que cruzei a porta, Dulce que estava distraída com alguns papéis, levantou os olhos e me encarou séria.
— Senhorita Saviñon, o Christopher já está de saída! Ele não quer atrapalhar o seu trabalho. — novamente tentou me puxar, mas eu não me movi nenhum centímetro.
— O que quer, Uckermann? — cruzou as mãos sobre a mesa ainda me encarando.
— Quero que a senhorita repense a demissão da estagiária. — ela arqueou uma das sobrancelhas e em seguida, gargalhou.
— Sai daqui. — disse com um sorriso no rosto.
— Estou falando sério. — me aproximei apoiando minhas mãos sobre a mesa e inclinando-me para perto dela. — Não é justo o que está fazendo, a garota não merece isso. E eu sei que em algum lugar aí dentro de você tem um pouco de empatia. Talvez esse estágio seja a única fonte de renda que ela tem.
— Que fizesse um trabalho melhor, então. — falou despreocupada.
— O trabalho dela não foi r**m. Só vai demiti-la pra alimentar o seu ego. — o sorriso no rosto dela morreu e ela me olhou como se fosse me devorar, mas não no sentindo bom da palavra.
— Christopher! — Annie me repreendeu.
— Annie, me deixe sozinha com o Uckermann.
— falou sem tirar os olhos de mim.
— Sim, senhorita. — assim que Annie se foi, ela ficou de pé.
Caminhou devagar até as vidraças e observou o trânsito que passava em frente ao prédio. Depois, tornou a me observar.
— Teve tempo de conhecer toda a empresa? — sua pergunta me causou estranheza.
— Ainda não, é um lugar grande.
— Sabe como nós conseguimos ter funcionários tão leais aqui dentro?
— Contratando pessoas competentes? — falei como se fosse óbvio.
— Mais do que isso. Arrancamos a lealdade depois de arrancar o respeito. Não há ninguém nessa empresa que seja mais respeitado do que eu.
— Isso não é conquistar respeito, é conquistar o medo.
— Chame como quiser, não me importo. Talvez eu seja mesmo autoritária demais, mas é por uma boa causa. — ela ficou de frente pra mim e sentou sobre a sua mesa e cá entre nós, estava perto demais. Não controlei meus olhos que foram direto para o seu decote. — Existem muitos motivos que me fazem demitir alguém. Não estou demitindo ela porque derrubou café em mim. Vou demiti-la porque fez isso na frente dos outros funcionários. Você chama de atrair medo, eu chamo de atrair respeito. Assim todos verão que não devem errar, nem um pouquinho que seja. E tudo estará devidamente em seu lugar na minha empresa.
— Destruir a vida de alguém pra que os outros continuem vendo-a com medo... errei em pensar que existia compaixão em você.
— Vamos fazer dessa forma... — ela ajeitou o meu colarinho e chegou ainda mais perto. — Você vai sair da minha sala agora e eu vou esquecer os recentes incômodos que me causou, ok? — ela disse suave, como se quisesse minimizar sua fala.
— Eu... — o batom vermelho em sua boca prendia a minha atenção e eu já até havia esquecido o que tinha ido fazer ali.
— Preciso te acompanhar até a porta?
— Não.
Me afastei dela e antes de sair, dei uma olhada rápida por cima do ombro e a vi sorrindo.
Parei do outro lado da porta me perguntando o que acabara de acontecer.
— E aí? — Annie me olhou aflita.
— Eu... eu não sei. — ainda estava atônito.
— Ela ainda vai demitir a menina?
— Sim.
— E tudo bem pra você? — franziu a testa.
Parei pra analisar e eu saí da sala mais relaxado do que quando entrei.
— Maldita... — falei para mim mesmo.
— Como?
— Essa mulher é muito venenosa! Eu estava firme na minha imposição e aí do nada... eu... — Annie gargalhou.
— Você não é o primeiro. Agora vai trabalhar logo!
Segui para a minha sala com raiva de mim mesmo por ter me deixado distrair por uma atração física ridícula! Era só mais uma mulher, linda, eu confesso, mas não há nada nela além de beleza. Todo o seu interior era podre e sem vida, nunca seria o tipo de mulher que valesse à pena.