"Depois desse dia de trabalho uma coisa eu sei... Aquele homem não foi com a minha cara!"
Cheguei na segunda aula, eu estava super atrasada, e eu não queria ficar perdendo aula no último ano do ensino médio.
Felipe se esquivou de sua cadeira para a minha quando me viu chegar.
- E aí como foi? Perguntei curioso.
- Como foi o quê? Perguntei abrindo a minha bolsa.
- Como o quê? Ele revirou os olhos.- O trabalho de Babá?! Você não foi?
Assenti entendendo...
- Foi normal! Dei de ombros.
- Quê? Ele ficou pasmo. - Como normal Angel? É o seu primeiro dia!
Coloquei meu caderno sobre a mesa enquanto procurava a matéria do professor Aguirre.
- Foi tranquilo... Dei um meio sorriso.
- Você parece aérea! Ele levantou as sobrancelhas.
- Só estou cansada! Me virei para olha-lo.
- São perturbadas né? As meninas?!
- Nãoo! Balancei a cabeça em negativa.- Elas não me deram trabalho nenhum!
Respondi sorrindo ao me lembrar das gêmeas.
- E a mãe delas? É uma dondoca? Ele continuou com as especulações.
- Elas não tem mãe Felipe! E o semblante dele caiu na hora.- Foram criadas pelo pai e pela avó!
Felipe era meio cabecinha de vento porém tinha sentimentos. Ficou chocado com a revelação que eu fiz apenas com duas frases.
O professor passava a matéria na lousa enquanto Felipe sussurrava com o canto da boca.
- E o pai delas? É bonito? Ele perguntou com um sorriso maroto.
Do que adianta ser bonito e carregar tanta antipatia! Pensei.
- Não prestei atenção! Menti.
Felipe apertou os olhos como se quisesse me esganar. Mas fui salva pelo professor que pediu que prestássemos atenção no que ele ia começar a falar.
Na verdade Felipe tinha razão eu estava aérea. Aquela família mexeu demais comigo!
Principalmente as gêmeas... Eu não sei, se sentimos assim com o primeiro emprego, mas posso afirmar que fui embora o caminho todo pensando nelas.
Eu tinha tantas dúvidas! Por exemplo porque um homem que dizia coisas tão lindas para as filhas, me olhou com tanta raiva daquele jeito?
Ele tinha um olhar penetrante, eu jamais conseguiria encara-lo. Tive medo dele na primeira instância, acho que ele deve ser extremamente bravo!
Coitadinha da mulher dele, como conseguiu atura-lo?
Aaah eu não posso ficar pensando nessas coisas! Não é da minha conta se ele sorri ou não! Se ele não gosta de mim, pouco me importa!
Eu só quero receber o meu dinheirinho honesto pra cuidar da vovó!
Eu também precisava dar um jeito de conciliar trabalho e a escola. Eu tinha um plano, talvez não fosse uma boa idéia, mas era a única que eu tinha até então.
(...)
Na volta pra casa Felipe não fez mais perguntas sobre os De'Fragma, e eu fiquei feliz por isso.
Enquanto andávamos até em casa víamos casais se beijando em alguns lugares. E por um momento eu fiquei pensativa.
Talvez eu devesse estar aproveitando essa fase, talvez eu devesse estar beijando algum garoto em uma esquina qualquer.
Mas estou aqui, ouvindo o meu melhor amigo falando sobre mangás.
- Felipe! O interrompi por um momento.- Você me acha bonita?
Felipe parou de andar e me olhou de um jeito esquisito. Como se eu tivesse sendo abduzida naquele momento por ETs.
- Angel! Porquê isso agora? Ele disse confuso. - Você sabe que eu não curto as morenas! Felipe disse ironizando, porque nós dois sabíamos que ele não curtia mulher nenhuma.
- Eu só queria uma opinião masculina! Disse com desdém.
Continuamos andando calados até chegarmos na rua da minha casa.
- Angel na boa... Felipe começou.- Te acho a garota mais bonita da sala! Me virei pra ele vendo seu olhar sincero.- Porquê não dá uma oportunidade para os meninos se aproximarem de você?
- Valeu! Agradeci ao elogio.- Talvez eu devesse mesmo... Respondi concordando.
- Sei lá! Ele deu de ombros.- Eu vejo como eles olham pra você!
Arqueei as sobrancelhas, porque definitivamente eu não via nada.
- Você é estranha sabia?! Ele disse rindo.
- Me diga algo que eu ainda não sei! Revirei os olhos.
- Sei lá você age como se tivesse comprometida! Não flerta com os garotos e não se comporta como uma garota normal!
Ri de sua sinceridade, até o meu melhor amigo não me achava normal!
- Talvez eu tenha nascido na época errada! Falei subindo na calçada da minha casa
- Você fica desperdiçando as chances de conhecer esses boys lindos! Gargalhei do comportamento dele.- Tem gente que não sabe aproveitar a oportunidade que tem!
Felipe fazia caras e bocas muito engraçadas. Mas eu sei que no fundo no fundo, ele só queria que eu me enturma-se.
- Boa noite Fê! Falei acenando pra ele enquanto entrava em casa.
- Boa noite Angel, durma bem! Felipe disse e continuou seu trajeto até a sua casa.
(...)
Como esperado Vovó cochilava no sofá, ela sempre tinha essa mania. De me esperar até não aguentar mais o sono.
Dei um beijinho em sua testa e a cobri com o seu cobertor. Depois resolvi tomar um banho, antes de cair no meu tão almejado sono.
Enquanto a água caía sobre mim por um instante eu ouvi a vozinha da Rebecca "Papai disse que todas que tem olhos azuis são princesas!"
Por que estou pensando nisso uma hora dessas??
Fechei os olhos e tentei espairecer, não queria ficar pensando tanto naquela família... Muito menos naquele "Homem de gelo", eu poderia ter até pesadelos!
Voltei para o quarto de camisola e tentei dormir, amanhã o dia seria longo...
(...)
Eu sabia que não ia dar tempo de chegar em casa todos os dias e tomar banho para ir para a escola. Então eu pensei que talvez eu pudesse tomar banho no meu trabalho...
Claro que se a Dona Diana vier hoje eu explicarei pra ela a minha situação.
Pois bem... Para a nossa alegria quando cheguei hoje nos De'Fragma o carrancudo já tinha ido trabalhar.
Fiquei lendo a agenda da Diana já que hoje ela não apareceu. As meninas faziam vários programas com a avó, pensei de fazer algo legal com elas também.
Olívia me ofereceu gelatina mas eu sabia que era desculpa para puxar papo.
- Você mora longe daqui? Ela perguntou interessada.
- Mais ou menos uma hora de ônibus! E ela já deduziu que eu morava no Brooklin.- E a senhora, faz tempo que trabalha com eles? Perguntei provando da gelatina.
- Há muitos anos... Ela sorriu orgulhosa. - Mas antes eu trabalhava com o Doutor Álvaro!
Não fiz muita questão pois não sabia de quem se tratava.
- Ele é o pai do Pither! Ela continuou. E eu me mostrei mais interessada.
Olívia era uma senhora forte, com bochechas rosadas e sorriso simpático.
- Então a senhora conhece o Senhor Pither á muito tempo? Perguntei já pensando na possibilidade de saber mais sobre aquela família.
- Sim desde que ele era solteiro!
Hummm... Isso era bom! Eu estava debruçada sobre a bancada, de costas para a porta e muito á vontade com a cozinheira.
- Me diz Olívia... Comecei e ela pigarreou. Olhei em seus olhos e a cozinheira me deu sinal com a cabeça.
Algo me diz que eu estou encrencada!
Senti minhas orelhas arderem quando me virei para atrás. Era ele! O homem de gelo, estava de braços cruzados encostado no batente da porta, me olhando com a expressão mais vazia possível.
- Continue a interrogar a minha cozinheira, Angel!
A voz dele era rouca e grave. Tive vontade de fazer um buraco no chão e me esconder dentro!
Meu rosto corou, e eu senti minhas pernas tremerem. Engoli em seco e abaixei a cabeça completamente envergonhada.
Olívia saiu da cozinha pela porta dos fundos e eu fiquei esperando a minha sentença.
Quando levantei meus olhos fitei os seus, e ele saiu da cozinha balançando a cabeça indignado.
Fui de pé por pé e avistei ele subindo as escadas. Caramba! Ele vai ligar para a Diana e contar que eu estava especulando a sua vida!
Que mancada! Porque eu não fiquei com a minha boca fechada? Porquê eu Sinto tanta necessidade de ficar querendo saber coisas que não são da minha conta?!
O homem de gelo não desceu do quarto, e eu dei graças a Deus quando Léo me chamou para buscar as meninas na escola.
Eu estou com muito medo! Acho que quando ele descer aquelas escadas vai ser para me mandar procurar o caminho da rua.
Quando as gêmeas me viram em frente ao colégio foi uma festa. Mesmo elas sendo já bem grandinhas ficaram pulando em cima de mim, extremamente felizes.
Na volta pra casa elas foram me contando tudo o que aconteceu de interessante na escola. Léo nos olhava pelo retrovisor e sorria da empolgação das meninas.
Quando chegamos na casa delas as gêmeas entraram correndo indo em direção a cozinha.
Eu fui andando devagar logo atrás, foi aí que me lembrei da Regra número 1.
"Entreter as meninas para que elas deixem o pai almoçar sossegado!"
Angel outro bola fora!
Acelerei os passos entrando na sala e deparei com o Senhor Pither, ele vinha com as meninas uma de cada lado segurando em suas mãos.
- Me desculpe senhor! Falei deixando notório o meu erro.
Ele me encarava nos olhos, expressão firme. Depois se virou para as meninas e disse com calma.
- Vão trocar de roupas, papai já vai falar com vocês!
As meninas assentiram e subiram as escadas me chamando. Eu me virei para acompanha- las, mas de novo fui surpreendida.
- Angel! Ele me chamou. Endureci o meu corpo na hora.
Fiquei tão tensa que tive medo de sofrer de câimbra pelos próximos dias.
Me virei bem devagar, temendo mais uma repreensão. Pither fez sinal para que eu me aproximasse.
Meu coração acelerou dez vezes mais, talvez se ele prestasse atenção ouviria as batidas do lado de fora.
Ele sabia que me intimidava. Sabia que eu tinha pavor dos seus olhos nos meus olhos.
- Eu quero que pare de ficar interrogando as minhas filhas e os meus funcionários!
Nos seus olhos vi ganhar um brilho diferente, como se ele realmente tivesse incomodado.
- Não vai mais acontecer senhor! Falei outra vez me desculpando.
- Pode ir! Ele assentiu sério, frio e com a voz firme.
Eu subi as escadas sem olhar pra trás, praguejando o dia em que resolvi trabalhar para esse homem.